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Cientistas comportamentais dizem que pessoas que andam mais rápido que a média têm traços de personalidade semelhantes, segundo vários estudos.

Homem a andar com café na mão e mochila nas costas, numa rua arborizada, com outras pessoas ao fundo.

O homem de casaco azul-marinho surgiu atrás de mim do nada. Cabeça ligeiramente inclinada para baixo, a mala bem encostada ao lado, como se tivesse um túnel invisível à sua volta. Enquanto o resto de nós avançava arrastando os pés no passeio, ele deslizava por entre os espaços, ultrapassava um casal, desviava-se de um carrinho de bebé, atravessava com o semáforo ainda âmbar e desaparecia na esquina seguinte. Sem correr. Apenas um passo decidido, quase impaciente.

Dei por mim a perguntar: de onde vêm pessoas assim, mentalmente falando? Porque aquela velocidade não parecia apenas coisa de quem vai atrasado. Parecia uma personalidade a andar em público.

Os cientistas do comportamento fazem a mesma pergunta há anos. E a resposta deles começa a soar muito clara.

O que os caminhantes rápidos revelam discretamente sobre a sua personalidade

Observe-se qualquer rua movimentada tempo suficiente e surge um padrão. Algumas pessoas movem-se como se o pavimento fosse um tapete rolante que controlam. Braços juntos ao corpo. Olhos a varrer à frente. Pés a traçar uma linha directa através do caos.

Os investigadores chamam-lhe “velocidade habitual de marcha” e tratam-na como uma impressão digital psicológica. Quem anda depressa não chega apenas mais rápido. Deixa pequenas pistas sobre como pensa, como decide e como lida com a pressão do mundo à sua volta.

O estranho é a consistência dessas pistas entre países, idades e culturas.

Um exemplo clássico vem da Universidade de Hertfordshire, onde psicólogos mediram a velocidade de marcha em centros urbanos e depois a compararam com questionários de personalidade. As pessoas que naturalmente andavam mais depressa obtinham pontuações mais altas em extroversão e conscienciosidade.

Tinham maior probabilidade de se descreverem como organizadas, focadas e mais à vontade em situações sociais. Em grandes bases de dados norte-americanas, quem tinha uma marcha rápida também tendia a relatar maior satisfação com a vida e um sentimento mais forte de controlo sobre o seu dia.

Estudos ao nível das cidades confirmaram isto: quanto mais rápido o “ritmo médio” de uma cidade, mais essa cidade tendia para uma cultura de urgência, ambição e comportamento orientado para objectivos.

Os cientistas do comportamento explicam-no quase como uma reacção em cadeia. Se o seu cérebro tende a priorizar objectivos, alinha inconscientemente o corpo com esse ritmo. Corta micro-atrasos: menos olhares para montras, decisões mais rápidas nas passadeiras, menos pausas para ver o telemóvel.

Ao longo dos anos, essa atitude solidifica-se num traço. A pessoa que “simplesmente anda depressa” acaba muitas vezes por ser a pessoa que detesta perder tempo, responde rapidamente a mensagens e fica inquieta em reuniões longas. O corpo transmite discretamente aquilo que a personalidade já decidiu.

Por isso, a velocidade a andar não é apenas uma particularidade da forma física. É uma espécie de indicador em movimento do quão tenso está o seu relógio interno.

O que andar depressa diz sobre stress, ambição e limites

Em vários estudos, os caminhantes rápidos partilham consistentemente um grande traço: um sentido interno de urgência mais elevado. Nem sempre stress. Mais como uma banda sonora permanente de “vamos lá” a tocar em segundo plano.

Têm maior probabilidade de subestimar quanto tempo as tarefas demoram, planear o dia de forma apertada e sentir irritação com serviço lento ou filas longas. Essa urgência por vezes traduz-se em ambição e produtividade, mas também pode descambar em tensão crónica.

Num passeio cheio, essas micro-ultrapassagens e mudanças bruscas de direcção são a expressão em tempo real desse ritmo interior.

Num estudo da Universidade de Leicester, os investigadores descobriram que as pessoas em cidades com velocidades médias de marcha mais altas também apresentavam taxas mais elevadas de doença cardíaca e queixas relacionadas com stress. Ambientes rápidos parecem gerar tanto sucesso como desgaste.

Ao nível individual, quem se identifica como alguém que “está sempre a andar depressa” refere frequentemente dificuldade em desligar depois do trabalho. Verificam e-mails no caminho para casa, ouvem podcasts de produtividade e encaixam recados entre paragens de metro.

Todos já tivemos aquele momento em que, tecnicamente, estamos “de folga”, mas o corpo continua a comportar-se como se o relógio nos estivesse a perseguir. Os caminhantes rápidos vivem mais perto desse limite na maioria dos dias.

Há também um lado mais positivo. Esses mesmos caminhantes rápidos tendem a apresentar pontuações mais altas em orientação para objectivos e planeamento. São os que definem o percurso antes de sair, escolhem o caminho mais rápido no supermercado e raramente andam ao acaso sem alguma ideia de para onde vão.

Do ponto de vista comportamental, exibem aquilo a que os psicólogos chamam “perspectiva temporal futura” - um foco quase automático no que vem a seguir. Esse viés para o futuro aparece na passada. Andam como se a próxima coisa já importasse.

A tensão é real: essa mentalidade ajuda-os a atingir metas e cumprir prazos, enquanto vai corroendo discretamente a capacidade de ficar, reparar e descansar.

Como usar a sua velocidade a andar sem deixar que ela mande na sua vida

Andar depressa pode ser uma vantagem se aprender a regular conscientemente para cima e para baixo. Um método simples que os cientistas do comportamento usam em experiências é a “alternância de ritmo”. Escolhe-se um segmento do percurso diário - por exemplo, da saída da estação ao segundo semáforo - e decide-se uma velocidade de propósito.

Nuns dias, deixa-se ir ao ritmo naturalmente rápido e limita-se a observar como a mente se comporta: pensamentos, irritações, atalhos. Noutros, força-se uma marcha mais lenta, quase exagerada, como se não houvesse pressa nenhuma.

Este pequeno ritual treina o cérebro a ver a velocidade a andar como uma escolha, não como um destino de personalidade.

Muitos caminhantes rápidos sentem culpa quando tentam abrandar. Preocupam-se em parecer preguiçosos, ficar para trás ou perder algo urgente. E assim continuam a apressar-se mesmo quando não há motivo real.

Uma verdade honesta: sejamos honestos - ninguém faz isto perfeitamente todos os dias. Ninguém equilibra urgência e calma de forma impecável. A maioria de nós faz pingue-pongue entre correr e colapsar.

Em vez de tentar “corrigir” o seu ritmo, ajuda identificar os sinais de perigo: maxilar contraído, tensão nos ombros, procurar cada abertura na multidão como num videojogo. É aí que um segmento deliberado de 30 segundos mais lento pode funcionar como um botão de reinício.

“A velocidade a que anda é como uma versão pública do seu ritmo interior. Quando nunca muda de passo, o seu sistema nervoso esquece-se de que tem outras opções.” - disse-me um investigador de comportamento numa entrevista em Londres.

Pode até transformar isto num pequeno painel pessoal:

  • Repare no seu ritmo natural em três momentos: deslocação, pausa de almoço, fim do dia.
  • Escolha um momento para andar 20% mais devagar do que o habitual, durante apenas dois minutos.
  • Use esse segmento mais lento para verificar uma coisa: respiração, ombros ou maxilar.
  • Num dia por semana, permita-se andar tão depressa quanto quiser e aproveite.
  • Compare: em que dias chega com mais disponibilidade mental?

Porque este pequeno detalhe pode mudar a forma como vê as pessoas na rua

Quando começa a prestar atenção à velocidade da marcha, a vida na cidade parece diferente. A mulher a cortar a multidão com auriculares e uma trajectória rectilínea já não parece apenas “mal-educada” ou “com pressa”. Torna-se um resumo ambulante de uma certa mistura de traços: determinada, sensível ao tempo, possivelmente sobrecarregada.

O homem mais velho a passear devagar, mãos atrás das costas, a olhar para o céu pode não ser improdutivo. Pode simplesmente ter passado, consciente ou inconscientemente, para uma relação diferente com o tempo.

Nenhum está certo ou errado. O ritmo deles é uma negociação visível com a própria mente.

Os estudos comportamentais não lhe dirão tudo sobre alguém só pela velocidade do passo, e qualquer tentativa de julgar o carácter a partir de um relance no passeio será sempre falível. Ainda assim, estes padrões convidam a uma curiosidade suave.

Quando der por si a acelerar atrás de alguém mais lento, pode observar a pequena faísca de irritação e perguntar: o problema é a outra pessoa, ou a história que o meu relógio interno me está a contar?

Por vezes, o acto mais corajoso para quem anda depressa desde sempre é ficar atrás de alguém mais lento durante meia rua, de propósito, e ver o que aparece cá dentro.

E há ainda outra camada: a saúde. Uma marcha habitual mais rápida está associada a melhor aptidão cardiovascular e, em alguns estudos de grande escala, a maior esperança de vida. No entanto, os mesmos dados alertam para ambientes em que a rapidez é movida por pressão crónica, e não por vitalidade.

Assim, a pergunta muda de “Os caminhantes rápidos estão melhor?” para “Porque é que estou a mover-me a esta velocidade agora?” Por alegria, propósito, ansiedade, hábito?

Partilhar essa reflexão tende a gerar conversas surpreendentemente honestas. Raramente se fala da velocidade a que se anda. Fala-se de estar ocupado, estar cansado, estar atrasado. Por baixo disso, o ritmo é muitas vezes a prova diária, incorporada no corpo, dessas histórias a desenrolarem-se minuto a minuto.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A velocidade a andar espelha a personalidade Caminhantes rápidos tendem a pontuar mais alto em extroversão, conscienciosidade e orientação para objectivos Ajuda a ler os seus próprios hábitos e a compreender melhor os outros no dia a dia
A urgência tem dois lados Ritmo mais alto liga-se a ambição e produtividade, mas também a stress e tensão Convida a proteger a saúde sem abdicar da motivação
O ritmo pode ser treinado Rituais simples de “alternância de ritmo” dão mais controlo sobre o seu tempo interior Oferece uma ferramenta prática e de baixo esforço para reiniciar a mente ao longo do dia

FAQ

  • Andar depressa significa que sou definitivamente mais ambicioso? Não necessariamente, mas, em vários estudos, pessoas que naturalmente andam mais depressa tendem a relatar maior orientação para objectivos e maior consciência do tempo do que caminhantes muito lentos.
  • Posso mudar a minha personalidade mudando a velocidade a que ando? Mudar o ritmo não reescreve magicamente os seus traços, mas pode alterar o seu nível de stress diário e dar-lhe mais flexibilidade na forma como responde à pressão.
  • Andar devagar é sempre um mau sinal? Não. Algumas pessoas escolhem andar devagar como forma de presença ou por contexto; a investigação médica preocupa-se apenas quando a velocidade diminui abruptamente ou vem acompanhada de outros sintomas de saúde.
  • Porque é que fico zangado com quem anda devagar? Muitas vezes tem menos a ver com os outros e mais com uma narrativa interna de urgência, medo de chegar atrasado ou o hábito de sobrecarregar o seu tempo com compromissos.
  • Qual é uma velocidade de marcha saudável para a maioria dos adultos? Muitos estudos consideram cerca de 1,2 a 1,4 metros por segundo como um ritmo rápido típico, mas a “velocidade certa” é aquela em que se sente energizado, e não constantemente perseguido pelo relógio.

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