A mulher à minha frente no café estava vestida de preto dos pés à cabeça. Não aquele preto afiado, do tipo “eu mando aqui”, mas a versão deslavada, ligeiramente cansada, que engole a luz. A capa do telemóvel era cinzenta, o caderno era azul-marinho, até a garrafa reutilizável era de um azul escuro e baço. Ela não parava de puxar as mangas, encolhendo os ombros sempre que alguém passava e roçava na mesa.
Quando começas a reparar nisto, já não consegues deixar de ver.
Algumas pessoas não se escondem só atrás das palavras.
Escondem-se atrás das cores.
A linguagem silenciosa das cores da baixa autoestima
Os psicólogos têm estudado durante anos como as cores refletem o nosso estado de espírito e identidade. Entre todos os tons do espectro, há três que continuam a aparecer quando as pessoas se sentem pequenas, indignas ou profundamente inseguras: preto baço, cinzento turvo e azul escuro, pesado. Não as versões estilosas das sessões fotográficas de moda, mas os tons planos e gastos que parecem um suspiro visual.
Estas são as cores que vestes quando queres desaparecer numa sala cheia de pessoas.
São seguras. São invisíveis. Dizem: “Não olhes demasiado para mim.”
Pensa na tua última reunião no trabalho ou num encontro de família. Normalmente há aquela pessoa que se mistura com o fundo: calças pretas, camisola cinzenta, casaco azul-marinho, a mesma paleta dia após dia. Quando deslizas pelo Instagram dessa pessoa, é a mesma coisa - azuis filtrados, cinzentos de baixo contraste, quase nenhuma cor ousada.
Um estudo de 2020 em psicologia da cor mostrou que pessoas com baixa autoestima tendem a classificar cores neutras e escuras como “mais confortáveis” e “menos arriscadas” do que cores vivas. Outra experiência pediu aos participantes que escolhessem cores para um logótipo pessoal. Quem tinha uma autoimagem frágil escolheu esmagadoramente tons apagados e evitou o vermelho ou o amarelo como se fossem um alarme de incêndio.
A cor, silenciosamente, revela o que as palavras não dizem.
Porquê estas três cores? O preto, quando é baço e usado em excesso, pode funcionar como um escudo, uma forma de apagar forma e curva. O cinzento fala de indecisão, do “entre”, de uma vida vivida em volume baixo. O azul escuro, quando perde a sua confiança e o seu lado “real”, pode inclinar-se para a tristeza e o isolamento.
Quando a autoestima baixa, o cérebro procura segurança. As cores vivas parecem um holofote, um risco de julgamento ou comentários: “Hoje estás muito arranjado/a”, “Uau, isso é… ousado.” Então a mente agarra-se ao que parece menos notório. A cor torna-se camuflagem.
À superfície é “eu só gosto de tons escuros”.
Por baixo, pode ser “eu não mereço destacar-me”.
Como quebrar gentilmente o ciclo cromático da baixa autoestima
Um método simples que muitos terapeutas sugerem é a “regra de um tom mais claro”. Não passas de preto dos pés à cabeça para amarelo néon de um dia para o outro. Vais do preto plano para um carvão profundo. Do carvão para um azul-acinzentado escuro. Do azul-marinho para um azul médio mais suave.
O objetivo não é forçares-te a usar cores alegres que secretamente detestas.
É testar, devagar, como o teu corpo reage quando ocupas um bocadinho mais de espaço visual.
Só isso. Um lenço. Uma T-shirt. Um detalhe que não desaparece na multidão.
Um erro comum é tratar a cor como uma dieta: tudo ou nada. As pessoas acordam um dia, decidem que estão “fartas” de baixa autoestima e compram uma camisola fluorescente que nunca vão usar fora de casa. O choque é demasiado forte, o desconforto demasiado alto, e a camisola acaba enterrada numa gaveta com as etiquetas ainda postas.
Mais vale pensar em micro-experiências.
Uma capa de telemóvel num azul ligeiramente mais vivo. Uma T-shirt branca por baixo do teu casaco azul-marinho habitual. Um par de meias numa cor que só tu sabes que lá está. Estes pequenos gestos reeducam lentamente o teu sistema nervoso para ver a visibilidade como algo suportável. Talvez até… agradável.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Às vezes, mudar as tuas cores é mais fácil do que mudar as tuas crenças, mas vai puxando silenciosamente as tuas crenças atrás.
- Acrescenta uma cor nova apenas em situações “seguras” (em casa, com amigos próximos, num passeio).
- Escolhe texturas de que gostes, para que o novo tom pareça conforto, não fantasia.
- Combina uma peça colorida com duas peças escuras familiares para manteres a sensação de controlo.
- Regista, num caderno ou numa app de notas, como as pessoas realmente reagem versus o que temias.
- Quando a ansiedade subir, lembra-te: isto é só tecido, não é um veredicto sobre quem tu és.
O que as tuas cores dizem, em silêncio, sobre a tua história
Quando começas a prestar atenção, o teu guarda-roupa e os teus objetos tornam-se um mapa emocional discreto. Aquelas três cores recorrentes - preto baço, cinzento turvo, azul escuro pesado - podem não significar que “tens baixa autoestima” de forma clínica. A vida é mais subtil do que isso.
Podem sinalizar feridas antigas: uma escola onde foste gozado/a por “estares a esforçar-te demais”, uma família que confundia sobriedade com humildade, uma relação em que encolher era mais seguro do que brilhar. As tuas cores podem carregar a memória dessas salas muito depois de já as teres deixado.
Isto não significa que tenhas de queimar metade do armário ou deitar fora a tua sweatshirt preta favorita. O preto pode ser poderoso, o cinzento pode ser elegante, o azul-marinho pode ser profundamente tranquilizador. O que conta é o uso automático e exclusivo - a sensação de que “não tens autorização” para escolher outra coisa - e isso conta uma história diferente.
Todos já passámos por aquele momento em que o/a assistente de loja levanta uma peça mais viva e tu dizes de imediato: “Ai não, isso não é para mim.” Essa frase pequenina é onde o trabalho começa.
A tua autoestima está muitas vezes escondida nesses três segundos de recusa.
Algumas pessoas reparam que, à medida que a confiança cresce - através de terapia, de um novo emprego, de uma relação mais segura - a paleta muda em silêncio. Aparece um toque de verde. Um bege mais quente. Um batom vermelho só para uma videochamada. Por fora, parece trivial. Por dentro, é uma rebelião contra anos de autoapagamento.
As escolhas de cor não vão curar tudo. Não são mágicas. Mas são uma porta prática para algo maior: o teu direito de seres visto/a, de ocupares espaço, de existires em alta definição em vez de em modo de baixo contraste. O teu guarda-roupa pode tornar-se o teu primeiro rascunho, desajeitado, de autorrespeito.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| Três “cores de baixa autoestima” | Preto baço, cinzento turvo e azul escuro pesado sinalizam muitas vezes o desejo de permanecer invisível | Ajuda-te a ler os teus hábitos de cor como pistas emocionais, não como escolhas aleatórias |
| Pequenas experiências com cor | Usa a “regra de um tom mais claro” e micro-mudanças como acessórios ou camadas | Torna a mudança segura e realista em vez de esmagadora |
| História interior por trás das cores | As escolhas de cor refletem frequentemente críticas passadas, vergonha ou medo de se destacar | Incentiva a reflexão e uma autocompaixão suave em vez de julgamento |
FAQ:
- Pergunta 1 Usar preto significa automaticamente que tenho baixa autoestima?
- Pergunta 2 As cores vivas podem mesmo aumentar a minha confiança, ou isso é um mito?
- Pergunta 3 Sinto-me ridículo/a com roupa colorida. Como ultrapasso isso?
- Pergunta 4 E se o código de vestuário do meu trabalho for escuro e formal - fico preso/a?
- Pergunta 5 Existe uma “melhor” cor para a autoestima segundo a psicologia?
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