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A forma como reage a interrupções revela o que acredita sobre o valor da sua voz.

Jovem a escrever num caderno numa mesa de madeira, rodeado por outras pessoas, com um copo de água com limão.

A primeira vez que reparas mesmo nisso nunca é durante um grande debate. É numa reunião sobre prazos de terça‑feira, ou num jantar de família quando alguém atravessa a tua frase e começa a falar como se as tuas palavras fossem ruído de fundo. A tua boca ainda está meio aberta, a tua ideia suspensa a meio do ar, e, no entanto, a conversa já seguiu sem ti. Sentes aquela micro‑picada familiar por dentro do peito. Perguntas-te se mais alguém reparou que te cortaram. Perguntas-te se estás a exagerar. E depois fazes o que fazes sempre: ou ficas mais calado(a), ou fazes frente. O estranho é que ambas as escolhas estão a dizer algo mais profundo do que pensas.
Por vezes, a forma como respondes quando te interrompem revela aquilo em que acreditas, de verdade, sobre a tua própria voz.

O que acontece mesmo cá dentro quando alguém te corta a palavra

Quando alguém te interrompe, a sala não muda apenas acusticamente - muda psicologicamente. O teu cérebro faz uma verificação rápida: “Isto foi falta de respeito? Ou só entusiasmo?” O teu corpo reage antes da tua lógica. Talvez os ombros se tensionem. Talvez a mandíbula se contraia. Talvez o olhar baixe. Esse pequeno momento de fricção social expõe algo que raramente encaras de frente: a tua relação com a tua própria voz. Achas que as tuas palavras merecem que voltes a elas, ou são descartáveis? Presumes que as pessoas querem ouvir o resto, ou que tu já és “demais”? A forma como reages nesses dois segundos raramente é aleatória.

Imagina uma reunião semanal de equipa. A Olívia, gestora de nível intermédio, está a apresentar uma ideia sobre mudar a forma como a equipa comunica o progresso. Fala com cuidado, para não soar exigente. O chefe corta-lhe a frase a meio, muda para outro tema e as pessoas seguem naturalmente. A Olívia ri baixinho, encosta-se na cadeira e fica calada até ao fim da discussão. Depois da reunião, diz a um colega: “Provavelmente nem estava a explicar muito bem.” Mais tarde, o colega apresenta uma ideia semelhante, num tom mais firme, e quando é interrompido diz calmamente: “Espera só um segundo, deixa-me acabar este raciocínio”, e continua. A mesma mesa. O mesmo chefe. Guiões interiores muito diferentes.

À superfície, parece um problema de dinâmica: umas pessoas são mal‑educadas, outras são educadas, as reuniões são confusas. Mas por baixo há um sistema de crenças mais silencioso. Se deixas consistentemente que as interrupções te apaguem, uma parte de ti aceitou que a tua voz é negociável. Se atropelas as interrupções todas as vezes, talvez tenhas decidido que a tua voz só conta quando domina. Ambas as reacções são armadura. Ambas são hábitos nascidos de experiências antigas - salas de aula onde não te escolhiam, famílias onde os mais altos ganhavam, locais de trabalho que recompensavam quem falava mais depressa. A resposta a que recorres por defeito é uma espécie de confissão: diz-te se te vês como um igual na sala, ou como um convidado que devia estar grato por qualquer bocadinho de espaço.

Como responder de uma forma que honre a tua voz

Há um pequeno e poderoso meio-termo entre o silêncio e passar por cima de toda a gente. Começa com um gesto simples: recuperar a tua frase com calma. Sem drama. Sem levantar a voz. Com uma expressão curta e firme que diz: “Eu também pertenço aqui.” Frases como “Só vou terminar o meu ponto” ou “Deixa-me concluir este pensamento” são pequenas pontes de volta para a tua própria voz. O teu tom faz metade do trabalho: neutro, assente, quase aborrecido. Não estás a atacar a pessoa que te cortou; estás apenas a recusar desaparecer. Essa é a competência discreta de quem respeita as próprias palavras sem precisar que todos os outros se curvem perante elas.

Uma armadilha comum é pensar que só tens duas opções: engolir a interrupção ou combater como se fosse um duelo. Então ou encolhes, dizendo a ti próprio(a) que falas da próxima vez, ou voltas demasiado ríspido(a) e depois repetes o momento a noite toda, a pensar se soaste agressivo(a). Há um caminho mais suave que não exige que te tornes noutra pessoa. Podes colocar um marcador gentil na conversa: “Já volto a isso, só quero terminar o que estava a dizer.” Também podes usar a linguagem corporal: manter a postura aberta, o olhar estável, as mãos descontraídas em vez de te fechares. O teu sistema nervoso vai querer recuar; o teu trabalho é manteres-te presente tempo suficiente para concluir um pensamento.

Por vezes, a coisa mais corajosa que podes fazer numa conversa não é ganhar, mas simplesmente não desaparecer.

  • Frases simples para recuperar a palavra: “Deixa-me só terminar esta ideia.” / “Gostava de concluir o meu ponto e depois tenho curiosidade em ouvir o teu.”
  • Âncoras não verbais: Mantém-te virado(a) para o grupo, mantém as mãos quietas na mesa e expira lentamente antes de voltares a falar.
  • Pista de timing: Espera por uma micro‑pausa natural no discurso de quem interrompe e entra de novo com calma, em vez de te precipitares ou aumentares o volume.
  • Pergunta de auto‑verificação: Depois de cada reunião ou conversa, pergunta-te: “Abandonei a minha própria frase?” e não “Toda a gente adorou o meu ponto?”
  • Lembrete cru e simples: Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias, mas praticar uma ou duas vezes por semana pode mudar silenciosamente a forma como te vês.

O que a tua reacção te está a ensinar, em silêncio, sobre o teu valor

Da próxima vez que alguém te cortar a palavra a meio de um pensamento, não analises apenas as boas maneiras da pessoa. Repara no teu próprio reflexo. Assumes imediatamente que a outra pessoa tem razão em avançar? Sentes que estás a incomodar se ocupares mais quinze segundos? Ou sentes uma faísca de raiva que até te surpreende? Cada uma dessas reacções é um pequeno espelho. Reflectem histórias antigas que carregas sobre seres demais, seres de menos, ou seres exactamente o suficiente. Quando recuperas a tua voz com gentileza, não estás apenas a gerir uma conversa - estás a editar essa história em tempo real. Estás a ensinar-te que as tuas palavras podem ser interrompidas sem serem apagadas. E essa crença silenciosa, quando assenta, muda a forma como te sentas em todas as mesas - incluindo a que existe dentro da tua própria cabeça.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Interrupção como espelho A tua reacção por defeito revela como vês o teu lugar na sala Ajuda-te a identificar crenças escondidas sobre a tua voz e o teu valor
Recuperar a palavra com calma Frases curtas e neutras e linguagem corporal estável trazem-te de volta à conversa Dá-te uma forma prática de responder sem exagerar nem desaparecer
Reescrever o guião interior Cada vez que concluis a tua frase, enfraqueces histórias antigas de não pertencer Constrói confiança e presença a longo prazo em reuniões, relações e no dia a dia

FAQ:

  • Pergunta 1 O que faço se a pessoa que me interrompe é o meu chefe ou alguém com mais poder?
  • Pergunta 2 Como sei se sou interrompido(a) muitas vezes ou se estou só a ser sensível?
  • Pergunta 3 O que posso dizer se bloqueio no momento e só mais tarde percebo que me cortaram?
  • Pergunta 4 Como evito ser eu a interromper quando estou entusiasmado(a)?
  • Pergunta 5 Mudar a minha resposta às interrupções pode mesmo mudar a forma como me vejo, no geral?

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