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A multitarefa parece produtiva, mas diminui a retenção da memória.

Jovem estudando em secretária, com computador portátil e livro, cercado por livros e materiais de escrita.

O portátil está aberto, três separadores estão a piscar, as notificações apitam no telemóvel e a reunião por vídeo continua a correr em segundo plano.

Saltas do e-mail para o WhatsApp, de um documento partilhado para um alerta de notícias, a meio de tudo, sem absorveres verdadeiramente nada.

No fim do dia, sentes-te estranhamente orgulhoso. “Tratas-te” de tanta coisa ao mesmo tempo. Mas quando alguém pergunta: “O que é que decidimos naquela reunião?”, a tua mente fica em branco. Os nomes evaporam-se. Os números baralham-se. Os pormenores que mais importavam parecem ter escapado por uma fenda que nem viste.

Parece produtividade em alta velocidade. Só que o teu cérebro está a fazer as contas em silêncio.

Porque é que o multitasking parece um superpoder

Sentado num comboio, observas a mulher à tua frente. Portátil no tabuleiro, telemóvel numa mão, caderno de papel aberto, auscultadores colocados. Está a disparar mensagens, a sorrir ligeiramente a notas de voz, a sublinhar um PDF, a acenar para um colega invisível.

Ela parece o exemplo perfeito do moderno “fazer acontecer”. Há uma satisfação estranha nesse foco disperso. O teu cérebro gosta dessas pequenas doses de novidade: um novo e-mail, um pop-up, uma mensagem fresca. Tudo parece movimento, progresso, como se estivesses a acompanhar um mundo que nunca abranda.

A verdade é mais desconfortável: esse zumbido de atividade é muitas vezes apenas ruído vestido de produtividade.

Num estudo de Stanford, pessoas que faziam multitasking intenso com media tiveram pior desempenho em tarefas de memória e mais dificuldade em filtrar distrações do que pessoas que se concentravam numa única fonte de informação. Não eram pensadores mais rápidos. Estavam apenas mais habituadas a interromper-se a si próprias.

Pensa na tua última manhã “multi-tudo”. Respondeste a um e-mail enquanto ouvias a meio uma chamada, folheaste um relatório enquanto percorrias redes sociais e rabiscaste uma lista de tarefas pelo meio. À hora de almoço, já tinhas tocado em dez tarefas diferentes.

Depois, um colega perguntou-te um detalhe específico desse relatório. O teu cérebro folheou páginas em branco. Tinhas visto a página. Talvez até te lembres da cor do gráfico. Mas o número-chave? Desapareceu.

Essa é a estranha realidade do multitasking: quanto mais tocas, menos reténs.

O cérebro não “faz” realmente várias tarefas exigentes ao mesmo tempo. Ele alterna. Muito depressa, sim, mas ainda assim uma de cada vez. Cada mudança tem um pequeno custo cognitivo: tens de te reorientar, recarregar o contexto, recordar onde tinhas ficado.

Esses pequenos custos acumulam-se. A memória sofre porque o cérebro nunca tem aqueles segundos de silêncio de que precisa para codificar bem a informação. Cada vez que desvias o olhar daquilo que estás a tentar aprender ou lembrar, cortas o traço da memória em pedaços mais finos.

O multitasking transforma a aprendizagem numa série de lampejos, em vez de um feixe contínuo. Ficas com impressões em vez de detalhes, uma familiaridade vaga em vez de uma recordação sólida.

Como proteger a tua memória num mundo de multitasking

Um dos movimentos mais poderosos é enganadoramente simples: fazer uma só coisa de cada vez, em sprints curtos e protegidos. Não durante horas. Durante 10, 15, talvez 25 minutos. Escolhe uma coisa que queres mesmo recordar - um relatório, um capítulo, notas de reunião - e dá-lhe acesso exclusivo à tua atenção.

Silencia as notificações. Se puderes, põe o telemóvel virado para baixo noutra divisão. Fecha separadores extra que não estejam relacionados com a tarefa. Depois lê, escreve ou pensa com a mente inteira apontada numa direção. Quando o temporizador terminar, podes voltar ao caos habitual, se quiseres.

Essas pequenas ilhas de foco profundo dão às memórias a oportunidade de se formarem devidamente - como deixar tinta fresca secar antes de lhe voltares a tocar.

Num dia normal, vais ser interrompido. Vais saltar entre separadores. É assim que muitos trabalhos modernos estão construídos. Por isso, o objetivo não é tornares-te um monge mítico da concentração. É reduzir o ruído de fundo constante que o teu cérebro está a gerir enquanto tenta guardar nova informação.

Um truque prático: cria “pontos de captura”. Depois de terminares um bloco de leitura ou uma reunião, tira 30–60 segundos para escrever três coisas que queres lembrar. Só três. Sem formatação perfeita, sem frases bem compostas - apenas notas cruas.

Mais tarde, quando a memória parecer enevoada, estas pequenas âncoras ajudam a puxar de volta os detalhes certos. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas fazê-lo duas ou três vezes por dia, em momentos-chave, muda radicalmente o que realmente fica.

Os neurocientistas falam de “codificação” e “consolidação”. A codificação é quando o cérebro recebe a informação pela primeira vez. A consolidação é o processo mais silencioso, nos bastidores, em que as novas memórias frágeis são estabilizadas e armazenadas.

O multitasking ataca ambos. Quando divides a atenção, a codificação fica superficial. Reconheces a informação, mas não trabalhas realmente com ela. Mais tarde, as microdistrações constantes - ver o telemóvel a cada semáforo, espreitar a caixa de entrada de poucos em poucos minutos - dão ao cérebro menos janelas calmas para consolidar.

“O multitasking não é um emblema de honra; é um imposto sobre a tua memória que pagas sem te aperceberes.”

Para reduzir esse imposto, os pequenos hábitos contam mais do que mudanças dramáticas de vida. Pensa menos em “disciplina” e mais em limites suaves e realistas que caibam na tua vida. Eis alguns que muita gente consegue mesmo manter:

  • Uma reunião ou bloco de estudo por dia “sem notificações”
  • Telemóvel noutra divisão durante os primeiros 20 minutos de trabalho focado
  • Resumo em três frases depois de cada chamada importante
  • Sem segundo ecrã enquanto vês algo que queres recordar

Viver mais devagar num mundo rápido (sem te despedires)

Há uma mudança silenciosa que acontece quando começas a notar o que o multitasking está a fazer à tua memória. Apanhas-te a pegar no telemóvel a meio de uma conversa - e paras. Reparas que leste o mesmo parágrafo três vezes e ainda não sabes o que diz.

Num dia mau, esta consciência pode soar a falhanço. Num dia bom, parece recuperar a tua mente. Esse é o estranho presente escondido nisto tudo: quando vês o custo da alternância constante, é difícil deixar de o ver. Começas a proteger certos momentos, quase por instinto.

Num passeio, deixas o telemóvel no bolso e deixas os pensamentos vaguearem. Durante uma chamada com um amigo, fechas a tampa do portátil. O teu mundo não colapsa. Algo dentro de ti relaxa de facto. Numa manhã de trabalho cheia, bloqueias 20 minutos só para processar as notas de ontem - e reparas que te lembras de mais nomes, mais nuances, mais contexto do que o habitual.

Tendemos a tratar a memória como um talento misterioso que algumas pessoas simplesmente têm. Na realidade, muito disso depende de como tratamos a nossa atenção quando ninguém está a ver. As pequenas escolhas aborrecidas.

Numa deslocação cheia ou numa sessão de doomscroll até tarde, podes lembrar-te disto: cada fluxo extra que abres, cada separador a mais, cada ping, tem um custo. Não um custo dramático, de vida ou morte. Uma fuga silenciosa e cumulativa.

Existe uma versão do teu dia em que continuas a viver no mesmo mundo rápido, usas as mesmas ferramentas, fazes o mesmo trabalho - mas lembras-te de mais. As piadas. As ideias. Os acordos que realmente te importam. Isso não é um truque de produtividade. É uma forma de levares a tua própria mente um pouco mais a sério.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O multitasking é alternância rápida O cérebro muda o foco entre tarefas, pagando um pequeno custo em cada mudança Ajuda a explicar porque te sentes ocupado mas te lembras de pouco
A codificação superficial destrói a memória A atenção dividida impede que a informação seja devidamente processada e armazenada Faz sentido daqueles “brancos” após dias “produtivos”
Sprints curtos de foco funcionam Blocos de 10–25 minutos numa só tarefa aumentam a retenção mais do que sessões longas e distraídas Dá uma estratégia realista para proteger a memória no dia a dia

FAQ:

  • Alguém é realmente bom a fazer multitasking? Não com tarefas complexas. As pessoas que acham que são ótimas a fazer multitasking costumam ter pior desempenho em testes de memória e atenção do que as que se focam numa coisa de cada vez.
  • Porque é que me sinto mais produtivo quando faço multitasking? O cérebro recebe doses frequentes de novidade e sensação de conclusão, o que é recompensador, mesmo que o resultado e a retenção sejam menores.
  • Ouvir música conta como multitasking? Depende. Música instrumental ou muito familiar é menos disruptiva. Letras ou playlists sempre a mudar tendem a interferir mais em tarefas que exigem memória.
  • Quanto tempo devo fazer uma só tarefa para melhorar a memória? A investigação sugere que 15–25 minutos de atenção focada, seguidos de uma pausa curta, funciona bem para a maioria das pessoas.
  • Consigo reconstruir a minha capacidade de atenção? Sim. Praticar gradualmente sessões curtas sem distrações treina o cérebro a manter-se numa tarefa mais tempo e a armazenar informação de forma mais fiável.

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