A primeira coisa que se nota é o silêncio.
Sem pratos a tilintar, sem cadeiras a raspar - apenas a luz azul de um portátil a brilhar sobre uma taça de massa reaquecida. Em cada vez mais apartamentos lá fora, a grande mesa de família desapareceu. Foi substituída por um balcão alto na cozinha, um sofá enorme virado para a televisão, ou uma secretária comprida que também serve para comer quando há tempo para mastigar com calma.
A velha mesa de madeira que juntava aniversários, trabalhos de casa e assados de domingo? Está a ser discretamente enviada para o sótão, vendida no Facebook Marketplace, ou simplesmente nunca chegou a ser comprada.
Algo está a mudar debaixo dos nossos pés.
E não são apenas as migalhas no chão.
De altar sagrado a extra opcional: a lenta saída de cena da mesa de jantar
Entre num apartamento novo em Copenhaga ou Amesterdão e percebe-se logo. Um sofá XXL, uma smart TV, plantas, talvez um canto de escritório em casa. A mesa de jantar, se existir, é pequena, dobrável, quase a pedir desculpa. Em muitas casas urbanas lá fora, a grande mesa retangular passou de âncora da casa a acessório “bom de ter”.
O coração da casa mudou uns metros. Para o sofá. Ou para a ilha da cozinha.
Veja-se a designer Mia*, de Toronto, que renovou recentemente o seu condomínio T2. Retirou a zona de jantar tradicional e, em vez disso, ampliou o balcão da cozinha. Agora, uma ilha generosa atravessa a divisão como uma passerelle, com três bancos diferentes encaixados por baixo.
“Comemos ali, trabalhamos ali, conversamos ali”, ri-se. “O meu filho faz os trabalhos de casa de um lado, eu corto legumes do outro. Quando vêm amigos, juntamo-nos à volta da ilha com tapas. Ninguém sente falta da mesa antiga.”
A velha mesa de jantar? Vendida em 24 horas online. Sem arrependimentos.
O que parece radical muitas vezes é apenas prático. As casas lá fora estão a ficar mais pequenas, as rendas estão a subir, e cada metro quadrado tem de justificar a sua existência. Uma mesa de jantar que só é usada “a sério” uma vez por semana começa a soar a luxo.
Os espaços em open space também esbatem fronteiras. A cozinha liga-se à sala, o canto do escritório invade o corredor. Espera-se que o mobiliário seja flexível, móvel, multifunções. Uma mesa fixa e formal tem dificuldade em competir nesse jogo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
As novas configurações “sem mesa” que toda a gente está a adotar em silêncio
Então, o que substitui a grande mesa de jantar nestas casas que ditam tendências? Primeiro, a ilha ou península de cozinha. Um pouco mais alta, um pouco mais comprida, torna-se o centro de comando do dia inteiro. Pequeno-almoço de um lado, portátil do outro, jantares rápidos comidos em pé quando o dia se prolonga.
Lá fora, os designers já planeiam iluminação, tomadas e arrumação à volta dessa única peça - como um cockpit da vida moderna.
Depois vem o famoso “comer no sofá”. Todos já passámos por isso: o momento em que é mais fácil equilibrar um prato nos joelhos do que pôr talheres numa mesa distante. Em apartamentos de Londres ou Nova Iorque, as pessoas assumem isso por completo. Investem em apoios de braço largos, mesas de apoio baixas com rodas e tabuleiros que se prendem ao sofá.
Não é preguiça, é logística. O jantar acontece onde o relaxamento já está. A televisão está ligada, a conversa flui, ninguém se levanta para “pôr a mesa”. A mesa, simplesmente… já não existe.
Há ainda uma revolução mais discreta: o híbrido trabalho-jantar. Secretárias compridas que se transformam em zona de refeições às 19h. Mesas estilo cowork instaladas na própria sala. Consolas estreitas que se desdobram e dão espaço para seis pratos quando aparecem amigos.
Esta abordagem flexível vem de cidades habituadas a espaços minúsculos: Tóquio, Estocolmo, Berlim. Comer passa a ser apenas um dos muitos usos de uma superfície, e não a sua identidade principal. A “sala de jantar” transforma-se em “o sítio onde a vida acontece hoje - seja lá o que isso for”.
Como viver sem uma mesa de jantar a sério (e não se sentir um estudante)
Se esta tendência “importada” lhe faz sentido, o primeiro passo é simples: desenhar um “ponto forte” para comer, mesmo que não seja uma mesa clássica. Pode ser um bar junto a uma parede, um parapeito de janela profundo com bancos, ou uma ilha de cozinha alongada com mais 30 centímetros. A chave é a altura e o conforto.
Escolha bancos com encosto, uma superfície suficientemente grande para pratos e cotovelos, e boa luz que não pareça de escritório. É assim que um sítio prático se transforma num mini-espaço de ritual.
O grande medo, muitas vezes, é cair no caos: pratos na cama, migalhas no teclado, petiscar constante em vez de refeições. Quem lá fora se desfez da mesa de jantar diz que o truque não é perseguir a perfeição, mas sim o ritmo. Escolha uma regra que combine consigo.
Para alguns, é “comemos sempre no mesmo sítio, mesmo que seja no sofá”. Para outros, “depois das 20h, nada de pratos na secretária”. Pequenas fronteiras mantêm tudo humano, não desorganizado. E sim, às vezes vai voltar a comer em frente aos e-mails. Não está a falhar na vida adulta. Está apenas a viver.
Designers e psicólogos que observam esta mudança têm sentimentos mistos, mas concordam numa coisa:
“O objeto não é sagrado”, diz a arquiteta de interiores Laura Jensen. “O que importa é um momento em que paramos de fazer scroll, olhamos uns para os outros e partilhamos comida. Se isso acontece numa mesa rústica ou num balcão de cozinha, é menos importante do que pensamos.”
Para copiar o melhor desta tendência sem perder o norte, foque-se em alguns pontos simples:
- Criar um sítio principal para as refeições, mesmo que seja pequeno.
- Escolher mobiliário que mude de função com facilidade (secretária de dia, mesa à noite).
- Manter um ritual leve: um tabuleiro, uma vela, loiça “a sério” uma vez por dia.
- Proteger pelo menos uma refeição por semana sem ecrãs, onde quer que aconteça.
- Aceitar que a divisão nunca vai parecer um catálogo, mas sim a sua vida real.
Uma casa sem mesa de jantar… ou apenas uma forma diferente de se juntar?
Por trás desta tendência vinda de fora, há uma pergunta silenciosa: precisamos mesmo de uma mesa grande para nos sentirmos família, casal, casa? Lá fora, muita gente responde que não. Comem no sofá, à volta de uma ilha, em pé junto à janela. E, ainda assim, sopram velas de aniversário, discutem quem lava a loiça, partilham a última colherada de sobremesa.
Os rituais mudam de lugar, mas não desaparecem. Adaptam-se a espaços mais pequenos, dias mais cheios e ecrãs que nunca dormem.
Talvez a verdadeira mudança não seja o mobiliário, mas a intenção. Uma casa sem mesa pode continuar a ser um lugar de encontro, desde que exista um momento partilhado que não pareça apressado. Um espaço, mesmo improvisado, que diga: “Estamos aqui, ao mesmo tempo, a fazer a mesma coisa.”
As grandes mesas maciças de carvalho de que os nossos avós gostavam contavam uma história de estabilidade e rotina. As ilhas, secretárias e sofás de hoje contam uma história de agilidade e reorganização constante. Nenhuma história é melhor por defeito. A verdadeira pergunta é: qual delas se ajusta à sua vida agora?
Pode manter a mesa antiga e simplesmente usá-la de outra forma. Pode dobrá-la e guardá-la durante meses, trazendo-a de volta nas celebrações. Ou pode despedir-se de vez e juntar-se à geração da ilha-e-sofá. O que vem a seguir provavelmente será uma mistura: mobiliário móvel, divisões modulares, jantares que viajam da cozinha para a varanda e para a cama.
A tendência lá de fora é clara: a mesa de jantar já não é rei.
O que ocupa o seu lugar depende de si.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Locais de refeição flexíveis | Ilhas de cozinha, bares e secretárias híbridas a substituir mesas tradicionais | Dá ideias para otimizar casas pequenas ou em open space |
| Ritual acima do mobiliário | Foco num local recorrente para refeições e em hábitos simples | Ajuda a manter um sentido de proximidade sem sala de jantar formal |
| Superfícies multifunções | Híbridos trabalho-jantar e mobiliário modular | Maximiza cada metro quadrado e adapta-se a estilos de vida em mudança |
FAQ:
- É mesmo aceitável viver sem mesa de jantar?
Sim. Muitos agregados lá fora já o fazem. O essencial é manter uma zona principal para comer e alguns rituais simples - não possuir uma peça específica de mobiliário.- Comer no sofá não vai estragar a postura e o sofá?
Pode estragar, se estiver desconfortável e sem preparação. Use tabuleiros, mesas de apoio e capas laváveis para proteger o corpo e o mobiliário.- Como posso receber amigos sem uma mesa a sério?
Pense em estilo buffet, tapas, ou travessas grandes num balcão ou mesa de centro. Peça emprestadas mesas dobráveis ou use bancos e banquetas empilháveis quando precisar.- E se eu tiver filhos - ainda precisamos de uma mesa?
Uma superfície estável à altura da criança é muito útil, mas não tem de ser um conjunto clássico de jantar. Uma ilha sólida, uma mesa baixa ou um banco com almofadas pode servir.- Vou arrepender-me de me desfazer da mesa um dia?
Pode sentir falta dela em eventos grandes - por isso, muita gente prefere modelos extensíveis ou dobráveis, em vez de uma peça pesada e permanente. Pode sempre voltar a introduzir uma mais tarde, se a sua vida mudar.
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