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A maioria confia nos médicos, mas este paciente afirma: “mentiram-me sobre o risco de cancro”, dividindo fortemente a comunidade médica.

Homem preocupado lê documento médico com médicos ao redor, em sala iluminada por janela.

O oncologista percorreu o registo dela no ecrã, sem levantar os olhos de início, o clique suave do rato a preencher o silêncio. Seis meses antes, uma conselheira genética tinha-lhe dito que o risco de cancro da mama era “não significativamente elevado”. Nada para entrar em pânico. “É basicamente a média”, tinham dito, com um sorriso ensaiado e tranquilizador.

Agora, com um novo tumor visível na mamografia, aquelas palavras soavam-lhe a uma piada de mau gosto a ecoar-lhe na cabeça. O médico acabou por virar o ecrã na direcção dela. Pontuações de risco, gráficos com códigos de cores, uma floresta confusa de números. “O seu risco era mais alto do que pensámos inicialmente”, disse ele, cada palavra a cair como uma pedra. A Anna ficou a olhar. “Então… estavam errados?”, perguntou. Ele abriu as mãos num gesto vago. “A ciência evoluiu.”

Ela saiu a pensar algo mais duro: “Mentiram-me.”

“Disseram que eu era de baixo risco. Depois tive cancro.”

A maioria dos doentes não entra numa consulta à espera de ter de verificar o que o médico diz. Senta-se, conta a sua história, espera que alguém de bata branca traduza o caos num plano. Durante anos, essa confiança foi quase automática - sobretudo com algo tão assustador como o cancro. Agarramo-nos à ideia de que alguém sabe o que está a fazer.

Quando o risco entra na conversa, porém, o chão começa a tremer. Um médico diz “risco muito baixo”, outro diz “moderado mas gerível”, um teste genético cospe uma percentagem com duas casas decimais. Para um doente, estas palavras soam a promessas, não a probabilidades. E quando essa promessa falha e o diagnóstico chega na mesma, não dói apenas. Sabe a traição.

Nos últimos anos, mais pessoas como a Anna começaram a dizê-lo em voz alta: “Os meus médicos mentiram sobre o meu risco de cancro.” Esta frase divide o mundo médico em dois.

Veja-se o caso que tem circulado discretamente em fóruns de oncologia. Uma mulher de 39 anos, sem mutação BRCA conhecida, foi informada de que o risco de cancro da mama ao longo da vida era “apenas ligeiramente acima da média”. O médico de família desvalorizou a ansiedade. “É jovem, saudável, deixe de se preocupar tanto”, disse ele, meio a rir, enquanto ela descrevia o aperto no peito sempre que fazia um auto-exame.

Dois anos depois, após uma mamografia atrasada que ela própria insistiu em fazer, ouviu a palavra “maligno”. Quando voltou a analisar o processo com um advogado, descobriram que um algoritmo a tinha, afinal, sinalizado como alto risco com base em tecido mamário denso, historial familiar do lado do pai e alguns padrões subtis nas análises ao sangue. Ninguém lhe tinha explicado isso a sério. Para eles, era uma linha num quadro. Para ela, era uma janela perdida.

A história dela passou de grupos de doentes no Facebook para o TikTok e para conferências médicas. Alguns médicos descreveram-no como uma lacuna trágica de comunicação. Outros chamaram-lhe algo mais duro: tranquilização negligente.

Por trás da indignação, há uma estatística mais silenciosa. Estudos mostram que, quando os médicos dizem “baixo risco”, muitos doentes ouvem “sem risco”. E quando algo corre mal na mesma, a sensação de ter sido enganado pode ser quase tão devastadora como o próprio diagnóstico.

Do lado médico, o quadro parece diferente e mais frágil. O risco de cancro não é um rótulo fixo; é um alvo móvel construído com probabilidades, estudos e software que está sempre a ser actualizado. Um risco de 12% ao longo da vida pode parecer mínimo no papel, mas para a pessoa que acaba por estar nos “azarados” 12%, soa a roleta russa com probabilidades viciadas.

Os oncologistas insistem que não estão a mentir. Estão a traduzir ciência complexa e instável para uma linguagem com que a pessoa comum consiga viver. A tensão nasce dessa última parte. Quanta ansiedade é útil? Quando é que um aviso cru faz mais mal do que bem? Alguns médicos admitem, em privado, que “suavizam” mensagens para evitar pânico ou cirurgias preventivas desnecessárias. Outros acreditam que a transparência radical, mesmo que assuste os doentes no curto prazo, é a única forma honesta.

Assim, quando um doente diz “Mentiram sobre o meu risco de cancro”, muitos clínicos sentem-se acusados de algo que nunca tencionaram fazer. Não se vêem como mentirosos, mas como tradutores presos entre dados e emoção humana. A divisão tem menos a ver com ciência e mais com o quão brutal deve soar a verdade.

Como ler “o seu risco de cancro” como um adulto

Se alguma vez olhou para um resultado de análises ou para uma percentagem de risco e sentiu o estômago a cair, não está sozinho. Há um gesto concreto que muda toda a conversa: deixe de aceitar palavras únicas como “baixo” ou “alto” sem perguntar o que está por trás. Quando um médico fala de risco, responda com três perguntas simples.

Primeiro: “De que número estamos a falar, mais ou menos?” Isto obriga a passar de rótulos vagos para percentagens ou intervalos reais. Segundo: “Comparado com o quê?” Está acima ou abaixo da média para a sua idade, sexo e contexto? Terceiro: “O que pode mudar este número?” Pode ser o estilo de vida, pode ser medicação, pode ser a frequência do rastreio.

Este pequeno guião não o torna confrontacional. Torna-o um parceiro na conversa sobre risco, não apenas um passageiro. Médicos que estão a tentar ser honestos até apreciam essas perguntas. Abrem uma porta que um adjectivo tranquilizador pode fechar silenciosamente.

Onde as coisas muitas vezes correm mal é no lado humano da consulta. Está stressado, esperou 45 minutos, e o seu cérebro está meio preso nas taxas de estacionamento, meio no pior diagnóstico possível. Num dia mau, até a explicação mais clara sobre risco bate e ressalta. É por isso que os médicos, por vezes, recorrem a atalho calmante. “Está tudo bem.” “Isto não é nada.” “Não vamos preocupar-nos com isso.”

A nível humano, percebe-se porquê. Ninguém quer ser a pessoa que atira um doente para um turbilhão de ansiedade. Mas este instinto de acalmar a qualquer custo é exactamente onde o ressentimento pode crescer em silêncio. É a diferença entre o que o médico acha que disse e o que o doente acha que ouviu que, mais tarde, se transforma em: “Mentiram-me.”

Uma estratégia discreta: leve mais um par de ouvidos. Um amigo, um parceiro, um familiar em alta-voz. Peça-lhe antes para estar atento a números, prazos e riscos, enquanto você se concentra em respirar e fazer perguntas. Pode até gravar no telemóvel, se o seu médico concordar. A memória sob stress é péssima. Apontamentos e ouvidos de reserva não são sinal de desconfiança, apenas uma espécie de prótese emocional.

Há também uma pressão menos visível sobre os clínicos que os doentes raramente vêem. Orientações, risco legal e limites de tempo apertam aqueles quinze minutos. Um oncologista que gaste a consulta inteira a destrinçar um relatório de risco nuançado de 20 páginas pode ser considerado minucioso por uma pessoa e processado por outra por “não ter tranquilizado” suficientemente. Ninguém ensina estudantes de medicina a conciliar essa contradição.

“A maioria de nós não está a mentir”, disse-me uma cirurgiã da mama, pedindo para não ser identificada. “Estamos a fazer triagem do medo. Se eu dissesse a todas as mulheres tudo o que me preocupa quando vejo o processo delas, metade nunca mais dormiria.”

Ainda assim, há passos claros que os doentes podem dar sem transformar cada consulta numa batalha.

  • Escreva as suas três principais perguntas antes da consulta.
  • Peça ao médico para explicar o seu risco em números e em linguagem simples.
  • Repita o que ouviu: “Então está a dizer que o meu risco é X e que vamos fazer Y em relação a isso?”
  • Peça um resumo no seu portal online ou por e-mail.
  • Se sentir que algo foi minimizado, diga-o: “Ainda estou com medo. Podemos rever isso mais uma vez?”

Instintivamente, este último ponto talvez seja o mais difícil. Muitas pessoas cresceram a tratar a palavra do médico como definitiva. Mas a medicina em 2025 é demasiado complexa para confiança num só sentido. Os doentes que parecem “difíceis” na sala de espera acabam, muitas vezes, por ser os que melhor compreendem a sua própria situação. E sim, sejamos honestos: ninguém faz isto mesmo todos os dias.

Quando a confiança estala, o que acontece a seguir

Depois de se sentir traído num consultório, já não entra da mesma forma. Olha para os diplomas com mais cepticismo, relê formulários de consentimento, pesquisa termos no Google na sala de espera até acabar a bateria. Para alguns, a raiva nunca arrefece realmente. Entram em grupos de apoio online, trocam histórias de diagnósticos falhados e empurram-se uns aos outros para segundas, terceiras, até quartas opiniões.

Essa energia colectiva está a mudar a medicina lentamente a partir de fora. Os doentes que acusam o sistema de mentir não estão apenas a desabafar; estão a exigir melhor aconselhamento genético, mais transparência nos algoritmos de risco, linguagem mais clara nos relatórios de exames. Alguns hospitais já treinam médicos especificamente em “comunicação de risco”, como se fosse um procedimento à parte. Em certo sentido, é.

O reverso também é real. Os médicos admitem, em privado, sentirem-se esgotados, até perseguidos, quando cada nuance estatística pode mais tarde ser transformada num argumento em tribunal. O medo de serem culpabilizados pode levar a medicina defensiva: mais exames, mais testes, mais encaminhamentos, só por via das dúvidas. Esse ciclo custa dinheiro, tempo e energia emocional a todos.

Por baixo das manchetes, o que está realmente em jogo é como lidamos com a incerteza em conjunto. O risco de cancro nunca será uma pergunta simples de sim/não. É um mapa em movimento feito de estudos que mudam, ferramentas imperfeitas e histórias humanas que não cabem na curva. A comunidade médica está ferozmente dividida não porque um lado ama a verdade e o outro a odeia, mas porque ambos têm medo do que acontece quando uma percentagem se torna uma pessoa.

A maioria de nós enfrentará um momento em que um médico dirá: “O seu risco é baixo” ou “As suas probabilidades são boas.” As palavras parecem um escudo. Não são. São apenas coordenadas num mapa que teremos de percorrer na mesma. O verdadeiro trabalho é aprender a segurar duas coisas ao mesmo tempo: os melhores dados que temos e a realidade confusa e injusta de que algumas pessoas ainda assim acabarão do lado errado das probabilidades.

Da próxima vez que um clínico falar em números, talvez se lembre da Anna naquela sala de consulta silenciosa, a olhar para um gráfico que dizia que o risco dela “não era significativamente elevado” até ao dia em que foi. Talvez imagine também o médico que a atendeu, a chegar a casa nessa noite, a perguntar-se se teria mentido por ter tentado demasiado ser gentil. Não há vilões e vítimas numa história simples. Há humanos a embater nos limites da previsão.

Alguns leitores sairão daqui mais desconfiados dos médicos. Outros entrarão na próxima consulta com um caderno e uma frase nova pronta: “Fale comigo como um adulto sobre o meu risco.” Algures entre essas duas reacções, talvez comece a crescer algo como um novo tipo de confiança. Nem cega, nem zangada. Apenas desperta.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
As palavras “baixo risco” não são uma promessa Um risco baixo continua a ser um risco real, baseado em probabilidades variáveis Compreender por que pode surgir um diagnóstico apesar de um discurso tranquilizador
Fazer três perguntas simples sobre o risco “Que número?”, “Comparado com o quê?”, “O que pode mudar esse número?” Ter uma conversa clara e equilibrada com o seu médico
Recuperar um papel activo na consulta Ir com perguntas, levar um familiar, pedir um resumo Reduzir a sensação de traição e lidar melhor com a incerteza médica

FAQ:

  • O meu médico pode mesmo mentir sobre o meu risco de cancro? Mentir deliberadamente é raro. A maioria dos conflitos nasce de linguagem vaga, explicações apressadas ou doentes a ouvirem “sem risco” quando o médico quis dizer “baixo, mas não zero”.
  • Porque é que os médicos por vezes desvalorizam o risco? Muitos tentam evitar pânico desnecessário ou procedimentos invasivos. Esse instinto de acalmar pode sair pela culatra se um problema surgir mais tarde, fazendo os doentes sentirem-se enganados.
  • Devo pedir sempre uma segunda opinião sobre avaliações de risco? Nem sempre, mas se algo não lhe parece bem ou se o seu historial familiar é complexo, uma segunda opinião ou uma consulta numa clínica especializada pode trazer clareza.
  • O que posso fazer se sentir que o meu risco de cancro foi mal comunicado? Comece por pedir o seu processo completo e peça ao seu médico para rever consigo as notas antigas. Depois, considere falar com um defensor do doente ou um especialista jurídico se tiver havido dano grave.
  • Como posso compreender melhor o meu próprio risco da próxima vez? Peça números, não apenas rótulos, leve uma lista de perguntas e repita, com as suas palavras, o que percebeu antes de a consulta terminar.

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