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Como perceber quando o seu diálogo interno está a minar subtilmente a sua confiança e transformá-lo com técnicas comprovadas.

Pessoa escreve em caderno, com chá ao lado, em mesa de madeira, livros empilhados e espelho com nota adesiva.

A primeira vez que o ouves, mal dás por isso.
Falhas um prazo, tropeças numa reunião, esqueces-te de um nome. Uma coisa pequena. Dentro da tua cabeça, uma voz discreta suspira: “Típico… estragas sempre isto.” Mais ninguém a ouve. Desvalorizas, continuas a fazer scroll, respondes aos e-mails, segues com o teu dia.

Mas essa frase não segue em frente.
Fica escondida em segundo plano, pronta a entrar em cena da próxima vez que te sentires um pouco exposto. Passado algum tempo, reparas que hesitas mais. Dizes não a oportunidades. Sentes-te estranhamente cansado com coisas que antes te entusiasmavam.

A parte estranha? Por fora, pareces bem.
Por dentro, estás a ser lentamente “treinado” por uma voz com a qual nunca falarias assim a um amigo.

É aí que o verdadeiro dano começa.

Identificar as frases silenciosas que drenam a tua confiança

A maioria das pessoas não se apercebe de que o seu diálogo interno é tóxico porque não soa dramático.
Não é “Sou inútil” ou “Nunca vou ter sucesso”. Aparece como um encolher de ombros: “Acho que eu simplesmente não sou esse tipo de pessoa” ou “Pessoas como eu não chegam assim tão longe”.

Estas frases parecem factos, não insultos.
Passam pelo teu “radar” interno porque soam razoáveis. Quase… humildes. Repete-las quando estás cansado, sob pressão, ou a ver o resumo dos melhores momentos de toda a gente.

Com o tempo, essas frases minúsculas e “inofensivas” constroem um teto silencioso sobre a tua vida.
Não bates nele. Só, pouco a pouco, deixas de te endireitar.

Imagina isto.
Estás no trabalho e o teu gestor sugere que lideres a próxima apresentação ao cliente. A tua primeira reação não é entusiasmo. É um lampejo de pânico, seguido de: “Eu não tenho jeito natural para apresentar. Alguém faria isto melhor.”

Recusas educadamente, dizendo que estás “cheio de trabalho”.
No comboio para casa, dizes a ti próprio que estavas a ser realista. Falar em público simplesmente “não é a tua cena”. Sentes alívio e depois uma pontinha de arrependimento.

Agora afasta a câmara.
Multiplica essa decisão por cinco anos de decisões semelhantes. Dizer não a candidatar-te. Não levantar a mão. Deixar outra pessoa avançar. A história na tua cabeça vai moldando, em silêncio, a tua biografia no mundo real.

Os psicólogos chamam a este tipo de comentário interno “pensamentos automáticos”.
Aparecem depressa, parecem verdadeiros e raramente são questionados. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) passou décadas a estudá-los, e as conclusões são diretas: repetir diálogo interno negativo não afeta apenas o humor - molda o comportamento, a propensão para correr riscos, a memória e até a forma como interpretas eventos neutros.

O teu cérebro adora atalhos.
Se continuas a dizer a ti próprio “Eu bloqueio sempre sob pressão”, o teu cérebro começa a procurar qualquer momento que encaixe nesse guião e a ignorar o resto. Lembras-te da resposta estranha e não das três respostas sólidas.

O problema não é duvidares de ti às vezes.
O problema é quando uma narrativa estreita e autocrítica se torna a tua lente padrão para todos os desafios.

Reescrever o guião com reestruturação baseada em evidência

Reformular não é repetir falsos positivos ao espelho.
É apanhar aquela primeira frase dura na tua cabeça, parar e perguntar: “Isto é mesmo verdade? Qual é a evidência?” Este pequeno espaço entre pensamento e reação é onde a tua confiança volta a respirar.

Aqui fica um método simples de três passos, diretamente das ferramentas da TCC.
Passo 1: Repara nas palavras exatas que a tua mente está a usar. Não apenas “Sinto-me mal”, mas “Sou mesmo um idiota por ter estragado isto.”
Passo 2: Escreve-as, tal como estão.
Passo 3: Contesta-as como um amigo cético: quais são três provas a favor? Quais são três contra?

O novo pensamento que escreves não precisa de ser brilhante nem perfeito.
Aponta apenas para algo mais equilibrado - algo que conseguirias defender em tribunal.

A maior armadilha é passar de diálogo interno cruel para afirmações irrealistas.
Vais de “Sou péssimo em apresentações” para “Sou um orador incrível, de nível mundial” e o teu cérebro responde logo: “Sim, claro.” Esse revirar de olhos interno é o teu sistema a rejeitar o “upgrade” como spam.

Uma mudança mais suave e inteligente soa mais a: “Fico nervoso a apresentar, mas já conduzi reuniões antes e consigo melhorar com prática.”
Este tipo de frase respeita a tua ansiedade sem lhe dar o volante. É concreta e realista.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
Vais esquecer-te, depois lembrar-te, depois apanhar um pensamento em dez. Está tudo bem. O que importa é a repetição, não a perfeição. Cada vez que substituis uma frase dura por uma frase justa, estás a reprogramar um caminho que o teu cérebro adora percorrer automaticamente.

“Eu não deixaria ninguém falar com o meu melhor amigo da forma como eu falo comigo quando estou stressado.”

Essa frase, dita por um terapeuta numa sessão de grupo, caiu como um murro na sala. As pessoas acenaram, algumas riram, uma pessoa chorou. Somos estranhamente leais ao nosso crítico interno, mesmo quando é óbvio que ele não merece o cargo.

Uma forma prática de começar a afrouxar esse controlo é criar um pequeno “kit de reformulação” a que possas recorrer quando estás cansado.
Pensa nele como um menu de substituições prontas para os teus ataques internos mais comuns. Escreve-as nas notas do telemóvel, num diário, ou no verso de um talão, se for o que tiveres.

  • De: “Eu estrago sempre isto.” Para: “Já estraguei isto antes, e também já lidei bem com isto. Esta é mais uma oportunidade para praticar.”
  • De: “Toda a gente está à minha frente.” Para: “As pessoas avançam a ritmos diferentes. Eu não estou atrasado; estou no meu caminho.”
  • De: “Eu não sou esse tipo de pessoa.” Para: “Ainda não fiz isto muitas vezes. Posso ser principiante e, ainda assim, pertencer aqui.”

Deixar a tua voz interior crescer contigo

Há um momento estranho em que percebes que a voz na tua cabeça não se atualizou desde que tinhas uns dez anos.
Ainda fala contigo como uma criança assustada a tentar não se meter em sarilhos, e não como um adulto que já sobreviveu a separações, mudanças de trabalho, doenças e conversas difíceis. Às vezes, a coisa mais radical que podes fazer é deixar a tua voz interior amadurecer.

Não tens de te adorar para seguir em frente.
Só precisas de um narrador que não te sabote antes de começares. Isso pode significar apanhares-te a meio de um pensamento e dizeres, em voz alta se for preciso: “Não. Já não falamos connosco assim.” Ao início é estranho; depois, é estranhamente libertador.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que repetes uma conversa pela décima vez e dizes a ti próprio que soaste estúpido.
Da próxima vez, experimenta isto: pára a repetição mental, dá nome ao que o teu crítico está a tentar proteger (rejeição, vergonha, perda) e responde-lhe como responderias a um amigo preocupado. Não com positividade artificial, mas com realidade: o teu historial, o teu esforço, o teu direito de aprender à vista de toda a gente.

O teu diálogo interno não vai transformar-se de um dia para o outro.
Mas, se começares a notar as pequenas farpas subtis e a trocá-las por versões honestas e mais gentis, algo muda. Entras nas salas um pouco menos à espera do impacto. Dizes sim com mais frequência. A tua confiança deixa de ser uma performance e torna-se algo mais silencioso: a sensação de que, aconteça o que acontecer, não te vais abandonar a meio do caminho.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Reparar no diálogo interno subtil Identificar frases “razoáveis” como “Eu não sou esse tipo de pessoa” como drenadores de confiança Dá linguagem para reconhecer padrões escondidos que limitam escolhas
Usar reformulação ao estilo TCC Escrever os pensamentos, testar evidências a favor e contra e criar alternativas equilibradas Oferece um método prático e sustentado pela ciência para mudar o diálogo interno
Construir um kit pessoal Preparar frases de substituição para as autocríticas mais comuns Torna a reformulação mais rápida e mais automática em momentos reais

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se o meu diálogo interno é mesmo um problema e não apenas realismo?
    Se o teu “realismo” te deixa frequentemente preso, envergonhado ou a evitar coisas que secretamente queres, não é neutro. Pensamentos realistas deixam espaço para crescer; pensamentos minadores fecham a porta.
  • Pergunta 2 E se falo comigo assim há anos - isso pode mesmo mudar?
    Sim, embora exija repetição. Estudos sobre TCC mostram que mesmo padrões de pensamento antigos podem mudar quando os notas, desafias e reformulas de forma consistente ao longo do tempo.
  • Pergunta 3 Diálogo interno positivo não é só mentir a mim próprio?
    A positividade forçada pode soar falsa. O objetivo não é mentir, mas passar de afirmações duras e absolutas para afirmações mais exatas e equilibradas que incluam os teus pontos fortes e a tua capacidade de aprender.
  • Pergunta 4 E se não consigo pensar numa alternativa melhor no momento?
    Começa com algo simples como: “Este é um momento difícil, e eu tenho direito a achar isto difícil.” Podes refinar a reformulação mais tarde, quando o teu sistema nervoso estiver mais calmo.
  • Pergunta 5 Preciso de um terapeuta para fazer isto bem?
    Um terapeuta pode acelerar o processo e ir mais fundo, especialmente se o teu diálogo interno estiver ligado a trauma ou depressão. Mas a prática básica de notar e reformular está ao alcance de qualquer pessoa com uma caneta e um pouco de curiosidade.

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