A primeira coisa que se nota é a pausa.
Um aluno canhoto, a meio de uma frase, pára de escrever e estica-se de forma desajeitada por cima da página para agarrar a caneta que, de alguma maneira, acaba sempre do lado errado do caderno. O fluxo quebra-se, o pensamento arrefece, a tinta borra-se na lateral da mão. Um pequeno “glitch” diário que quase não se vê - a menos que o tenha vivido mil vezes entre reuniões, aulas e listas de compras rabiscadas.
Do lado direito do caderno, quase a provocar, está a caneta.
Agora imagine que essa caneta nunca sai dessa margem direita. Sempre ali. Sempre à espera.
Estranhamente, esse hábito pequeno e teimoso começa a mudar a forma como um cérebro canhoto se move pela página.
Um truque silencioso, escondido à vista de todos.
Porque é que uma caneta “estacionada” à direita reconfigura discretamente a escrita de um canhoto
Observe uma pessoa canhota numa mesa de reunião e quase consegue ver a coreografia.
Caderno ligeiramente inclinado, cotovelo a empurrar a chávena de café para longe, caneta a migrar pela página como se tivesse vontade própria. Sempre que a caneta é pousada, fica onde a última palavra terminou. Da próxima vez que é precisa, há uma microprocura, um esticar do braço, um pequeno ajuste do pulso e do ombro.
Um esticar não significa nada.
Cinquenta esticões numa aula de uma hora drenam foco em silêncio, e o corpo paga em pequenas tensões que se acumulam até ao fim do dia.
Veja o caso da Léa, uma estudante de arquitectura canhota que conheci no campus. Tinha o hábito de espalhar canetas por todo o lado: uma acima do caderno, outra debaixo do portátil, outra misteriosamente enterrada debaixo do cotovelo. Brincava dizendo que passava mais tempo a encontrar canetas do que a desenhar plantas.
Durante uma sessão de atelier particularmente intensa, obrigou-se a colocar a caneta principal apenas do lado direito do caderno, alinhada com a margem da página. Na segunda hora, reparou em algo estranho: os esboços estavam mais fluidos e as notas tinham menos linhas a meio. O movimento do pensamento para o papel parecia menos “aos solavancos”.
Não mudou o caderno, a cadeira ou a luz. Mudou apenas o lado onde a caneta descansava.
O que acontece nessa pequena alteração é quase invisível, mas muito real.
A mão esquerda deixa de procurar em todas as direcções; alcança num arco previsível, sempre para a direita. O cérebro deixa de gastar pequenos picos de atenção em “Onde é que pus a caneta?” e liberta capacidade para palavras, formas, ideias.
Há ainda outro bónus.
Colocar a caneta à direita empurra ligeiramente o caderno para a esquerda, abrindo espaço para o cotovelo esquerdo e reduzindo aquela postura encolhida e “apertada” que tantos canhotos adoptam. Menos torção no pulso, menos borrões na página, mais movimento contínuo de cima para baixo na linha.
Pequeno ritual, grande reacção em cadeia.
Transformar a colocação da caneta num ritual de escrita para canhotos
O método mais simples começa antes de a primeira palavra chegar ao papel.
Abra o caderno, deslize-o um pouco para a esquerda, alinhe a margem direita com o esterno ou com o ombro direito. Depois coloque a caneta na mesa, encostada a essa margem direita, ligeiramente inclinada na direcção da sua mão esquerda. Parece quase cerimonial, como pôr os talheres antes de uma refeição.
Escreva a sua frase.
Quando fizer uma pausa, não largue a caneta em qualquer lado. Volte a colocá-la, com calma, nessa mesma faixa à direita da mesa, paralela ao caderno. Repita isto, página após página, até o seu corpo começar a antecipá-lo. É aí que o fluxo aparece.
A tentação - sobretudo num dia cheio - é atirar a caneta para onde quer que a última nota tenha acabado.
Atende uma chamada, faz scroll no telemóvel, bebe um café, e a caneta fica atravessada em cima do caderno ou desaparece debaixo do pulso. Para um escritor canhoto, esse caos casual multiplica-se. Cada recomeço implica mexer no caderno, passar a mão por baixo de tinta fresca, lutar com a espiral, voltar a encontrar a caneta.
É aqui que um pouco de disciplina suave ajuda.
Pense nessa colocação à direita não como uma regra, mas como um botão de “reset”. Quando a caneta volta ao mesmo sítio, o corpo sabe o próximo movimento sem pensar. Menos mexericos, menos borrões, menos frases interrompidas. E, honestamente, é um pequeno acto de controlo num mundo ainda desenhado, na sua maioria, para destros.
“No dia em que comecei a estacionar a caneta à direita, as minhas notas finalmente começaram a acompanhar os meus pensamentos”, disse-me um gestor de projectos canhoto. “Não mudei a minha caligrafia. Mudei a minha coreografia.”
- Escolha uma “faixa da caneta” fixa no lado direito do caderno
- Coloque a caneta aí antes de cada reunião, aula ou sessão de escrita
- Volte a colocar a caneta nessa faixa em cada pausa, mesmo nas curtas
- Mantenha essa área livre de canecas, telemóveis ou cabos
- Repare quantas vezes a sua mão vai lá automaticamente ao fim de uma semana
O poder silencioso de desenhar o espaço para a sua mão dominante
Quando começa a observar os seus próprios movimentos, o padrão torna-se difícil de ignorar.
A caneta à direita não está apenas ali; ela ancora todo o seu espaço de escrita. O caderno desliza um pouco, o cotovelo encontra espaço, o ombro baixa, a respiração acalma. A linha de escrita endireita-se à medida que a mão desliza por baixo em vez de se enrolar de forma desajeitada por cima.
Começa a sentir-se menos “errado” perante a página.
Mais como se o espaço finalmente cooperasse com o seu corpo canhoto, em vez de o obrigar a negociar cada linha que escreve.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Colocação consistente da caneta | Manter sempre a caneta a repousar na margem direita do caderno | Reduz microdistrações e acelera a tomada de notas |
| Melhor alinhamento do corpo | O caderno desloca-se para a esquerda, libertando o cotovelo e o pulso esquerdos | Menos esforço, menos borrões, escrita mais confortável |
| Movimento previsível | A mão esquerda alcança sempre pelo mesmo trajecto | Fluxo de escrita mais suave e melhor foco nas ideias, não nas ferramentas |
FAQ:
- A colocação da caneta afecta mesmo a velocidade de escrita dos canhotos? Sim. Pequenos movimentos repetidos acumulam-se. Um alcance previsível para a direita reduz a procura, os ajustes constantes e a necessidade de reposicionar o caderno, tornando as notas mais rápidas e fluidas.
- E se o meu espaço na secretária for apertado e eu não conseguir libertar o lado direito? Use uma “faixa estreita”: até 3–4 cm de espaço ao longo da margem direita do caderno chegam. Deslize o telemóvel ou a caneca um pouco para cima, para que a linha horizontal ao lado do caderno fique livre.
- Isto funciona com cadernos de espiral e dossiers? Pode ajudar ainda mais aí. Manter a caneta à direita incentiva a afastar a espiral do pulso, para que os anéis metálicos deixem de cravar na base da mão.
- Preciso de canetas ou cadernos especiais para canhotos para isto fazer diferença? Não. O design das ferramentas pode ajudar, mas o hábito de colocação consistente funciona com qualquer caneta e caderno normal. O ganho vem da previsibilidade, não de um produto específico.
- Quanto tempo até o hábito parecer natural? A maioria das pessoas nota um movimento mais suave em poucos dias. Para muitos, duas a três semanas a voltar conscientemente a caneta para a direita bastam para o corpo o fazer em piloto automático. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar, mas mesmo uma consistência parcial muda a sensação na página.
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