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Após os 70: nem caminhadas diárias, nem ginásio semanal-este é o tipo de movimento que melhora a sua longevidade saudável.

Mulher idosa a fazer exercício em tapete de ioga, apoiada numa cadeira.

Em uma pequena sala comunitária nos arredores da cidade, oito pessoas estavam de pé num círculo solto, sem sapatos, com meias desencontradas, rostos meio concentrados, meio divertidos. Ninguém estava numa passadeira. Sem pesos, sem contadores de passos, sem ecrãs luminosos de smartwatches.

A instrutora, ela própria com 74 anos, pediu-lhes para fazerem algo silenciosamente radical: sentarem-se no chão e voltarem a levantar-se. Outra vez. Devagar. Com controlo. Um homem riu-se, depois tentou, e depois deixou de rir. Uma mulher de casaco de malha vermelho precisou de três tentativas antes de encontrar uma forma que não lhe magoasse o joelho. Ninguém estava a cronometrar nada. Estavam apenas… a mexer-se como a vida real exige.

Visto de fora, parecia banal. E, no entanto, parecia que estávamos a ver pessoas a ensaiar para o resto dos seus anos.

O padrão de movimento de que o seu corpo 70+ precisa em segredo

Falamos muito em “fazer os passos” depois dos 70. Caminhadas diárias, voltas no parque, percursos cuidadosos pelos corredores do supermercado. Ou imaginamos que os “saudáveis” vão ao ginásio duas vezes por semana, movendo-se em silêncio entre máquinas. Tudo isso é bom, mas deixa de fora o movimento de que o seu futuro depende seriamente: levantar-se e sentar-se no chão com controlo.

Este padrão simples - do chão para de pé, e de pé para o chão - está no centro do que os médicos chamam a sua vida saudável (healthspan): os anos em que se mantém independente, lúcido e livre para viver como quer. Não é glamoroso. Não há classificações. E, no entanto, pode prever durante quanto tempo continua a vestir-se sozinho, a viajar, a brincar com os netos… e durante quanto tempo evita longas estadias em camas de hospital.

As caminhadas ajudam o coração. O ginásio ajuda os músculos. Este padrão protege a sua liberdade.

No Brasil, um grande estudo usou, de forma célebre, um “teste sentar-levantar” em mais de 2.000 adultos entre os 51 e os 80 anos. Pedia-se aos participantes que se sentassem no chão e voltassem a levantar-se, usando o mínimo de apoio possível. A pontuação dependia de quantas vezes precisavam das mãos, dos joelhos ou de apoio. Quem tinha pontuações mais altas tinha uma probabilidade muito maior de viver mais anos nos anos seguintes. Sem testes de passadeira, sem exames sofisticados - apenas este movimento do dia a dia.

Parece simples demais, até imaginar o que está escondido lá dentro. Para passar do chão para de pé, precisa de força nas pernas, mobilidade das ancas, equilíbrio, coordenação e estabilidade do core, tudo a funcionar em conjunto. Se um destes elementos falha, o movimento inteiro colapsa. E, na vida real, esse colapso surge como “não consigo levantar-me se cair” ou “preciso de ajuda para me levantar daquela cadeira baixa”.

Um fisioterapeuta com quem falei chama-lhe o “teste de transferência da vida”: consegue o seu corpo transferi-lo em segurança entre os dois mundos em que vive - o chão e a vida na vertical? É uma pergunta silenciosa e poderosa.

Estamos habituados a pensar em tarefas isoladas. Uma caminhada para o coração. Uma máquina para as pernas. Um puzzle para o cérebro. O padrão chão‑para‑de‑pé corta essa separação a direito. Obriga todo o seu sistema a colaborar em tempo real, com o seu peso corporal real, da forma como a vida diária exige.

Se olhar com atenção, percebe porque é que isto importa para o risco de queda. As pessoas não “caem” simplesmente; tropeçam, torcem, estendem a mão, viram-se, falham um degrau, ou ficam desequilibradas ao apanhar algo do chão. Treinar este padrão de movimento completo melhora os mesmos ingredientes de que precisa não só para evitar a queda, mas para recuperar dela: rolar, gatinhar até uma cadeira, apoiar-se e empurrar-se para ficar de pé.

Há também uma camada psicológica. Cada vez que se levanta e se senta pelo seu próprio esforço, o seu sistema nervoso recebe um pequeno voto de confiança: “ainda consigo fazer isto”. Essa confiança discreta muda a forma como caminha, a velocidade a que se move, aquilo que se atreve a fazer. A confiança depois dos 70 é como músculo extra.

Como treinar em segurança o padrão chão‑para‑de‑pé depois dos 70

Esqueça acrobacias. A versão mais útil deste padrão começa onde está agora, não onde estava aos 40. Comece numa cadeira robusta com braços, perto de uma mesa ou parede. Sente-se direito, pés assentes. Deslize um pé um pouco para trás, incline o peito ligeiramente para a frente, pressione através das pernas e das mãos e levante-se de forma suave. Depois faça o inverso: leve as ancas para trás, encontre a cadeira com as mãos e desça lentamente.

Quando isto estiver confortável, avance para alvos mais baixos: uma almofada firme no sofá, um banco baixo, até uma pilha de almofadas no chão. O “jogo” é sempre o mesmo: consegue descer e subir com controlo, usando o mínimo de apoio extra que seja seguro? Pequenos ajustes - virar de lado, usar uma mão em vez de duas, avançar um pé - ensinam ao corpo novas versões da mesma história vital.

Muitos adultos mais velhos evitam este padrão por terem medo de ficar presos no chão. Esse medo é real. E não é motivo para evitar a prática - é um sinal de que a prática já vem tarde. Comece por ensaiar a parte de “levantar” a partir de uma superfície mais alta, com alguém por perto. Pratique quando não está cansado e nunca com pressa. À medida que o corpo aprende o caminho, o medo muitas vezes fica um pouco mais silencioso.

Erro comum: tratar isto como castigo ou como um teste que se pode “reprovar”. Não é um exame; é um ensaio. Use almofadas, blocos de ioga, até uma manta grossa para elevar o nível do “chão” e tornar a tarefa exequível. Outro erro é prender a respiração. Expire suavemente durante o esforço - levante-se na expiração, desça na expiração. Faz com que tudo pareça menos “força” e mais ritmo.

Sejamos honestos: ninguém faz isto mesmo todos os dias. A vida é caótica, as consultas acumulam-se, a energia baixa. Por isso, aponte para “frequentemente o suficiente para não perder a familiaridade”, não para a perfeição. Duas ou três sessões pequenas por semana, 5–10 minutos de cada vez, podem, aos poucos, reprogramar a sua confiança. E se um joelho protestar alto, fale com um profissional antes de insistir - a dor é feedback, não uma falha moral.

“Depois dos 70, já não treino pela aparência”, disse-me uma enfermeira reformada de 79 anos. “Treino pelo direito de me levantar do chão sem ficar à espera de uma ambulância.”

A rotina dela é simples, e pode roubar a estrutura:

  • Aquecimento: círculos suaves com os tornozelos, marcha no lugar, balanços leves da anca (3–5 minutos).
  • Repetições cadeira‑para‑de‑pé: 5–10 repetições lentas, descansando entre cada uma.
  • Preparação para o chão: meio-ajoelhado ao lado de uma cadeira, praticando descer um joelho e levantar o outro.
  • Chão‑para‑de‑pé assistido: uma mão numa cadeira ou mesa baixa, outra na coxa, levantando-se a partir de uma almofada.
  • Retorno à calma: respiração lenta, mãos na barriga, 5 expirações longas para deixar o sistema assentar.

Isto não é um campo de treino intensivo. Isto é treino de independência quotidiana.

Porque é que este padrão único melhora a sua vida saudável

Quando os médicos falam de envelhecimento, usam frequentemente duas linhas do tempo: longevidade (quanto tempo vive) e vida saudável (quanto tempo vive bem). O padrão chão‑para‑de‑pé é como uma ponte entre as duas. Carrega as pernas o suficiente para proteger músculo e osso, desafia o equilíbrio o suficiente para manter reflexos apurados e exige foco suficiente para manter o cérebro ligado ao corpo.

Todos já vivemos aquele momento em que uma dificuldade pequena e banal, de repente, parece um veredito: lutar para se levantar de um sofá baixo à frente de amigos, ou precisar de duas pessoas para o ajudar a levantar do chão depois de uma queda suave. Esses momentos não magoam apenas o corpo. Magoam a noção de quem somos. Treinar este padrão de movimento é uma forma de reescrever silenciosamente essa identidade, uma repetição de cada vez.

A ciência está a seguir a mesma direção. Investigadores falam agora de “reserva física” - a capacidade de backup que o corpo tem quando a vida traz stress: doença, cirurgia, luto, viagens. Pessoas que ainda conseguem mover-se através de padrões completos, como levantar-se do chão, tendem a recuperar mais depressa, ter altas mais cedo e continuar a viver nas suas próprias casas durante mais tempo. Isto não é sobre estar “em forma para a sua idade”; é sobre ter uma almofada contra as arestas ásperas da vida.

Talvez o efeito secundário mais surpreendente seja social. Quando os adultos mais velhos se sentem mais seguros a descer e subir do chão, voltam a sentar-se em mantas de piquenique. Ajoelham-se para arrancar ervas no jardim. Gatinha em quatro apoios com crianças pequenas. Entram em aulas de exercício sem a preocupação silenciosa: “E se não me conseguir levantar?” O movimento abre portas que nenhum medicamento consegue destrancar sozinho. E essas portas, muitas vezes, levam diretamente à alegria.

Ninguém precisa que se torne atleta aos 75. O seu corpo está a pedir algo mais simples e mais útil: manter-se em bons termos com a gravidade, até ao chão e de volta.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Padrão chão‑para‑de‑pé Praticar transições controladas do chão para de pé e de volta Diretamente ligado à independência, recuperação após quedas e confiança depois dos 70
Progressão gradual Usar cadeiras, almofadas e apoios para tornar o movimento seguro e exequível Permite começar a partir do seu nível atual, não de uma versão idealizada de si
Impacto na vida saudável Combina força, equilíbrio, coordenação e foco mental num só movimento Maximiza o retorno de pouco tempo de treino e protege a liberdade no dia a dia

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Caminhar não é exercício suficiente depois dos 70? Caminhar é ótimo para o coração e para o humor, mas não treina totalmente a capacidade de se levantar de posições baixas nem de recuperar de uma queda. O padrão chão‑para‑de‑pé preenche essa lacuna.
  • E se eu não consigo ir ao chão em segurança neste momento? Comece mais alto: pratique a partir de cadeiras, sofás ou uma pilha de almofadas, sempre com algo estável por perto. O “chão” pode ser elevado até o seu corpo estar pronto para mais.
  • Quantas vezes por semana devo praticar? Duas a três sessões curtas por semana são um bom começo. Mesmo 5–10 minutos, com consistência, podem mudar o seu equilíbrio e confiança ao longo do tempo.
  • Isto é seguro se já tive uma prótese da anca ou do joelho? Muitas vezes sim, com modificações cuidadosas, mas precisa de autorização do seu médico ou fisioterapeuta. Podem mostrar-lhe formas amigas das articulações para executar o padrão.
  • E se eu tiver medo de ficar preso no chão? Pratique com um parceiro, perto de uma cadeira ou cama robusta, e ensaie lentamente o “caminho para levantar”. Esse medo é comum - e cada repetição apoiada reduz-no um pouco.

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