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Ao lançar toneladas de betão em águas rasas, a China transformou recifes disputados em bases militares.

Barco deposita pedras no mar junto a um cais. Mapa e bússola em primeiro plano. Cais e guindaste ao fundo.

Acontecem assim, em silêncio, os últimos metros: zumbidos baixos e instruções sussurradas, como se levantar a voz pudesse acordar alguma coisa a dormir debaixo de água. À frente, aquilo que deveria ser um anel de coral pálido e baixios turquesa parece… errado. Há uma pista onde antes as ondas rebentavam.

Uma bandeira chinesa estala ao vento por cima de uma laje de betão que, simplesmente, não devia estar ali. Antenas erguem-se onde antes nidificavam aves marinhas. Uma cúpula de radar agacha-se num pedaço de areia que, durante décadas, os cartógrafos mal se deram ao trabalho de nomear.

Algures sob esta plataforma cinzenta, os peixes ainda circulam o coral morto. Nas fotografias de satélite, tudo parece quase arrumado, como uma ilha de brinquedo colocada numa mesa azul‑vidro. Ao vivo, a escala atinge primeiro o estômago. Depois vem outra ideia, em silêncio, e é mais difícil de afastar: este posto avançado não foi construído para ser bonito.

De recifes dispersos a ilhas‑fortaleza

Visto do ar, o Mar do Sul da China parecia, em tempos, um erro de pintor: pinceladas dispersas de recife e areia num enorme aguado azul. Durante décadas, foram sobretudo domínio de pescadores e tempestades. Hoje, vários desses recifes têm arestas direitas e cantos afiados, como se alguém tivesse passado uma régua sobre o oceano.

A China despejou milhões de toneladas de betão e areia em águas pouco profundas, transformando recifes meio submersos em estruturas permanentes. Em formações como Fiery Cross, Subi e Mischief, a transformação é brutal. O que antes eram apenas saliências na maré agora acolhe longas pistas, portos profundos e filas de edifícios militares. O mar não mudou de humor. Os humanos mudaram-lhe a forma.

Na ponte de um navio de patrulha filipino, um oficial percorre imagens antigas de satélite no telemóvel. As fotos são desfocadas, quase pitorescas: apenas anéis de recife cor de creme num azul lavado. Passa para a imagem seguinte, tirada alguns anos depois. O anel foi preenchido, como uma taça atestada com cimento húmido. Vêem-se as marcas das garras da draga na água.

Faz zoom outra vez e lá está: uma linha recta que só pode ser uma pista, a cortar a lagoa. “Costumávamos abrigar-nos ali quando o tempo piorava”, diz. “Agora dizem-nos que é ‘território chinês’.” Para as pequenas vilas costeiras que dependem da pesca, a mudança é dolorosamente concreta também. As redes voltam cortadas. Barcos são expulsos por navios maiores e mais brancos.

A lógica por detrás deste estaleiro em câmara lenta é crua. Pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, “ilhas” podem gerar zonas económicas exclusivas, enquanto elevações a baixa-mar e recifes não podem. Ao endurecer estes recifes em estruturas permanentes, Pequim não está apenas a fincar bandeiras. Está a tentar mudar a forma como os mapas são lidos e onde as linhas são traçadas.

Cada nova pista, cúpula de radar e cais não projecta apenas poder a nível local. Encaixa numa teia capaz de seguir aeronaves, vigiar submarinos e pressionar Estados vizinhos. O betão é a parte visível. O verdadeiro edifício é jurídico e estratégico, assente em reivindicações de “direitos históricos” que outros países rejeitam. Isto é menos sobre terra, mais sobre influência numa das principais artérias marítimas do mundo.

Como o betão se tornou uma ferramenta geopolítica

O processo começa em silêncio. Navios de levantamento permanecem. Bargas surgem no horizonte, por vezes rotuladas como “apoio à pesca” ou “investigação”. Depois chegam as dragas. Enormes bocas mecânicas começam a mastigar areia do fundo do mar, pulverizando-a sobre o recife até a água mudar de cor, passando de azul límpido a um verde lamacento e artificial.

Quando já foi despejada areia suficiente, entram os engenheiros com maquinaria pesada. Estacas de aço são cravadas fundo no novo terreno, formando o esqueleto de cais, quebra‑mares e fundações. Só então começa o verdadeiro dilúvio de betão, camada após camada, a endurecer como uma armadura em torno do que antes era um sistema de coral vivo. É uma coreografia pensada para avançar depressa, antes que os protestos se transformem em obstáculos reais.

Analistas militares que seguem o Mar do Sul da China como outros seguem mapas meteorológicos têm contado o crescimento quase em tempo real. O recife Fiery Cross, que há uma década mal espreitava acima das ondas, exibe agora uma pista com cerca de 3.000 metros. Imagens de satélite mostram abrigos reforçados para aeronaves, posições antiaéreas e bunkers subterrâneos costurados na nova pele de betão.

A China usa frequentemente o vocabulário de “instalações civis” e “busca e salvamento” para descrever estes projectos. Fotografias divulgadas pelos media estatais destacam faróis, estufas, até campos de basquetebol. No entanto, as mesmas instalações podem acolher caças, reabastecer navios de guerra e controlar o espaço aéreo. Uma base não deixa de ser base só porque se plantam algumas palmeiras.

No papel, estas ilhas parecem projectos de infra-estrutura padrão. Na prática, são algo mais próximo de peças de xadrez vertidas em cimento. Ao transformar recifes em ilhas de facto, Pequim aposta que os factos físicos acabarão, lentamente, por pesar mais do que os argumentos legais. Mesmo que tribunais internacionais rejeitem as suas reivindicações expansivas, as pistas ficam. O betão, ao contrário da linguagem diplomática, não dobra com facilidade.

O que isto significa para o resto de nós

Se vive longe do Mar do Sul da China, isto pode parecer uma disputa distante por pontos num mapa náutico. Uma forma de o trazer para mais perto é seguir os navios. Cerca de um terço do comércio marítimo mundial passa por estas águas. O telemóvel que tem na mão, o carro que conduz, a comida na prateleira do supermercado - muito disso passou, algures, entre estes recifes.

Quando um país transforma águas rasas disputadas em postos avançados fortificados, altera subtilmente as regras dessa passagem. Marinhas estrangeiras planeiam agora rotas em função da cobertura de radar e dos alcances de mísseis. Capitães mercantes avaliam riscos de seguro ao cruzar faixas que ficaram subitamente tensas. Investidores acompanham cada quase‑colisão captada em vídeos granulados entre embarcações de guarda costeira e pequenos barcos de pesca de madeira.

Num plano mais humano, as pessoas que vivem mais perto destas novas ilhas sentem o aperto primeiro. Pescadores vietnamitas e filipinos relatam ser atingidos com canhões de água ou seguidos durante horas por volumosos navios chineses brancos de “milícia marítima”. Um pedaço de mar que antes parecia um bem comum aberto agora parece um parque de estacionamento vigiado, com fronteiras invisíveis.

Não precisamos de ser especialistas para reconhecer aqui um padrão familiar. À escala pequena, é a história de espaço público a tornar-se privado, de terreno comum a ser vedado pouco a pouco. À escala global, são oceanos a tornar-se corredores que podem ser abertos ou fechados consoante a estratégia nacional. Sejamos honestos: ninguém lê cartas náuticas todos os dias. Mas todos vivemos com as consequências quando os custos de transporte disparam, quando os preços dos combustíveis sobem, quando uma crise regional na Ásia se repercute em empregos na Europa ou em África.

Alguns cidadãos chineses vêem estas bases através de outra lente emocional: como uma correcção tardia de humilhações passadas, uma forma de recuperar aquilo a que os manuais chamam “territórios perdidos”. Essa narrativa tem peso real. O orgulho nacional assenta muitas vezes em rochas e bandeiras, mesmo quando essas rochas desapareciam na maré cheia. Para os vizinhos que se lembram de confrontos e impasses, o mesmo betão parece muito menos dignidade e muito mais pressão tornada permanente.

“A terra é normalmente conquistada com tropas”, disse-me um diplomata reformado do Sudeste Asiático. “Aqui, está a ser conquistada com dragas e betoneiras. O resultado é o mesmo: uma nova realidade muito difícil de reverter.”

Da próxima vez que vir uma foto de satélite de um triângulo cinzento bem arrumado num mar perfeitamente azul, talvez ajude guardar uma pequena lista mental:

  • Quem usava este recife antes de ser aterrado - e quem ainda o pode usar hoje?
  • Que tipo de aeronaves ou navios este posto avançado consegue agora apoiar?
  • Como é que este novo betão altera rotas de pesca próximas ou padrões de patrulha?
  • Que países contestam as águas à sua volta, no papel e no mar?
  • O que acontece se, um dia, as linhas de comunicação entre esses países se quebrarem?

A história não acabou - e esse é o ponto

De pé numa praia em Palawan, no oeste das Filipinas, às vezes consegue-se distinguir formas ténues no horizonte em dias muito limpos. Para a maioria dos turistas, são apenas manchas. Para os pescadores locais, são marcadores de onde agora hesitam em ir. Falam delas como os citadinos falam de câmaras CCTV: sempre ali, sempre a vigiar.

A febre de construção de ilhas da China no Mar do Sul da China abrandou face ao seu pico frenético, mas a lógica por trás dela não desapareceu. Outros países, do Vietname à Indonésia, estão também a reforçar as suas próprias posições, a alongar pistas, a consolidar cais, a comprar novas embarcações de patrulha. A corrida ao armamento já não é só sobre mísseis e jactos. É sobre o betão de quem fica onde - e o que isso lhes permite controlar.

Todos conhecemos aquela sensação quando uma pequena mudança na nossa rua - um novo portão, uma nova barreira - de repente torna um passeio familiar menos aberto. Escale isso para uma região onde potências nucleares testam a paciência umas das outras, e o risco muda de grau. Os recifes transformados em postos avançados não são apenas sobre orgulho territorial ou reservas de peixe; são pontos de pressão num sistema global que depende de bens, dados e energia a fluir com relativa suavidade.

Os próximos capítulos desta história podem não ser tão visíveis. Conflitos cibernéticos, acordos diplomáticos discretos, novas alianças, sanções económicas - tudo isto é mais difícil de fotografar do que uma pista reluzente no recife Mischief. Ainda assim, está tudo interligado. Enquanto aquelas lajes vertidas permanecerem nos baixios, cada crise na região terá uma aresta mais dura.

Talvez seja por isso que as imagens destas ilhas artificiais continuam a aparecer nos nossos feeds. São suficientemente físicas para as entendermos, suficientemente simbólicas para nos inquietarem. Levantam perguntas que vão muito além dos mapas navais: quem tem o direito de redesenhar os espaços partilhados do mundo? Como resistir quando as ferramentas de poder são dragas e camiões de betão, e não apenas tanques? E o que acontece quando o oceano, lenta mas inexoravelmente, começa a subir contra todo esse betão fresco?

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Recifes transformados em bases A China aterrou recifes pouco profundos com areia e betão, acrescentando pistas, portos e radares Ajuda a perceber por que razão elementos obscuros passam a importar nas notícias globais
Betão como estratégia “Ilhas” artificiais reforçam reivindicações territoriais e expandem o controlo prático sobre rotas marítimas Mostra como obras podem deslocar silenciosamente fronteiras e regras
Efeitos em cascata no mundo Postos militarizados assentam em rotas comerciais vitais usadas pelo transporte marítimo global Liga recifes distantes a preços, empregos e segurança no dia‑a‑dia

FAQ

  • Porque é que a China está a construir em recifes no Mar do Sul da China? Pequim quer reforçar as suas amplas reivindicações marítimas, projectar poder militar e garantir controlo sobre rotas comerciais movimentadas e recursos próximos, como peixe e potenciais reservas energéticas.
  • Estas ilhas artificiais são legais ao abrigo do direito internacional? Muitos especialistas jurídicos dizem que não, sobretudo após um tribunal em 2016 ter rejeitado as reivindicações chinesas de “direitos históricos”; porém, a China desvaloriza essa decisão e continua a tratar os postos avançados como parte do seu território.
  • Estas novas ilhas podem mesmo mudar fronteiras? Não alteram automaticamente fronteiras legais, mas criam “factos no terreno” que tornam mais difícil a outros países afirmarem os seus direitos sem arriscar confronto.
  • Quem mais está a construir ou a expandir na zona? Vietname, Filipinas, Taiwan e outros também reforçaram formações sob o seu controlo, embora a uma escala menor, muitas vezes consolidando pistas ou acrescentando abrigos em vez de criar grandes plataformas novas.
  • O que pode acontecer se as tensões continuarem a subir? Os riscos vão desde encontros marítimos mais perigosos e perturbações económicas até um choque militar sério entre a China e Estados alinhados com os EUA, com consequências que iriam muito além da Ásia.

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