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A ligação ignorada entre atrasos crónicos e evitar emoções e como resolver a causa principal

Mulher de pé na porta, segurando uma maçaneta, mão no peito, bolsa, telemóvel e caderno sobre a mesa.

A porta fecha-se com um clique às 9:12.

A reunião começou às 9:00. Os olhares viram-se - alguns com divertimento, outros com aquela irritação silenciosa que se sente sem ninguém dizer uma palavra. A pessoa que chega atrasada murmura um pedido de desculpa, larga a mala e senta-se depressa demais. Coração a disparar, a mente já a meio caminho da autoacusação. “Porque é que continuo a fazer isto?”

No calendário, são apenas doze minutos. No corpo, parece mais uma pequena falha numa lista longa. Não ficou presa no trânsito. Não houve nenhuma emergência. Estava… a fazer scroll. A reorganizar uma prateleira. A reescrever uma frase de um e-mail três vezes. Tudo menos sair a horas.

Parece má gestão de tempo. Muitas vezes, não é.

A emoção escondida por trás de “eu estou sempre atrasado(a)”

O atraso crónico normalmente não começa na rua, com alguém a correr para apanhar o autocarro. Começa muito antes, naqueles minutos estranhos e elásticos em que sabe que devia estar a preparar-se, mas continua a adiar. Os sapatos estão à porta, as chaves em cima da mesa, e o cérebro está noutro sítio qualquer.

Esse “noutro sítio” é muitas vezes emocional. A reunião que está a evitar. O(a) amigo(a) com quem não tem a certeza se consegue ser honesto(a). O trabalho que parece uma fuga lenta de energia. O atraso torna-se uma forma suave, quase invisível, de criar distância entre si e aquilo que teme enfrentar.

Chamamos-lhe “maus hábitos”. Por baixo, muitas vezes são emoções por acabar.

Pense no(a) colega que chega atrasado(a) a todas as reuniões semanais de equipa, mas aparece a horas na festa da empresa. Ou no(a) amigo(a) que chega 30 minutos depois aos jantares, mas nunca perde um voo. O relógio não mudou. O peso emocional, sim.

Uma terapeuta de Londres com quem falei observa o mesmo padrão nos seus clientes. Raramente se atrasam para coisas que parecem seguras. Os piores atrasos surgem onde há tensão: avaliações de desempenho, familiares difíceis, consultas médicas com resultados incertos. Quanto mais vulneráveis se podem sentir, mais devagar se movem.

Ao nível dos estudos, a investigação sobre procrastinação mostra uma ligação forte à ansiedade, à vergonha e ao medo de julgamento. O atraso crónico comporta-se de forma semelhante. O problema não é que as pessoas não saibam quanto tempo demora vestir o casaco. O problema é que as emoções sequestram a linha temporal muito antes de o casaco estar sequer nas mãos.

Repare no que acontece, de facto, na sua “janela de preparação”. Não está apenas a calçar os sapatos. Está a ensaiar conversas na cabeça. A imaginar críticas. A preparar-se para o tédio, o conflito ou a exposição. Não admira que, de repente, reorganizar a gaveta dos talheres pareça urgentíssimo.

Num plano lógico, isto faz sentido. A função do cérebro é afastá-lo(a) do desconforto. Chegar atrasado(a) é uma pequena rebelião, um travão em câmara lenta no momento de contacto. É evitamento emocional com um álibi socialmente aceitável.

Com o tempo, o sistema nervoso aprende este padrão. A ansiedade sobe à medida que o evento se aproxima, adia sair, entra a correr e atrasado(a), sente vergonha… e confirma, em silêncio, para si mesmo(a) que aquela situação é assustadora. Da próxima vez, o corpo lembra-se. O ciclo aperta.

De “estou sempre atrasado(a)” para “estou a evitar alguma coisa”

Uma forma prática de quebrar o padrão é deixar de tratar o atraso como um problema de agenda e começar a tratá-lo como um sinal emocional. Antes de mexer no seu horário, faça uma pergunta directa: O que é que, exactamente, eu não quero sentir neste evento?

Não procure poesia profunda. Talvez tenha medo de ser julgado(a). Talvez esteja aborrecido(a) nessa relação e não queira admitir. Talvez aquela reunião semanal o(a) recorde de que não está onde esperava estar na carreira. Dê nome a uma emoção. Só uma. Escreva-a ou diga-a em voz alta.

Depois, mude o foco: o seu objectivo de “chegar a horas” deixa de ser “estar no café às 7:30” e passa a ser “praticar tolerar esta emoção durante 10 minutos”. O relógio é secundário.

Uma armadilha comum é saltar logo para truques: pôr alarmes, sair mais cedo, deixar a roupa preparada. Isto pode ajudar, mas se a emoção por baixo ficar intocada, o seu cérebro vai sabotar criativamente até o melhor sistema. Vai carregar no snooze, trocar de roupa três vezes, lembrar-se subitamente de que “tem” de responder a uma mensagem antes de sair.

Experimente antes isto: escolha uma coisa recorrente para a qual se atrasa frequentemente. Antes da próxima, dê a si mesmo(a) um momento de 5 minutos de “pré-embarque”. Sente-se, ponha o telemóvel de lado, e pergunte: o que é que eu tenho medo que aconteça lá? Deixe vir as primeiras respostas, mesmo que sejam confusas. Sem editar. Isto é privado.

Depois, escolha uma acção minúscula que responda à emoção, não ao relógio. Se tem medo de ser julgado(a) na reunião, talvez escreva uma frase que se sinta seguro(a) a dizer. Se teme um jantar familiar tenso, decida antecipadamente um tema em que não vai entrar e treine uma frase neutra para mudar de assunto.

Isto dá ao seu sistema nervoso uma sensação de agência. Já não está apenas a ser empurrado(a) para um momento stressante. Está a entrar com, pelo menos, uma ferramenta no bolso. Essa pequena mudança muitas vezes torna mais fácil sair de casa a horas.

Também precisamos de falar de auto-discurso. Quem se atrasa cronicamente geralmente não tem falta de consciência. Tem consciência a mais. A banda sonora interna é brutal: “És tão preguiçoso(a). Nunca mudas. És desrespeitoso(a).” Esse tipo de linguagem não produz pontualidade. Produz vergonha - e a vergonha alimenta o evitamento.

Tente trocar por descrições mais neutras do que aconteceu. “Adiei sair porque me senti ansioso(a) por ser o centro das atenções.” Isso não é uma desculpa. É um mapa.

“O atraso crónico raramente melhora por apertar a agenda. Melhora quando as pessoas se sentem mais seguras em estar plenamente presentes para onde vão.”

Depois, ancore este trabalho emocional com alguns ajustes leves e concretos - não como soluções mágicas, mas como apoio:

  • Escolha um tipo de evento este mês em que a sua única experiência é: chegar 5 minutos mais cedo e observar as suas emoções sem julgamento.
  • Use um único alarme com uma verdade no rótulo, como “Não estás a evitar o sítio, estás a evitar a sensação.”
  • Diga a uma pessoa de confiança: “Estou a trabalhar para chegar a horas porque percebi que uso o atraso para fugir às emoções.”

Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias. Vai esquecer-se, vai recuar, vai voltar a chegar atrasado(a). O objectivo não é uma sequência perfeita. É que, sempre que nota o padrão, passa de “eu estou estragado(a)” para “há algo em mim que está com medo, e eu estou a aprender a caminhar com isso”. É aí que o comportamento começa mesmo a mudar.

Quando chegar a horas se torna um acto de coragem emocional

Há uma coragem silenciosa e subestimada em chegar a horas a algo que normalmente evitaria. Está a escolher sentir-se estranho(a), exposto(a) ou aborrecido(a) em tempo real, sem anestesiar isso com o caos de última hora. É uma forma de terapia de exposição aplicada à sua própria vida.

Da próxima vez que se apanhar a deslizar para o adiamento, experimente este micro-ritual: pare, coloque a mão numa superfície sólida (mesa, ombreira da porta, tejadilho do carro) e diga, em voz alta se puder, “Eu consigo sentir desconforto e ainda assim ir.” Depois faça o próximo passo físico minúsculo: vestir o casaco, abrir a porta, trancá-la. Não negocie consigo - apenas avance uma acção de cada vez.

Isto funciona porque está a associar um gesto físico a uma nova narrativa. Está a ensinar o seu corpo que desconforto não significa perigo. Ao longo de semanas, essa ligação suaviza o aperto do evitamento muito mais do que qualquer calendário por cores alguma vez fará.

Há também a componente social. O atraso crónico desgasta relações, e a culpa em torno desse desgaste muitas vezes aprofunda o emaranhado emocional. Quando alguém diz “tu não respeitas o meu tempo”, toca num nervo, porque mexe num medo que muitos atrasados crónicos já carregam: o de serem, no fundo, pouco fiáveis.

Um passo simples e humano é parar de se esconder atrás de desculpas vagas e falar com mais clareza. “Estou a trabalhar nisto. Não cheguei atrasado(a) porque não me importo; eu estava, honestamente, a evitar a sensação de entrar e ser o(a) último(a). Estou a tentar lidar melhor com isso.” Isto não apaga o impacto nos outros, mas traz honestidade para a sala.

E tenha atenção à armadilha do perfeccionismo: decidir que, a partir de segunda-feira, vai chegar cedo a tudo, para sempre. Essa fantasia do tudo-ou-nada é apenas outra forma de evitamento - porque quando inevitavelmente falhar uma vez, pode declarar a experiência arruinada e desistir.

Em vez disso, escolha uma arena. Manhãs de trabalho. Consultas de terapia. Eventos sociais. Comprometa-se com curiosidade gentil nessa área específica durante um mês. Registe não só se chegou atrasado(a), mas o que sentiu nos dias em que chegou a horas. Aquilo foi tão doloroso quanto o seu cérebro previu? Muitas vezes, a resposta é “não, afinal não”. Esse intervalo é ouro.

Com o tempo, pode notar algo subtil. Chegar a horas começa a parecer menos uma performance para os outros e mais um alinhamento consigo mesmo(a). Disse que ia aparecer às 10. Apareceu. Essa pequena confiança interna constrói-se silenciosamente em segundo plano.

Quanto mais essa auto-confiança cresce, menos precisa da cortina de fumo de correr e pedir desculpa. Ainda poderá atrasar-se às vezes - a vida é caótica - mas deixa de ser o seu escudo emocional por defeito. Deixa de terceirizar os seus limites e medos para o relógio.

As suas relações também podem sentir a mudança. As pessoas notam quando os pedidos de desculpa ficam menos dramáticos e mais assentes na realidade. Quando, em vez de “Ai, eu sou o pior, estou sempre atrasado(a)”, ouvem “Desculpa ter-te feito esperar. Estou a trabalhar para não evitar estes momentos, mesmo quando fico ansioso(a).” Não faz a espera desaparecer, mas muitas vezes torna a ligação mais verdadeira.

Num nível mais profundo, este trabalho sobre atrasos raramente é apenas sobre tempo. É sobre a forma como entra na sua própria vida. Se só chega quando tudo parece seguro e pré-controlado, ou se está disposto(a) a entrar enquanto o coração ainda bate forte, os pensamentos ainda estão embaraçados, as emoções ainda estão em bruto. Numa terça-feira qualquer de manhã, numa rua à chuva, aparecer às 9:00 em ponto pode ser uma revolução silenciosa.

Todos já tivemos aquele momento em que olhamos para o relógio, sabemos exactamente o que devíamos estar a fazer, e fazemos absolutamente qualquer outra coisa. O atraso crónico apenas torna esse momento mais visível. Não é uma falha moral. É um sinal luminoso a dizer: “Há algo em mim que não quer estar onde devia ir.”

Se começar a ouvir esse sinal, em vez de apenas o repreender, coisas estranhas podem acontecer. Pode perceber que se atrasa para um trabalho que, secretamente, quer deixar. Ou que está sempre atrasado(a) para um círculo social onde não se sente totalmente você. Ou que evita um médico porque o desconhecido parece mais assustador do que os sintomas.

Tratar o atraso na raiz às vezes significa pequenos ajustes: nomear um medo, ensaiar uma frase, chegar cinco minutos mais cedo só para respirar. Às vezes significa perguntas maiores: Eu ainda escolho esta vida a que continuo a “faltar” por acidente? Eu quero chegar a horas para esta versão de mim?

Não há cura universal, nem um truque de produtividade que resolva magicamente o que muitas vezes é um nó de medo, vergonha e desejo. O que existe é um caminho: de culpar o despertador para ter uma conversa mais honesta com o seu próprio sistema nervoso.

Talvez, da próxima vez que entrar numa sala 12 minutos atrasado(a), note mais do que os suspiros e os olhares. Note aquela parte silenciosa de si que não queria chegar de todo. E saiba que tem outras opções além de fugir.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O atraso como evitamento emocional O atraso crónico muitas vezes esconde ansiedade, vergonha ou medo em relação ao próprio evento. Ajuda-o(a) a deixar de se ver como “estragado(a)” e a começar a decifrar o que está realmente a evitar.
Dar nome à emoção, não apenas ao tempo Antes de sair, identifique uma emoção que não quer sentir e planeie uma forma minúscula de a enfrentar. Dá-lhe uma forma prática de actuar sobre a causa de raiz, em vez de lutar contra sintomas superficiais.
Chegar a horas como coragem emocional Chegar a horas torna-se um pequeno acto de terapia de exposição e de construção de auto-confiança. Transforma a pontualidade do dia a dia numa ferramenta para mudar padrões mais profundos na sua vida.

FAQ

  • O atraso crónico está mesmo ligado a questões de saúde mental? Nem toda a pessoa que chega atrasada tem uma condição de saúde mental; ainda assim, o atraso repetido muitas vezes está associado a ansiedade, perfeccionismo, traços de PHDA (TDAH) ou stress por resolver. Vê-lo como um padrão psicológico, e não como pura preguiça, costuma abrir soluções mais úteis.
  • Como sei se estou a evitar emoções ou se sou apenas desorganizado(a)? Observe padrões. Se se atrasa sobretudo para tipos específicos de eventos - avaliações, consultas médicas, certas pessoas - é provável que exista uma camada emocional. Se se atrasa aleatoriamente para tudo, sem esse padrão, a estrutura prática pode ser o principal problema.
  • Apps de gestão de tempo conseguem resolver o atraso crónico? Podem ajudar a perceber melhor e a planear, mas não resolvem por completo atrasos movidos por medo ou vergonha. As apps funcionam melhor como ferramentas de apoio depois de começar a identificar e a trabalhar as emoções subjacentes.
  • O que devo dizer às pessoas que estão zangadas com os meus atrasos? Reconheça primeiro o impacto: “Eu sei que é frustrante quando me atraso.” Depois partilhe um pouco do seu processo: “Estou a trabalhar nisso e percebi que está ligado à ansiedade, não a não me importar contigo.” Essa combinação de responsabilidade e honestidade tende a ser melhor recebida do que desculpas longas.
  • Quando devo procurar ajuda profissional por causa disto? Se o seu atraso está a prejudicar o trabalho, os estudos ou as relações e sente que está preso(a) a repetir os mesmos padrões, falar com um(a) terapeuta ou coach pode ajudar. Podem explorar se há ansiedade, trauma ou PHDA envolvidos e sugerir estratégias orientadas que vão além de truques de agenda.

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