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Comprou um carro usado “barato” e descobriu que tinha milhares de euros em multas por pagar.

Pessoa segura chaves de carro ao lado de documentos sobre o capô de um carro, com placa "for sale" ao fundo.

Aquele tipo de pechincha em que tropeças numa noite de terça-feira e mandas a três amigos: “O que acham?”. Tom*, 31 anos, andava há semanas a percorrer anúncios de carros usados, metade por necessidade, metade por obsessão. Este preenchia todos os requisitos, incluindo o preço. Umas assinaturas, um aperto de mão, as chaves na mão. Simples.

Duas semanas depois, um envelope branco caiu no tapete à entrada. Depois outro. E outro. Lá dentro, não era um “bem-vindo ao mundo do automobilismo”, mas uma lista: multas de radar por pagar, portagens em dívida, coimas de estacionamento de meses atrás. Tudo associado à matrícula que agora estava em nome dele. O carro barato já não era barato. Vinha com um fantasma que ele não tinha pedido.

Quando um carro “barato” arrasta um fantasma financeiro atrás

O choque, diz Tom, não foi a primeira carta. Foi o monte. “Achei que a primeira era só um engano”, recorda. “À quinta, senti-me fisicamente enjoado.” O carro que tinha parecido um recomeço, de repente, parecia diferente na entrada de casa. Mesma pintura, o mesmo cheiro de ambientador velho, o mesmo risquinho no para-choques traseiro. Mas agora cada detalhe trazia um ponto de interrogação.

A maioria das pessoas acha que a história de um carro usado acaba na quilometragem e no número de donos anteriores. Na realidade, um carro pode arrastar uma cauda escondida de multas, portagens e penalizações por pagar - e essas não querem saber quem vai ao volante agora. O que conta é quem está no papel. Assim que o registo fica em teu nome, o sistema vê-te a ti. Não o vendedor. Não o “antigo proprietário”. Tu.

Tom começou a fazer contas. Havia notificações de radar de meses antes de ele sequer ter o carro. Cobranças de portagens por leitura automática (ANPR). Multas de estacionamento de uma cidade onde ele nunca conduziu. Isoladamente, cada carta parecia gerível. Em conjunto, somavam vários milhares em penalizações por pagar, juros de mora e “custas administrativas”. Um total que não te arruína a vida, mas que vai roendo, em silêncio, as poupanças que estavas a tentar construir.

O caso dele não é único. Em muitos países, a lei presume que o titular registado é responsável por coimas associadas àquela matrícula. As empresas de cobrança não investigam quem conduziu de facto naquele dia; seguem o rasto do papel. O problema é simples e brutal: os sistemas são desenhados para eficiência, não para nuance. Por isso, quando um carro usado muda de mãos, quaisquer problemas antigos podem cair diretamente no colo do novo dono, como água suja a passar por um cano rachado.

Em teoria, há proteções. Processos para contestar, reclamar, provar datas. Na prática, esses sistemas são lentos e exaustivos. As cartas chegam mais depressa do que as respostas. As linhas telefónicas ficam eternamente a tocar. E o peso emocional cresce muito mais rápido do que a clareza legal. Começas a duvidar de ti, mesmo não tendo feito nada de errado. Esse é o custo escondido de um carro usado “barato” de que ninguém fala nos anúncios brilhantes dos stands.

Como identificar uma pechincha… sem herdar as multas de outra pessoa

Há um ritual simples que poderia ter poupado a Tom um mundo de problemas: trata a papelada como se estivesses a comprar uma casa, não uma torradeira em segunda mão. Antes de trocar dinheiro, senta-te com o vendedor e espalha os documentos numa mesa ou no capô do carro. Certificado/Documento de registo. Histórico de manutenção. Qualquer papel de serviços de estacionamento, operadores de portagens ou entidades fiscalizadoras. Pergunta diretamente: “Há alguma multa ou coima pendente associada a este carro?”. Depois fica em silêncio e observa como ele responde.

Faz todas as verificações oficiais gratuitas que conseguires com a matrícula e o número VIN. Em alguns países, dá para ver se o carro esteve envolvido em ações de fiscalização, bloqueios ou apreensões. Não é perfeito - não mostra todas as multas de estacionamento por pagar - mas ajuda a construir uma imagem. Se o vendedor “não tem tempo” para isso, isso já é uma resposta. Um vendedor genuíno costuma perceber que um comprador cuidadoso não é um problema; é um alívio.

Se comprares a um particular, pede uma declaração curta por escrito, mesmo em linguagem simples, a dizer que não tem conhecimento de multas ou penalizações pendentes associadas ao carro. Não é magia, não apaga uma dívida, mas dá-te algo a apresentar se a história azedar. Num stand, pergunta qual é a política deles se aparecerem multas antigas associadas a datas anteriores à compra. Alguns ajudam, outros encolhem os ombros. Sejamos honestos: ninguém lê realmente todas as letras pequenas do contrato, mas a frase sobre multas merece atenção.

Ao nível prático, tira uma fotografia ao conta-quilómetros e regista a data no dia em que compras o carro. Envia para o teu próprio e-mail. Guarda uma captura de ecrã do anúncio. Esses detalhes minúsculos tornam-se preciosos se tiveres de provar, três meses depois, que não passaste por um radar num dia em que o carro ainda estava parado na entrada de outra pessoa. Provas não são glamorosas, mas muitas vezes são a única linguagem que os sistemas automatizados entendem.

O que fazer se já compraste um carro com multas escondidas

O primeiro instinto, quando as cartas começam a acumular-se, é o pânico. O segundo é ignorá-las. Ambos são humanos; ambos são arriscados. A jogada calma e aborrecida é abrir todos os envelopes e organizá-los pela data da alegada infração, não pela data em que recebeste a carta. Desenha uma linha num papel: de um lado, multas de antes de comprares o carro; do outro, tudo o que for depois. Essa linha simples muda a conversa.

Para o monte do “antes”, responde por escrito. Sempre. Indica claramente a data em que compraste o carro, junta cópias do contrato de compra e venda e da alteração de registo, e uma foto ou digitalização de documentos oficiais que mostrem quando passaste a ser o titular legal. Não estás a implorar; estás a traçar uma fronteira legal. Podes até usar o mesmo modelo de carta para todas, ajustando datas e referências. É trabalho repetitivo, mas constrói um muro de papel entre ti e o comportamento do proprietário anterior.

Para o monte do “depois”, precisas de outro tipo de honestidade. Se algumas multas são legitimamente tuas, paga-as depressa antes que os juros transformem pequenos aborrecimentos em grandes problemas. Se uma multa parecer errada - local errado, hora errada, descrição errada do veículo - contesta com calma e com provas. Muita gente bloqueia ou atira as cartas para uma gaveta até aparecer um bloqueio na roda. É aí que uma multa de 40 € se transforma, de repente, numa história de 400 € que contas com raiva durante anos.

“No início senti-me estúpido”, admite Tom. “Como se tivesse feito algo de errado só por confiar em alguém. Mas quanto mais falava sobre isto, mais pessoas diziam: ‘Ah, algo parecido aconteceu ao meu primo, ao meu vizinho, ao meu colega…’ Não é uma questão de ingenuidade. O sistema simplesmente não protege os compradores o suficiente.”

Depois de organizares e responderes, considera estas medidas práticas:

  • Contacta o vendedor por escrito, mesmo que esperes silêncio.
  • Mantém uma pasta física com todas as cartas, respostas e comprovativos.
  • Verifica se as associações locais de consumidores ou automobilistas oferecem apoio jurídico.
  • Fala com a tua seguradora se a execução/coação escalar.
  • Partilha a experiência com amigos, para que a história não se repita em silêncio.

O carro “barato” que custa mais do que dinheiro

O preço real de um carro usado raramente coincide com o número em destaque no anúncio. Inclui as horas a fazer scroll, os test-drives à chuva, as conversas incómodas com vendedores em parques de estacionamento de supermercados. Às vezes, infelizmente, também inclui o peso emocional de cartas cheias de vermelho e termos legais que nunca pediste para aprender. Um carro “barato” pode tornar-se caro sem avariar uma única vez.

Há também a vergonha silenciosa que se instala quando ficas preso no caos de outra pessoa. Revês as mensagens com o vendedor. Procuras os sinais mínimos que ignoraste. Convences-te de que “devias ter percebido”. Racionalmente, sabes que seguiste o guião normal: viste um carro, verificaste o básico, pagaste o preço. O sistema - não tu - deixou uma brecha escancarada. Ainda assim, a sensação cola-se à pele durante algum tempo.

Numa escala maior, histórias como a do Tom dizem algo desconfortável sobre a forma como organizamos a responsabilidade. Gostamos de linhas claras: proprietário igual a culpado, registo igual a responsabilização. Mas a vida é muitas vezes mais complexa. Uma matrícula pode viver muitas vidas, passar por muitas mãos e carregar erros, negligência ou puro azar. Quando esses fios invisíveis aterram na secretária de um novo titular, percebemos como a ideia de “recomeço” pode ser frágil.

Por isso, da próxima vez que vires uma lista suspeitamente apelativa de carros usados no telemóvel à meia-noite, talvez os olhes com uma lente ligeiramente diferente. Não com paranoia, mas com um pouco mais de curiosidade sobre a história por trás do aço e do plástico. Não só: “Levou mudança de óleo?”, mas também: “Que rasto é que esta matrícula deixa atrás de si?”. Os carros movem-nos no espaço. A papelada deles move-se, em silêncio, por sistemas que raramente vemos. É aí que as verdadeiras surpresas muitas vezes se escondem.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Verificar o histórico administrativo Controlar documentos, datas e indícios de eventuais multas antes da compra Reduzir o risco de herdar dívidas escondidas
Traçar uma linha “antes / depois” da compra Classificar as multas pela data da infração, não pela data de receção Saber quais são realmente tuas e o que contestar
Construir um dossiê de provas Contrato, capturas de ecrã, fotos do conta-quilómetros, trocas de mensagens com o vendedor Ter mais peso perante sistemas automatizados e proteger os teus direitos

FAQ:

  • Posso mesmo ser responsabilizado por multas de antes de eu comprar o carro?
    Legalmente, os sistemas muitas vezes começam por perseguir o titular registado atual, mesmo por infrações antigas. A tua tarefa é provar, com datas e documentos, que não eras o proprietário na altura.
  • Contestar uma multa resulta sempre se for de antes da compra?
    Não, nem sempre. Mas apresentar prova clara da data de compra e da mudança de titularidade costuma transferir a responsabilidade para o anterior proprietário ou encerrar o processo.
  • Posso levar o vendedor a tribunal se herdar as multas dele?
    Em teoria, sim - sobretudo se mentiu ou omitiu informação -, embora possa ser demorado, caro e stressante face ao valor em causa.
  • Os stands oferecem mais proteção do que vendedores particulares?
    Muitas vezes oferecem, porque têm reputação, obrigações legais e verificações internas, mas as políticas variam muito de stand para stand.
  • Existe uma forma 100% segura de evitar este problema?
    Nenhum método é perfeito. Ainda assim, verificações cuidadosas, confirmações por escrito e registos datados feitos por ti reduzem muito o risco e reforçam a tua posição.

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