Ouves o teu nome, levantas os olhos… e percebes que toda a gente está a olhar para ti.
O teu colega ainda não acabou a frase e a tua voz já está no ar. Outra vez.
Há uma batida minúscula de silêncio na sala. Uma gargalhada educada. Alguém inclina-se para trás na cadeira. A conversa continua, mas uma parte de ti está agora a rever os últimos cinco segundos em câmara lenta, a tentar perceber porque é que entraste tão depressa.
No caminho para casa, a culpa começa a aparecer.
«Faço sempre isto?»
«Estou a ser mal-educado?»
Interromper nem sempre é falar por cima de alguém aos gritos. Às vezes é só aquele meio segundo demasiado cedo, o ansioso «sim, sim, eu sei» que corta uma ideia a meio.
E acontece muito mais do que a maioria de nós se apercebe.
Porque é que interrompemos mais do que pensamos
Observa um grupo de amigos a conversar num café e vais ver: pessoas a falarem por cima umas das outras, a terminarem frases, a entrarem com um «meu Deus, igual».
Não parece hostil. Parece vivo.
Essa é uma das coisas estranhas sobre interromper. Às vezes parece entusiasmo, não desrespeito. Queremos ligar-nos, mostrar que estamos a ouvir, associar a história deles à nossa. Por isso avançamos: palavras primeiro, paciência depois.
O problema é que as outras pessoas nem sempre lêem isso assim.
Só se sentem cortadas.
Há um estudo da Universidade da Califórnia que cronometrava conversas informais. Em média, as pessoas interrompiam a cada dois ou três minutos numa conversa de grupo animada. É muita frase partida numa única pausa de almoço.
Pensa também nas videochamadas. Pequenos atrasos. Sobreposições incómodas. Duas pessoas começam a falar, depois as duas param, depois as duas começam outra vez.
Estamos todos a pisar os «dedos» verbais uns dos outros e, metade do tempo, nem damos por isso.
Uma mulher que entrevistei descreveu-o na perfeição: «Quando me apercebo de que interrompi, o momento de corrigir já passou. Parece que o estrago está feito e eu fico ali, a sentir-me a pessoa barulhenta.»
Parte disto vem da forma como o nosso cérebro funciona. Enquanto ouvimos, já estamos a prever o fim da frase da outra pessoa. Estamos a construir a nossa resposta, a nossa história, o nosso ângulo.
Essa corrida mental significa que a nossa resposta está pronta antes de a outra pessoa acabar.
E então saltamos.
A cultura também conta. Há famílias que falam em camadas, por cima uns dos outros, como sinal de calor. Outras tratam interromper como um pequeno crime. Junta esses dois estilos na mesma sala e alguém vai sentir-se atropelado.
Achamos que estamos apenas envolvidos, mas eles ouvem que as palavras deles não chegam a assentar.
Formas práticas de deixar de cortar as pessoas
Um dos truques mais eficazes é estupidamente simples: criar uma pausa minúscula.
Quando alguém parar de falar, conta em silêncio «mil e um» antes de responder. À primeira vez parece longo. Quase desconfortável. Mas na vida real, essa micro-pausa é mal um suspiro.
Esse momento dá espaço para a outra pessoa terminar o pensamento.
Ou acrescentar aquilo que ia dizer a seguir.
Vais ficar surpreendido com a frequência com que, afinal, ela ainda não tinha acabado.
Um segundo método: mantém a boca fisicamente fechada quando sentes a vontade de entrar.
Conheces essa sensação - inclinas-te para a frente, os lábios a abrir, prestes a cortar com um «Ah, eu sei isto!»
Fecha os lábios. Literalmente. E depois transforma essa energia num aceno, ou num «hum-hum» que os encoraje a continuar, em vez de os parar.
Sim, às vezes vais perder a resposta «perfeita» que tinhas em mente.
Não faz mal. A conversa não vai desabar sem a tua opinião imediata. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
A parte mais difícil é lidar com a vergonha quando te apanhas a interromper a meio da frase. Ouvimos a nossa própria voz a passar por cima da deles e o estômago cai.
É um bom momento para reparar em tempo real.
«Desculpa, interrompi-te. Força, quero ouvir o resto.»
E depois cala-te mesmo. Olha para a pessoa. Deixa-a retomar o fio. Transforma um momento desajeitado num sinal de respeito.
Aqui ficam alguns hábitos pequenos e concretos que ajudam:
- Faz uma pausa de uma respiração completa antes de responder
- Guarda uma pergunta «no bolso» em vez de uma opinião
- Diz «conta-me mais sobre isso» uma vez por conversa
- Quando interromperes, nomeia-o e devolve a palavra
- Repara em quem fala menos e convida essa pessoa a entrar
São comportamentos pequenos, mas vão reeducando lentamente os teus reflexos.
Repensar o que significa ser um «bom conversador»
Há uma mudança silenciosa que acontece quando deixas de correr para responder. As conversas começam a parecer menos uma competição e mais um projecto partilhado.
Ouves pormenores que antes te escapavam.
Reparas como a história de alguém muda nas últimas três palavras da frase.
Também aprendes muito sobre ti. Onde interrompes diz alguma coisa: saltos rápidos em temas de trabalho, em família, em qualquer coisa que pareça uma ameaça, em histórias que soam demasiado familiares. Cada momento é uma pista sobre onde sentes necessidade de controlar a narrativa.
Algumas pessoas percebem que interrompem mais quando estão ansiosas. Outras, quando estão entusiasmadas ou com medo de serem esquecidas.
Isso não faz de ti um mau ouvinte. Faz de ti humano.
O objectivo não é tornares-te silencioso ou passivo. O objectivo é brincar com o timing. Deixar a frase de alguém assentar antes de a apanhares e atirares a tua de volta.
Quando acertas, as pessoas relaxam à tua volta. Falam um pouco mais fundo. Confiam que, se começarem um pensamento, vão ter permissão para o acabar.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Criar uma pausa | Contar um segundo na cabeça antes de responder | Reduz interrupções por reflexo sem parecer forçado |
| Reparar no momento | Reconhecer abertamente «interrompi-te, por favor continua» | Transforma momentos desconfortáveis em sinais que criam confiança |
| Trocar opinião por perguntas | Ter uma pergunta genuína pronta em vez de uma história | Faz-te sentir mais ligado e menos centrado em ti |
Perguntas frequentes (FAQ)
- Interromper é sempre rude? Nem sempre. Em alguns grupos, a sobreposição de fala é um sinal de entusiasmo. O essencial é se a outra pessoa se sente constantemente cortada ou se continua a sentir-se ouvida.
- E se eu interrompo porque tenho medo de me esquecer da minha ideia? Aponta uma palavra ou expressão no telemóvel ou num bloco de notas. Assim consegues relaxar, ouvir por completo e ainda voltar ao teu ponto mais tarde.
- Como lidar com pessoas que interrompem constantemente à minha volta? Podes dizer com calma: «Deixa-me acabar este pensamento», mantendo contacto visual firme. Depois da conversa, nomeia o padrão uma vez, sem acusação, e explica como isso te afecta.
- O TDAH ou a ansiedade podem piorar as interrupções? Sim, ambos podem acelerar o teu ritmo interno. Estruturas simples como a pausa de um segundo e escrever pensamentos podem ser especialmente úteis quando o teu cérebro corre depressa.
- As pessoas vão notar se eu começar a fazer mais pausas? Talvez não reparem na técnica, mas vão sentir o efeito. A maioria das pessoas vai apenas experienciar-te como mais calmo, mais presente e mais fácil de falar contigo.
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