A manhã começa com um pânico silencioso e familiar.
Videochamada congelada. Rodinha a girar na Netflix. Um adolescente a gritar do quarto que “o Wi‑Fi está uma porcaria outra vez”. Reinicias a box, praguejas entre dentes, fazes o mesmo teste de velocidade que fizeste na semana passada. A parte estranha? Tu pagas por fibra rápida. A app diz que tens 500 Mbps. O teu portátil, aqui mesmo no sofá, arrasta-se nos 40.
Olhas para o router. Está bem arrumado no peitoril da janela, mesmo ao lado da planta, a apanhar a luz de inverno. Ali “fica mais bonito” do que a meio da sala. Foi o teu parceiro que sugeriu há meses. Não discutiste.
Agora, enquanto outra chamada no Zoom colapsa em caos pixelizado, surge um pensamento diferente. E se o problema não for a ligação que compraste… mas o sítio onde puseste a caixa que a distribui?
Porque é que a tua janela está, discretamente, a matar o teu Wi‑Fi
Entra em quase qualquer apartamento numa grande cidade e vais ver o mesmo: o router Wi‑Fi pousado com orgulho no peitoril da janela. Parece lógico. Perto do mundo exterior. Fora do caminho. Cabos a descer discretamente até à tomada. Fica arrumado nas fotos e não “chateia” a mobília.
Mas, do ponto de vista das ondas de rádio, esse local é um beco sem saída. Metade do teu sinal precioso vai diretamente através do vidro e sai para a rua. Carros, pombos e vizinhos de passagem estão a receber mais da tua nuvem de Wi‑Fi do que o teu quarto. Dentro das tuas paredes, é como se estivesses a tentar aquecer a casa… com o radiador encostado a uma porta aberta.
Um engenheiro de banda larga no Reino Unido com quem falei diz que muitas vezes consegue adivinhar o layout de uma casa só ao ver o teste de velocidade. “Router na janela?”, pergunta ele ao telefone, antes mesmo de o cliente descrever a sala. Numa casa geminada em Londres, mediu 350 Mbps perto do router e mal 40 Mbps num quarto das traseiras. Mesma rede, mesmo plano, sem falhas na linha.
Quando lá foi, a cena era quase cómica. Router no peitoril virado para a rua, espremido entre duas suculentas. Pisos de tijolo maciço e uma lareira antiga entre aquela caixa e as consolas das crianças. Ao mudar o router três metros para longe da janela e mais perto do corredor, a velocidade nas traseiras da casa mais do que duplicou. Sem hardware novo. Sem upgrade. Apenas um canto menos “instagramável”.
Eis o que está realmente a acontecer. O router emite ondas de rádio em todas as direções, como ondulações de uma pedra atirada à água. Se colocas essa “pedra” mesmo ao lado de uma parede de vidro, metade das ondulações vai para fora do lago. As janelas, sobretudo com caixilharia metálica ou revestimentos refletivos, comportam-se como espelhos com fugas: deixam passar sinal, refletem parte de volta e criam padrões estranhos de zonas fortes e fracas lá dentro.
Depois, paredes, tetos e até móveis vão “cortando” essas ondas. Cada camada de tijolo, pladur ou betão come uma parte da tua velocidade. Por isso, quando o router começa na periferia da casa, já está a desperdiçar energia no mundo para lá das tuas paredes. É assim que uma escolha simples num domingo à tarde pode cortar a tua velocidade efetiva para metade na segunda-feira de manhã.
Onde colocar o router para que o Wi‑Fi pareça mesmo rápido
A solução é quase frustrantemente simples: traz o Wi‑Fi de volta para a divisão onde a vida acontece. Aponta para um local central na casa, mesmo que isso implique esticar um pouco o cabo ou sacrificar um canto “bonito”. A meia altura é o ideal - numa prateleira ou móvel, não enterrado no chão nem esmagado junto ao teto.
Imagina o router como um pequeno farol de rádio. Queres que a “luz” chegue ao quarto, à cozinha e ao teu posto de trabalho da forma mais uniforme possível. Isso raramente acontece quando está agarrado a uma janela ou preso atrás da televisão. Um pequeno deslocamento para o meio do apartamento muda muitas vezes tudo de imediato: menos zonas mortas, menos chamadas congeladas, menos pragas às 8h59 antes de uma reunião importante.
Todos já fizemos a “caça ao tesouro do Wi‑Fi”: andar pela casa com o telemóvel, a olhar para as barras de sinal como se fossem uma previsão do tempo. Uma família em Lyon contou-me que discutiu literalmente durante meses sobre quem estava a “roubar a ligação” à noite. Culparam jogos, Netflix, até os vizinhos, até repararem que o router estava atrás de um móvel de TV com estrutura metálica, encostado a uma porta de varanda.
Fizeram uma experiência simples: tiraram a caixa de junto da janela, colocaram-na numa prateleira de madeira mais central e rodaram as antenas para cima. Mesmo plano de fibra, mesma palavra-passe, mesmo apartamento. Em minutos, o teste de velocidade no quarto mais distante saltou de cerca de 25 Mbps para mais de 90. Não foi magia. Foi física, finalmente, do lado deles e não contra eles.
Aqui está a lógica por trás da regra “sem janelas”. O vidro parece inofensivo, mas em termos de Wi‑Fi é traiçoeiro. Alguns tipos de vidro duplo têm películas metálicas que refletem ondas de rádio. Grades metálicas ou estores no exterior podem funcionar como antenas e espalhar o sinal. Até o ar livre é um espaço enorme e ruidoso, cheio de outras redes, dispositivos Bluetooth, comandos de carros e infraestrutura urbana.
Quando o router está mesmo na fronteira entre a tua casa e esse caos, tem de lutar mais. Uma grande parte da potência de emissão foge para o exterior, onde não te serve para nada. Move o router para dentro e, de repente, mais dessa potência fica dentro das tuas paredes. O resultado é cobertura mais forte e estável onde realmente vives, trabalhas e fazes scroll.
Ajustes práticos que transformam um Wi‑Fi “meh” na rede que pagas
Começa por uma reorganização calma. Tira o router do peitoril da janela e anda com ele pela divisão. Procura um local mais ou menos central que não esteja escondido num armário nem enfiado atrás de eletrónica. Uma prateleira simples de madeira, uma estante aberta ou um aparador funciona surpreendentemente bem.
Mantém-no afastado de grandes objetos metálicos e obstáculos densos: frigoríficos, radiadores, aquários, até espelhos grossos. Se a tua casa é comprida e estreita, considera orientar o router de modo a que as antenas “apontem” ao longo do corredor, em vez de para a rua. Às vezes, afastá-lo apenas dois metros do vidro apaga a zona morta mais lenta da casa.
Depois trata dos pequenos hábitos que sabotam a tua velocidade sem dares por isso. Routers enterrados debaixo de pilhas de papéis “para esconder a confusão”. Caixas no chão, ao lado de um emaranhado de extensões e carregadores. Dispositivos encostados a monitores de bebé, telefones sem fios ou micro-ondas. Tudo isso acrescenta pequenas camadas de interferência que transformam uma ligação forte numa ligação aos soluços.
Num dia mau, é aí que começas a culpar o operador, o portátil, o TikTok dos miúdos. Há frustração real - e não é só tecnologia. É a sensação de estares “desligado” quando precisas de estar ligado. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias - testes, ajustes, cabos bem arrumados. Mas um domingo à tarde de reorganização dá muitas vezes uma semana mais suave do que qualquer chamada irritada para o apoio ao cliente.
“Na maioria das vezes, eu não mudo o plano de internet do cliente”, disse-me um técnico francês. “Eu mudo o sítio onde a box mora. A velocidade que eles pagavam estava lá o tempo todo, só estava presa no canto errado.”
Mantém algumas regras simples em mente:
- Router num local central e aberto - não na janela, não num armário fechado.
- Antenas na vertical, se forem ajustáveis, e sem tocar em superfícies metálicas.
- Deixa algum “ar” à volta: nada de livros em cima, nada de nós apertados de cabos.
Estes ajustes parecem pequenos, quase cosméticos. No entanto, muitas vezes desbloqueiam todo o potencial da caixa que já tens. Internet rápida não é só o número na fatura - é o mapa invisível que desenhas pela tua casa. Quando esse mapa começa na janela, metade dos caminhos não vai a lado nenhum.
Viver com um Wi‑Fi que funciona discretamente em vez de te falhar constantemente
Depois de afastares o router da janela, algo subtil muda. O drama tecnológico do dia recua para o fundo. As videochamadas deixam de parecer uma aposta. O streaming já não precisa do ritual de “pessoal, parem de usar o Wi‑Fi um segundo”. A rede simplesmente integra-se na casa, como a eletricidade ou a pressão da água.
Ainda pode haver um ou outro soluço. Uma tempestade lá fora, um vizinho a atualizar o equipamento, um novo gadget a criar ruído no ar. Mas, com o router num local sensato e central, o teu sistema tem mais margem. Mais sinal onde tu vives, menos desperdiçado através do vidro. A pergunta zangada - “Porque é que o meu Wi‑Fi é tão mau?” - transforma-se lentamente em: “Como é que eu aguentei isto tanto tempo?”
Há também uma pequena mudança de mentalidade. Tendemos a tratar o Wi‑Fi como algo misterioso, quase mágico. Na realidade, comporta-se muito como o som ou a luz. Põe a coluna no sítio certo e a sala soa melhor. Orienta bem o candeeiro e o espaço fica mais luminoso. Coloca o router com inteligência e a mesma internet parece, de repente, duas vezes mais rápida. Não é sobre perfeição. É sobre dar uma hipótese à tecnologia.
Da próxima vez que um amigo se queixar da ligação, talvez resistas ao impulso de falar de sistemas mesh caros e routers de última geração. Vais fazer uma pergunta mais simples: “Onde é que puseste a box?” E talvez acabem os dois, num domingo à tarde, a refazer discretamente um canto da sala - a trocar um peitoril arrumadinho por menos caras congeladas no ecrã.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Evitar o peitoril da janela | Metade do sinal vai para o exterior; vidros e caixilharia metálica criam perdas. | Perceber porque um simples deslocamento pode duplicar a velocidade útil. |
| Posição central e em altura | Colocar o router no coração da casa, a meia altura, longe de grandes obstáculos. | Ganhar cobertura em todas as divisões sem mudar de tarifário. |
| Limitar interferências | Afastar o router de aparelhos elétricos, móveis metálicos e armários fechados. | Tornar o Wi‑Fi mais estável para teletrabalho, jogos e streaming. |
FAQ
- Colocar o router perto de uma janela reduz mesmo a minha velocidade? Sim, muitas vezes reduz. Uma parte grande do sinal Wi‑Fi escapa através do vidro e vai para a rua em vez de ficar dentro de casa.
- É mau esconder o router dentro de um armário? Armários fechados, sobretudo espessos ou metálicos, enfraquecem o sinal. É melhor uma prateleira aberta na divisão do que uma caixa “escondida” atrás de portas.
- E se a tomada/saída de internet estiver mesmo ao lado da janela? Usa um cabo Ethernet um pouco mais comprido e afasta o router do vidro, em direção ao meio da divisão ou a um corredor próximo.
- A posição das antenas faz mesmo diferença? Sim. Apontá-las na vertical costuma dar melhor cobertura ao longo de um piso do que ângulos aleatórios ou todas na horizontal.
- Mover o router resolve todos os problemas de Wi‑Fi? Não, mas muitas vezes elimina o maior estrangulamento. Se os problemas continuarem, então é altura de olhar para o teu plano, o teu hardware ou pontos de acesso adicionais.
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