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A regra dos 19 °C já está ultrapassada: especialistas apresentam a nova temperatura ideal para conforto e poupança de energia.

Mulher ajusta termóstato na parede de uma sala iluminada por luz natural, com caneca de bebida quente sobre a mesa.

O primeiro amanhecer frio bate sempre da mesma maneira. Acorda, desliza os pés para fora da cama e o chão parece um cubo de gelo. Arrasta-se até ao termóstato, de olhos semicerrados, e hesita: 18 °C, 19 °C… ou um pouco mais? Na sua cabeça, ecoa a regra antiga: “Aquecer acima de 19 °C é mau para o planeta e para a fatura.” Então recua a mão, com uma pontinha de culpa, e veste uma segunda camisola em vez de rodar o botão.

Só que, este inverno, esse dogma está a desmoronar-se em silêncio. Especialistas em energia, médicos e engenheiros de edifícios começam a dizer a mesma coisa: a famosa “regra de ouro” dos 19 °C já não se ajusta às nossas casas, aos nossos hábitos nem sequer aos nossos corpos. Entre o isolamento, o teletrabalho e o aumento dos preços da energia, a temperatura ideal mudou.

E o novo número não é o que está a pensar.

O mito dos 19 °C: porque é que os especialistas agora o consideram ultrapassado

Durante anos, os 19 °C foram apresentados como o compromisso mágico: não demasiado quente para o planeta, não demasiado frio para a saúde, ótimo para a fatura. Esse número tornou-se um reflexo, como a regra dos 10 000 passos por dia. Só que os especialistas dizem agora que ele veio de uma mistura de normas antigas, campanhas políticas e médias que ignoravam a forma como as pessoas realmente vivem. Era mais um slogan do que ciência.

Hoje, as nossas casas estão melhor isoladas, as janelas são mais eficientes, os estilos de vida são diferentes. Trabalhamos ao portátil, passamos horas sentados, mexemo-nos menos dentro de casa. Um número fixo não pode servir todas as realidades. O conforto passou a ser um alvo móvel, não uma regra congelada.

Veja-se o estudo frequentemente citado por engenheiros de edifícios no norte da Europa. Acompanharam dezenas de famílias em apartamentos modernos e casas mais antigas durante um inverno. Os termóstatos foram definidos para 19 °C em todas as salas de estar. No papel, a regra era respeitada. Na vida real, metade dos ocupantes dizia sentir frio o dia todo. O que fizeram? Ligaram pequenos aquecedores, usaram o forno “para mais um pouco de calor” ou aqueceram uma divisão até 22 °C e deixaram o resto gelado.

Resultado: o consumo de energia subiu em vez de descer. Uma família, convencida de que estava a poupar, gastou mais 15% de energia do que os vizinhos que, discretamente, ajustaram o termóstato para mais alto, mas mantiveram-no estável. A diferença entre teoria e temperatura vivida era evidente.

Os engenheiros falam agora de “temperatura percebida” em vez do número no termóstato. Um 21 °C seco numa divisão bem isolada e sem correntes de ar não se sente da mesma forma que um 19 °C húmido com paredes frias à volta. Movimento do ar, humidade, temperatura do chão e o nível de atividade mudam tudo. Por isso, quando os especialistas voltaram a olhar para os dados, chegaram a um novo intervalo ideal: cerca de 20,5 °C a 21,5 °C nas zonas da casa que realmente usa.

Não é tropical. Nem punitivo. É apenas o ponto em que a maioria das pessoas deixa de compensar com hábitos dispendiosos.

O novo ideal: uma temperatura “inteligente”, não um número rígido

O consenso emergente parece-se com isto: apontar para cerca de 21 °C na sala principal e construir uma estratégia flexível à volta desse ponto. A chave é menos acertar numa temperatura exata e mais estabilizá-la. Uma casa que se mantém suavemente perto dos 21 °C quase todo o dia costuma consumir menos do que uma casa que oscila de forma brusca entre 17 °C à noite e 23 °C ao fim da tarde. O seu sistema de aquecimento não gosta de montanhas-russas.

Pense no termóstato como um controlo de cruzeiro, não como um acelerador. Defina-o ligeiramente acima do dogma antigo dos 19 °C, mas evite aumentos repentinos. Um pequeno aumento, bem gerido, pode paradoxalmente reduzir o consumo total ao longo do mês.

Agências de energia de vários países europeus começaram a testar esta abordagem com agregados familiares voluntários. Num programa-piloto numa cidade de média dimensão, foi pedido aos residentes que mantivessem a sala de estar estável a 21 °C nos dias úteis, 20 °C à noite e 19 °C nas divisões não utilizadas. Sem picos. Sem “no máximo” quando chegavam a casa a tremer do frio. Ao fim de um inverno, mais de dois terços das famílias relataram melhor conforto e… faturas mais baixas.

Em média, as poupanças de energia variaram entre 8% e 12% face aos hábitos anteriores. A diferença não foi causada pelo número em si, mas pela estabilidade e pela divisão por zonas: quente onde a vida acontece, mais fresco onde ninguém passa mais do que alguns minutos.

Por trás desta nova regra está uma lógica simples: o seu corpo detesta extremos tanto quanto o seu sistema de aquecimento. Quando passa de 15 °C no corredor para 23 °C na sala, exige muito tanto da caldeira como da circulação. Uma diferença menor e consistente evita “choques” e reduz a tentação de sobreaquecer para obter alívio imediato. Sejamos honestos: ninguém anda a mexer no termóstato de hora a hora.

Os especialistas falam agora de um “perfil inteligente de temperatura”: cerca de 21 °C onde se senta e vive, 18–19 °C no quarto para qualidade do sono e 17–18 °C nas zonas de circulação. O antigo número único dá lugar a uma curva suave, adaptada aos seus ritmos.

Como afinar a sua casa para a nova zona de conforto + poupança

O gesto mais eficaz é surpreendentemente pouco tecnológico: escolha a sua divisão principal e calibre-a. Durante três dias, deixe o termóstato a 21 °C durante as horas em que costuma estar acordado em casa. Não lhe toque. Em vez disso, observe. Sente os pés frios no chão? O ar parece seco? Começa a transpirar quando se mexe um pouco? Tome notas mentais em diferentes momentos do dia.

Depois ajuste em passos de meio grau. Se ainda sente frio apesar das meias e de uma camisola, passe para 21,5 °C. Se está quente demais de T-shirt, desça para 20,5 °C. Esse meio grau é muitas vezes o ponto ideal. Depois de o encontrar, fixe-o e concentre-se em portas, cortinas e correntes de ar antes de voltar a mexer no termóstato.

Muitas pessoas sabotam as suas próprias poupanças com pequenos erros, compreensíveis. Aquecer uma divisão vazia “para o caso de virem visitas”. Deixar portas abertas para “o calor circular”, quando na verdade ele se escapa. Abrir janelas de par em par durante 30 minutos com os radiadores ainda a funcionar em força máxima. Nada disto faz de si uma má pessoa. Significa apenas que vive como toda a gente, numa vida ocupada e distraída.

Comece por hábitos que não pareçam castigo. Feche as portas interiores ao fim da tarde, puxe as cortinas assim que escurece, purgue os radiadores no início da estação e ventile de forma intensa mas curta, com o aquecimento desligado: 5–7 minutos, janelas totalmente abertas. Vai notar que, a 21 °C, estes pequenos gestos contam mais do que sacrifícios heroicos aos 19 °C que ninguém em casa aceita.

“Passámos anos a repetir 19 °C como um mantra”, admite um engenheiro de edifícios de uma agência pública de energia. “Mas quando realmente ouvimos as famílias, percebemos que a melhor estratégia era um pouco mais quente, muito mais estável e adaptada à forma como vivem de facto, não à forma como gostaríamos que vivessem.”

  • Defina uma divisão de referência – Escolha um espaço (normalmente a sala) e baseie todas as decisões de temperatura na forma como se sente lá, não em números aleatórios.
  • Use apenas pequenos passos – Ajuste em 0,5 °C e espere 24 horas antes de voltar a mudar, para avaliar o conforto real e não um humor passageiro.
  • Separe zonas
  • Iluminação e têxteis quentes
  • Arejamento curto e intenso

Uma nova relação com o calor em casa

O fim da regra dos 19 °C não é luz verde para viver de T-shirt todo o inverno. É algo mais subtil: uma mudança da culpa para a afinação. De um número rígido para um intervalo pessoal ancorado nos 21 °C para a divisão principal. Entre alertas energéticos, inflação e o aumento do teletrabalho, estamos a aprender a olhar para os termóstatos menos como inimigos e mais como instrumentos.

Cada pessoa tem o seu próprio limiar: quem trabalha no sofá o dia inteiro, o adolescente que quase não sai do quarto, o vizinho mais velho que sente o frio com mais intensidade. O desafio deste inverno é menos obedecer a um número nacional e mais abrir a conversa em casa: “Que temperatura funciona mesmo para nós, se quisermos conforto e controlo da fatura?”

Essa pergunta, partilhada à mesa da cozinha, faz mais pela poupança de energia do que qualquer slogan num cartaz.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Novo intervalo ideal Aponte para cerca de 20,5–21,5 °C nas principais zonas de habitação em vez de um 19 °C rígido Mais conforto, mantendo a fatura e o consumo sob controlo
Estabilidade acima de extremos Mantenha um perfil estável ao longo do dia, com descidas mais suaves à noite e em divisões não usadas Reduz picos desperdiçadores e dá ao aquecimento um trabalho mais fácil e mais barato
Afinação pessoal Ajuste em passos de 0,5 °C com base no que realmente sente, não apenas em normas Encontre o seu equilíbrio entre calor, saúde e poupança, divisão a divisão

FAQ:

  • 21 °C é mesmo melhor do que 19 °C para poupar energia?
    No papel, uma temperatura mais baixa usa sempre menos energia. Na vida real, muita gente a 19 °C compensa com aquecedores portáteis, períodos mais longos de aquecimento ou sobreaquecendo uma divisão. Um 21 °C estável nas zonas certas leva muitas vezes a um consumo total mais consistente e, por vezes, mais baixo.
  • Que temperatura é a mais saudável para dormir?
    A maioria dos especialistas do sono recomenda cerca de 17–19 °C no quarto. O ar mais fresco ajuda um sono mais profundo, desde que o corpo esteja quente debaixo dos cobertores e não haja correntes de ar na cara ou no pescoço.
  • Devo desligar completamente o aquecimento quando saio de casa?
    Para poucas horas fora, normalmente é melhor baixar 1–2 °C do que desligar. Para ausências mais longas, pode descer para 16–17 °C para evitar que a casa fique demasiado fria e húmida.
  • E as pessoas que têm sempre frio?
    A idade, condições de saúde e pouca atividade alteram a zona de conforto. Nesse caso, é razoável ficar mais perto de 21,5–22 °C na divisão principal e focar-se em isolamento, tapetes e roupa por camadas para limitar o impacto na fatura.
  • Um termóstato inteligente vale mesmo a pena?
    Para muitas casas, sim. Um bom termóstato inteligente pode aprender o seu horário, evitar sobreaquecimento quando não está ninguém em casa e gerir pequenos ajustes regulares automaticamente. As maiores poupanças vêm, em geral, de reduzir períodos de aquecimento desnecessários, não de sofrer com um valor de referência mais baixo.

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