O café está a arrefecer na mesa entre vocês.
Mal tocaste no teu porque estás demasiado ocupado(a) a acenar com a cabeça. Outra vez.
Estão noutro monólogo sobre a semana deles, o chefe deles, a dieta especial do cão deles.
Sempre que abres a boca, a conversa volta a desviar-se para eles, como um carrinho de compras com uma roda empenada.
Começas a perguntar-te: estarão só entusiasmados, ou há algo mais profundo a acontecer?
A certa altura, o constante “eu, eu, eu” deixa de ser excêntrico e começa a pesar.
Vais para casa a rever a conversa, não porque tenha sido profunda, mas porque mal exististe nela.
O que a psicologia diz realmente sobre pessoas que não param de falar sobre si próprias
Há anos que os psicólogos se interessam por quanto espaço as pessoas ocupam nas conversas.
Falar sobre si próprio(a) nem sempre é um sinal de alerta; por vezes é apenas entusiasmo a transbordar.
Mas quando alguém centra constantemente todos os temas em si, começam a surgir padrões.
A investigação sobre narcisismo, ansiedade social e vinculação mostra que o auto-discurso repetitivo muitas vezes esconde algo por baixo da superfície.
Pode ser uma necessidade de se sentir especial, uma forma de acalmar um pânico interno, ou simplesmente um hábito aprendido por ter crescido numa família barulhenta.
O ponto-chave não é falarem sobre si.
É com que frequência, com que intensidade, e se deixam espaço para mais alguém na sala.
Pensa num simples jantar com amigos.
Uma pessoa conta uma história curta sobre um erro no trabalho, toda a gente se ri e depois o tema segue.
Isso é auto-revelação normal e saudável.
Agora imagina o Marco, que transforma esse mesmo jantar num espetáculo a solo.
Se alguém menciona as férias, o Marco teve umas “melhores”.
Se um colega está stressado, ele explica como ele lida com o stress como um profissional.
No fim da noite, os outros deixam de tentar.
Deixam-no “tomar o palco” porque dá menos trabalho.
O Marco vai embora a pensar: “Grande noite, conectei mesmo.”
Toda a gente sai a sentir-se estranhamente invisível.
Estudos sobre equilíbrio na conversa mostram que as pessoas que dominam a fala muitas vezes sobrestimam o quão agradáveis são.
O cérebro recompensa-as com pequenos “picos” de dopamina quando partilham as suas histórias.
Sabe bem, por isso continuam.
Algumas são movidas por traços ligados ao narcisismo: fome de admiração, forte foco no estatuto, tendência para ver os outros como personagens secundárias.
Outras são o oposto por dentro: inseguras, ansiosas, aterrorizadas pelo silêncio, usando palavras como escudo.
A psicologia não as vê como “más pessoas”, mas como pessoas a usar uma estratégia ruidosa para satisfazer necessidades muito silenciosas.
Como distinguir confiança, insegurança e narcisismo
Quando alguém fala sem parar sobre si, o conteúdo importa menos do que o padrão.
Os psicólogos tendem a olhar para três pistas: alternância de vez, curiosidade e amplitude emocional.
Primeiro, alternância: alguma vez voltam a ti, ou tratam as tuas frases como trampolins?
Segundo, curiosidade: fazem perguntas de seguimento, ou apenas esperam pela próxima “entrada”?
Terceiro, amplitude emocional: só se sentem à vontade a partilhar sucessos, ou conseguem também ficar com histórias confusas e vulneráveis?
Uma pessoa confiante pode falar muito sobre a sua vida, mas ainda assim deixa espaço para respirar.
Um padrão narcísico aparece quando precisam sistematicamente de ganhar todas as histórias, todas as comparações, todas as salas.
Num plano mais pessoal, pensa naquele colega que está sempre a “superar” as tuas experiências.
Dizes que estás cansado(a); ele está “exausto”.
Partilhas uma pequena vitória; ele teve uma promoção maior há dois anos e nunca recuperou totalmente de quão incrível foi.
À superfície, parece gabarolice.
Por baixo, a investigação sobre autoestima frágil sugere outra coisa: um núcleo interno instável que precisa de prova constante de que ainda importa.
Há também quem partilhe em excesso de forma crónica.
Não necessariamente grandioso(a), mas a inundar-te com detalhes que nunca pediste.
Falam dos padrões de sono, do(a) ex, da terapia… numa chamada de trabalho.
Muitos terapeutas veem isto como uma questão de limites misturada com solidão.
A pessoa não aprendeu onde termina “o meu mundo interior” e onde começa “a tua capacidade emocional”.
Não quer dominar; simplesmente não sabe como dosear a intimidade.
Depois há a versão mais silenciosa e escondida: o(a) falador(a) ansioso(a).
Enche o silêncio porque o silêncio parece rejeição.
Se a conversa abranda, o cérebro sussurra: “És aborrecido(a), diz alguma coisa, o que for.”
Por fora, os três tipos - narcísico, partilha excessiva, ansioso - podem parecer semelhantes: muito discurso sobre si.
Por dentro, as motivações diferem.
É por isso que os psicólogos insistem no contexto, e não em rótulos rápidos.
A pessoa que sequestra todas as conversas pode ser egocêntrica… ou estar secretamente desesperada por ser apreciada.
O que podes realmente fazer quando alguém só fala sobre si
Há um pequeno movimento, discreto, que muitos psicólogos recomendam: mudar conscientemente o “enquadramento” da conversa.
Em vez de deixares que seja “eles num palco”, empurras suavemente para “dois seres humanos numa sala”.
Um método é a técnica “refletir e redirecionar”, usada em terapia.
Primeiro, refletes brevemente o que a pessoa disse (“Parece que o trabalho tem estado intenso para ti”).
Depois redirecionas com um convite claro e aberto: “Eu também tive uma semana estranha - queres ouvir uma coisa esquisita que me aconteceu?”
Se forem capazes de ligação, essa porta costuma funcionar.
Se ignorarem e saltarem logo de volta para a história deles, o teu cérebro ganha dados úteis.
O padrão não é só entusiasmo.
É um hábito: não te estão a acompanhar de todo.
Quando isso acontece repetidamente, a autoproteção passa a fazer parte da conversa.
Podes continuar a ser simpático(a), mas não tens de estar infinitamente disponível.
Limites curtos e assentes no chão ajudam: “Tenho uns dez minutos antes de ter de me concentrar noutra coisa” ou “Diz-me um destaque e depois quero mesmo partilhar algo também.”
Parece simples, mas muito poucas pessoas o dizem em voz alta.
Sejamos honestos: ninguém faz realmente isto todos os dias.
A maioria de nós só absorve, sorri e depois queixa-se a outra pessoa.
Os teus limites ficam invisíveis, por isso o monólogo continua a rolar.
“Falar constantemente sobre si próprio(a) nem sempre é arrogância. Às vezes é a única linguagem que uma pessoa aprendeu para pedir para ser vista.”
Saber isto não significa sacrificar o teu espaço mental.
Significa que podes responder com clareza e um pouco de ternura - incluindo para contigo.
- Repara como te sentes depois de estar com a pessoa: drenado(a), neutro(a) ou nutrido(a)?
- Experimenta um pequeno limite em vez de tentares “consertar” a relação toda.
- Lembra-te de que tens o direito de te afastar de pessoas que nunca criam espaço emocional para ti.
Quando o espelho se vira para nós
Há uma reviravolta silenciosa que a psicologia traz muitas vezes: as pessoas que mais nos irritam podem estar a segurar um espelho.
Se tiveres coragem, podes perguntar-te: “Onde é que eu também faço isto?”
Num dia stressante, quase toda a gente desliza para um discurso centrado em si.
Chegas a casa, despejas o dia inteiro em cima de um(a) parceiro(a) ou amigo(a), e só mais tarde percebes que não perguntaste nada sobre o dia deles.
Isso não te torna narcísico(a); torna-te humano(a) sob pressão.
O problema começa quando isto se torna a tua configuração padrão.
Quando tratas consistentemente as conversas como um palco, e não como um espaço partilhado, as relações ficam finas.
As pessoas começam a afastar-se em silêncio.
Respondem com “Hmm, pois” em vez de envolvimento real.
Por vezes, os psicólogos sugerem um exercício simples: nas próximas três conversas, faz conscientemente duas perguntas de seguimento antes de partilhares a tua história.
Vê como isso se sente no corpo.
Estranho? Aborrecido? Surpreendentemente acolhedor?
Isto não é sobre policiamento para um comportamento social perfeito.
É sobre reequilibrar a troca que faz a ligação parecer viva.
Num nível muito básico, ser ouvido(a) é a forma como nos lembramos de que existimos.
Todos já vivemos aquele momento em que alguém finalmente diz: “Chega de mim, e tu?” - e diz mesmo a sério.
São essas conversas que lembramos.
Num mundo onde tanta gente está a gritar a própria história, a competência rara é fazer a história de outra pessoa sentir-se segura e bem-vinda.
Por isso, quando encontras alguém que fala sobre si o tempo todo, não estás apenas a lidar com um hábito irritante.
Estás perante um ecossistema psicológico inteiro: necessidades, medos, defesas e, por vezes, muita dor.
As tuas escolhas - ouvir, limitar, afastar-te, ou desafiar suavemente o padrão - moldam um pouco esse ecossistema.
Também moldam o teu.
E algures entre o monólogo deles e o teu silêncio, há um meio-termo onde ambos conseguem existir.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Falar centrado em si tem raízes diferentes | Pode resultar de narcisismo, insegurança, ansiedade ou solidão | Ajuda-te a não correres para rótulos duros nem para a culpa |
| Os padrões importam mais do que momentos isolados | Observa a alternância, a curiosidade e o espaço emocional | Dá-te uma forma clara de “diagnosticar” conversas na vida real |
| Podes definir limites suaves e explícitos | Usa refletir-e-redirecionar e limites de tempo | Protege a tua energia mantendo-te firme e respeitoso(a) |
FAQ:
- Uma pessoa que fala muito sobre si é sempre narcísica? Não necessariamente. A psicologia liga o auto-discurso constante a várias coisas: traços narcísicos, autoestima frágil, ansiedade ou hábitos de comunicação aprendidos. Rótulos como “narcisista” são clínicos e baseiam-se num padrão completo ao longo do tempo, não apenas num comportamento irritante.
- Falar demasiado sobre si pode prejudicar relações? Sim, sobretudo ao longo de meses e anos. As pessoas podem sentir-se não vistas, não ouvidas, ou usadas como audiência. Muitas vezes deixam de partilhar, ficam distantes, ou só mantêm a relação em contextos de grupo, onde o impacto se dilui.
- Como sei se sou eu quem faz isto? Repara com que frequência sais de uma conversa e percebes que não sabes nada de novo sobre a outra pessoa. Se isso acontece muito, ou se as pessoas te descrevem como “intenso(a)” ou “demasiado”, pode ser um sinal para abrandar e criar mais espaço.
- O que posso dizer no momento sem soar agressivo(a)? Experimenta frases como “Também gostava de partilhar uma coisa” ou “Podemos passar para o meu lado da história por um bocadinho?” Dit as com calma, não são ataques; são pedidos simples de equilíbrio, e pessoas emocionalmente saudáveis costumam reagir bem.
- Quando é mais saudável afastar-me? Se expressaste claramente as tuas necessidades, tentaste reequilibrar as conversas, e a outra pessoa continua a ignorar os teus sinais, afastar-te pode ser protetor. O apagamento constante da tua voz pode desgastar a tua autoestima com o tempo.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário