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As palavras que usas ao pensar nos teus erros influenciam a rapidez com que segues em frente.

Mão escreve em bloco de notas "O que aprendi / Próximo passo". Há café, um marcador e notas adesivas na mesa.

A sala fica silenciosa por um segundo a mais depois do erro.
Alguém acabou de partilhar os números errados numa reunião, e sente-se o ar a mudar. Ombros enrijecem. Olhares descem para os portáteis. A pessoa que falou fixa a mesa, a repetir cada palavra que acabou de dizer.

Depois começa o monólogo interior: “Sou tão estúpido.” “Como é que consegui estragar isto?” “Toda a gente viu.”
Por fora, não acontece nada de dramático. Ninguém grita. Ninguém sai a bater com a porta. Mas, dentro da cabeça daquela pessoa, está a ser escrita uma história pequena e afiada sobre quem ela é agora.

Mais tarde, mal se vão lembrar dos números.
Vão lembrar-se das palavras que usaram consigo próprios.
E essas palavras vão decidir, em silêncio, durante quanto tempo ficam presos.

O guião escondido depois de cada erro

Sempre que falhas, um guião começa a correr na tua mente.
Talvez não o ouças com clareza, mas ele está lá, a moldar como te sentes, como ages e quão depressa segues em frente. Às vezes é duro: “Sou um falhanço.” Às vezes é mais suave, mas continua pesado: “Eu faço sempre isto.”

O estranho é que o erro em si muitas vezes é pequeno.
O e-mail enviado para a pessoa errada. O nome esquecido no pior momento. A apresentação em que, de repente, a mente ficou em branco. Os factos esbatem-se com o tempo, mas a linguagem que usas para te descrever a ti próprio fica. Esse comentário interno torna-se uma espécie de crachá de identidade que colocas discretamente no teu próprio peito.

Os psicólogos falam de “auto-fala” como se fosse uma técnica, mas, para a maioria das pessoas, é apenas a água onde nadam.
Não a escolhem de propósito. É herdada de pais, professores, culturas onde o erro equivale a vergonha. E enquanto esse guião permanecer invisível, as tuas palavras continuam a transformar pequenos erros em histórias pesadas que carregas durante anos.

Alguns foram ensinados a ver a dificuldade como um sinal de que o cérebro estava a aprender, não de que estava “estragado”. Deram-lhes linguagem como “ainda não” em vez de “nunca” ou “não consigo”. Com o tempo, as notas melhoraram, mas também mudou outra coisa: a rapidez com que recuperavam depois de contratempos.

Outra experiência pediu às pessoas que descrevessem um fracasso passado usando frases fixas (“Eu sou simplesmente mau nisto”) ou frases de processo (“Desta vez não me preparei o suficiente”). Quem usou linguagem de processo disse sentir-se com mais esperança e agiu mais cedo.
Mesmo evento. Mesmos factos. Palavras diferentes, futuro diferente.

Numa escala mais pequena, observa alguém a sair de uma entrevista de emprego que correu mal. Uma pessoa diz: “Estraguei tudo, sou péssimo em entrevistas.” Outra diz: “Aquela pergunta sobre o salário baralhou-me, preciso de uma resposta melhor para a próxima.” A primeira fica presa em linguagem de identidade. A segunda fala de um momento específico no tempo.
Uma é um beco sem saída.
A outra é um desvio.

A linguagem é mais do que descrição. É uma ferramenta que o teu cérebro usa para arquivar experiências. Quando dizes “Sou um falhanço”, o teu cérebro não trata isso como poesia. Trata-o como um rótulo. Move o evento da pasta “erro que cometi” para a pasta “quem eu sou”, e essa é uma pasta muito mais difícil de editar.

Muda apenas algumas palavras e o cérebro arquiva o mesmo momento noutro sítio.
“Chumbei neste exame” é registado como um evento. “Sou mau na escola” torna-se uma definição global. Um pode ser aprendido. O outro dita silenciosamente as tuas escolhas: que riscos deixas de correr, que salas evitas, que sonhos começam a parecer-te proibidos.

Os neurocientistas veem isto na forma como as memórias se consolidam. Histórias emocionalmente carregadas, sobretudo as embrulhadas em palavras de identidade, reforçam-se com mais força. Por isso, quanto mais dura for a tua auto-fala, mais profundo é o sulco que ela escava. Com o tempo, não estás apenas a recordar o que aconteceu; estás a ensaiar um papel que achas que tens de representar.

Trocar a linguagem da culpa pela linguagem de construção

Há um movimento simples que muda tudo: pára de te descreveres e começa a descrever a situação.
Em vez de dizer “Sou péssimo nisto”, tenta “Ainda estou a aprender isto”. Não estás a fingir que o erro não aconteceu. Estás apenas a recusar que ele passe de incidente a identidade.

Um truque prático é acrescentar tempo ou contexto às tuas palavras.
“Hoje lidei mal com isto.” “Não estava suficientemente preparado para esta apresentação.” “Subestimei quanto tempo isto ia demorar.” Estas frases mantêm o erro ancorado na realidade, não no teu valor. Não estás a apagar a responsabilidade. Estás a torná-la específica - que é a única forma de conseguires mudar alguma coisa da próxima vez.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A maioria das pessoas funciona em piloto automático e agarra primeiro a palavra mais afiada.
Mas cada vez que paras e escolhes uma frase mais precisa e menos catastrófica, estás a treinar o teu cérebro a passar da linguagem da culpa para a linguagem de construção. E a linguagem de construção tem um objetivo: pôr-te de novo em movimento.

Uma armadilha comum é confundir responsabilização com auto-punição.
Pensas que ser “duro” contigo vai impedir-te de repetir o mesmo erro, por isso acumulas rótulos agressivos. “Sou preguiçoso.” “Sou inútil.” “Nunca vou aprender.” Parece disciplina, quando na realidade é mais como dar um nó nos próprios atacadores.

Numa segunda-feira de manhã, alguém falha um prazo importante. A versão dura: “Sou completamente pouco fiável.” A versão construtora: “Esta semana sobrestimeI a minha capacidade e não sinalizei isso cedo o suficiente.” A primeira versão deixa-te no chão. A segunda aponta, em silêncio, para um próximo passo: ajustar o planeamento, comunicar mais cedo, pedir ajuda com antecedência.

Num nível mais profundo, muitas pessoas carregam palavras que nunca foram realmente suas. Um professor: “Tu não és de matemática.” Um pai: “Tu estragas sempre isto.” Essas frases podem ecoar durante anos e reaparecer sempre que escorregas. Quando começas a reparar nesse eco, podes perguntar: “Isto é mesmo a minha voz? Ou estou a repetir a frustração de outra pessoa de há dez anos?”

Essa pergunta, por si só, pode ser suficiente para quebrar o feitiço. Quando vês o guião, podes começar a reescrevê-lo numa linguagem que pertence ao teu eu adulto, não ao teu passado mais pequeno e assustado.

“As palavras que usas para descrever os teus erros passados tornam-se as instruções que o teu cérebro segue para o teu futuro.”

  • Troca “eu sou” por “eu fiz”
    “Sou descuidado” transforma-se em “Não confirmei isso duas vezes.” Uma é uma sentença para a vida; a outra é uma ação clara que podes mudar.
  • Usa “desta vez” mais vezes
    “Falhei desta vez” deixa a porta aberta. Diz ao teu cérebro que a história ainda não acabou.
  • Faz uma pergunta pequena
    Em vez de “Porque é que eu sou assim?”, tenta “O que é que eu faria de forma diferente na mesma situação amanhã?” Essa pequena mudança leva-te do julgamento ao desenho.

Deixar que os erros sejam capítulos, não títulos

Num comboio cheio, tarde da noite, toda a gente a fazer scroll, toda a gente a rever algum pequeno desastre do dia, é fácil esquecer que a linguagem é uma escolha. Repetimos as mesmas frases silenciosas tantas vezes que começam a parecer factos.
No entanto, com algumas palavras ajustadas, a mesma memória pode ficar um pouco mais leve, menos pegajosa, menos definidora.

Não precisas de passar para um positivismo falso.
Não precisas de dizer a ti próprio que foi “perfeito” quando claramente não foi. A força real está no meio: “Correu mal. Estou chateado com isto. Eis o que isto me mostra para a próxima.” Um erro, depois um sentimento, depois uma direção. Simples, humano, honesto.

Todos já tivemos aquele momento em que um pequeno erro se transforma numa história inteira sobre quem somos “lá no fundo”. Da próxima vez que isso começar, repara na frase exata que o teu cérebro quer usar contra ti. Apanha-a em flagrante. Transforma “Eu estrago sempre tudo” em “Isto é mesmo importante para mim, e tenho medo de o ter danificado.” A mesma dor, mas agora há ternura. Agora há espaço para mexer.

As palavras que escolhes naqueles segundos silenciosos depois de um erro não apagam o que aconteceu. Decidem o que acontece a seguir.
Não controlam o passado. Editam, em silêncio, o teu futuro.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Identificar a linguagem identitária Identificar frases como “sou um zero”, “sou um falhanço” e vê-las como guiões, não como verdades. Ajuda a perceber porque é que alguns falhanços ficam colados durante anos.
Passar para a linguagem da situação Substituir “eu sou” por “eu fiz”, acrescentar “desta vez”, descrever o contexto em vez da identidade. Ajuda a recuperar mais depressa e a transformar o erro em informação útil.
Adotar linguagem construtora Formular um erro em termos de ação futura: o que farei de forma diferente da próxima vez. Transforma a culpa estéril em energia para agir e progredir.

FAQ:

  • Mudar as palavras muda mesmo a forma como me sinto em relação aos erros?
    Sim, com o tempo. O teu cérebro usa a linguagem para organizar memórias e emoções. Quando mudas de “Sou um falhanço” para “Falhei desta vez”, reduzes suavemente o peso emocional e abres mais espaço para agir.
  • Ser bondoso comigo não é só facilitar e deixar-me escapar?
    Não, se fores honesto. Linguagem suave não é o mesmo que linguagem vaga. Podes ser claro sobre o que correu mal e, ainda assim, falar contigo como alguém que queres melhorar - não destruir.
  • E se o meu crítico interior for automático e muito alto?
    Começa por notar as frases exatas que ele usa. Escreve-as. Depois reescreve cada uma com palavras mais precisas e situacionais. Não vais silenciar o crítico de um dia para o outro, mas podes baixar o volume gradualmente.
  • Como é que falo sobre grandes falhanços dolorosos sem os minimizar?
    Descreve totalmente o impacto e depois acrescenta movimento: o que estás a aprender, o que vais tentar de forma diferente, a quem poderás pedir ajuda. Não estás a encolher a dor; estás a recusar ficar congelado dentro dela.
  • Isto pode ajudar com erros antigos em que ainda penso?
    Sim. Pega numa memória antiga e volta a contá-la a ti próprio usando linguagem construtora. Nomeia o que não sabias na altura, o que sabes agora e o que aquela versão de ti estava a tentar fazer. Não podes reescrever o evento, mas podes reescrever a história que carregas.

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