Para a Maria, a casa nunca foi apenas uma morada. Era a escadaria que subiu centenas de vezes, os vizinhos a quem cumprimentava pelo nome, a vista de uma pequena varanda na velha Cádis. Agora, depois de 57 anos no mesmo apartamento, deram-lhe um mês para sair para que o prédio possa ser convertido em alojamento turístico.
Como uma casa de uma vida se tornou, de um dia para o outro, um “ativo valioso”
A Maria mudou-se para o seu apartamento no centro de Cádis em 1967. Na altura, as ruas históricas ainda pertenciam, na sua maioria, a famílias locais, trabalhadores do porto e pensionistas sentados em cadeiras dobráveis à porta de casa. Ao longo das décadas, viu bares abrir e fechar, crianças crescerem e irem embora, e os navios de cruzeiro ficarem maiores a cada ano.
O seu prédio, outrora apenas mais uma habitação modesta, ergue-se agora num bairro cobiçado por visitantes estrangeiros e por plataformas de estadias de curta duração. Cada varanda com brisa do mar transformou-se num potencial anúncio. O que antes eram casas de longa duração é agora vendido como “estadias autênticas” com “charme local”, a preços a que os residentes não conseguem chegar.
As mesmas ruas que moldaram a vida da Maria servem agora de cenários brilhantes para escapadinhas de fim de semana e fotografias de influenciadores.
Os meios de comunicação locais em Espanha descrevem o caso como “típico” daquilo que aconteceu em muitas cidades com forte pressão turística: os proprietários percebem que podem ganhar muito mais ao transformar apartamentos em alojamento de férias do que ao manter inquilinos de longa duração, sobretudo idosos com contratos antigos.
“Dão-me um mês para sair”: um despejo por fax
A forma como a Maria soube que tinha de sair diz tanto sobre o sistema como sobre o senhorio. Não recebeu uma batida à porta, uma visita para explicar a situação, nem sequer uma chamada telefónica.
Em vez disso, o aviso chegou por fax, enviado ao senhorio e transmitido a ela, indicando que o contrato de arrendamento tinha terminado e que teria de desocupar o apartamento. Sem conversa. Sem mediação. Apenas um prazo.
Em choque, a Maria pediu um pequeno adiamento, um mês, para encaixotar décadas de vida e tentar encontrar um lugar onde passar os seus últimos anos. Ainda não sabe para onde irá.
“Não me importo de sair”, terá dito. “Mas não tenho para onde ir.”
Essa frase capta o centro da crise: um despejo, na sua idade, não significa apenas mudar de caixa de correio. Pode significar perder independência, comunidade e até segurança básica.
Começar do zero aos 87
O El Español, o órgão espanhol que noticiou a história, escreveu que, no caso da Maria, “não é apenas um teto que está a ser desmontado, mas uma biografia inteira”. Essa ideia ressoa muito para além de Cádis.
As filhas existem e preocupam-se com ela, mas os seus apartamentos não conseguem acolher uma idosa que precisa de estabilidade, tranquilidade e, talvez, um espaço adaptado. Como muitas famílias, vivem num mercado habitacional marcado por rendas elevadas, casas pequenas e trabalho precário. Acolher uma pessoa de 87 anos a longo prazo nem sempre é possível, mesmo com as melhores intenções.
Para a Maria, mudar implica muito mais do que arranjar um novo molho de chaves. Na sua idade, teria de:
- Adaptar-se a novos vizinhos e rotinas.
- Aprender uma nova disposição da casa, o que aumenta o risco de quedas.
- Mudar de médico ou de centro de saúde, se sair do seu bairro.
- Perder o acesso fácil a lojas familiares e redes de apoio.
- Enfrentar deslocações mais longas para ver os poucos amigos ou familiares que lhe restam.
Os gerontólogos avisam frequentemente que uma relocalização forçada em idade avançada pode acelerar o declínio físico e cognitivo. As pessoas perdem orientação, sentem-se desorientadas em corredores desconhecidos e, por vezes, retraem-se socialmente. Para alguém como a Maria, cuja identidade está entrelaçada com um lugar específico, “começar do zero” pode parecer um apagamento silencioso.
Alojamento turístico e o espaço cada vez menor para os locais
A cidade velha de Cádis seguiu um padrão visível em Barcelona, Lisboa, Veneza e em partes do centro de Londres: um boom de arrendamentos de curta duração para férias tem consumido o stock de casas para residentes. Grupos locais de habitação dizem que há escadas inteiras onde, hoje, há mais visitantes do que vizinhos.
Quando apartamentos que antes acolhiam inquilinos de longa duração passam para uso de curta estadia, normalmente acontecem três coisas:
| Mudança | Impacto nos residentes |
|---|---|
| As rendas sobem acentuadamente | Inquilinos de baixos rendimentos e idosos não conseguem renovar ou encontrar casas semelhantes nas proximidades. |
| Rotatividade no bairro | Comunidades estáveis fragmentam-se; lojas locais fecham ou transformam-se em negócios para turistas. |
| Ruído e pressão | Hóspedes de curta duração significam malas às 2 da manhã, festas e mais queixas. |
A Maria está exatamente no ponto de colisão destas forças. A sua pensão não deixa margem para os novos preços de arrendamento no centro de Cádis. Muitos apartamentos próximos, antes ocupados por pessoas que conhecia pelo nome, aparecem agora em plataformas de reservas para visitantes dispostos a pagar por noite o que ela pagava por mês.
Para os proprietários, um apartamento pode transformar-se numa fonte de receita. Para os residentes de longa duração, pode desaparecer como lar.
Quando a política de habitação encontra a fragilidade humana
Associações que defendem o direito à habitação na Andaluzia intervieram no caso da Maria. Argumentam que as cidades deveriam proteger inquilinos muito idosos de despejos súbitos, sobretudo quando o motivo é a conversão em alojamento turístico, e não segurança estrutural ou demolição.
Por toda a Espanha e pela União Europeia, as autoridades locais experimentam diferentes instrumentos para proteger os residentes: restrições a novas licenças turísticas, limites às noites de estadia, ou tetos ao número de dias em que a residência principal pode ser arrendada a visitantes. A regulação continua irregular, e a fiscalização muitas vezes fica atrás das mudanças do mercado.
Na prática, isto significa que histórias individuais como a da Maria assinalam a fronteira do que a lei atualmente permite. Legalmente, o senhorio pode estar dentro dos seus direitos. Eticamente, muitos vizinhos sentem o contrário, vendo uma mulher que passou 57 anos no mesmo lugar a guardar os seus pertences em caixas que talvez já não consiga levantar.
O que poderia ter sido diferente
Ativistas pela habitação apontam várias medidas que poderiam ter mudado a situação da Maria ou ajudar outras pessoas em posições semelhantes no futuro:
- Prazos de aviso mais longos para inquilinos acima de determinada idade.
- Direito automático a uma reunião presencial com o senhorio ou um mediador.
- Acesso prioritário a habitação pública ou apoiada dentro do mesmo bairro.
- Impostos mais elevados sobre alojamento turístico em zonas com falta de casas.
- Apoio a pequenas adaptações na casa para que os idosos possam permanecer em segurança.
Estas ferramentas não travam as forças do mercado, mas podem suavizar as suas arestas mais cortantes. Sem elas, as pessoas menos capazes de se adaptar suportam os custos mais pesados.
Por trás de cada reserva, um custo escondido
As plataformas que oferecem apartamentos de férias em centros históricos raramente mostram o inquilino anterior. O anúncio descreve “vistas espetaculares” ou “ruas empedradas autênticas”, mas não a mulher de 87 anos que teve de sair para abrir espaço para a próxima estadia “pronta a fotografar”.
Os viajantes, sobretudo os que tentam ser responsáveis, perguntam cada vez mais como as suas escolhas afetam as comunidades locais. A história da Maria dá rosto e voz a essa pergunta. Sugere que um quarto barato com vista pode ter um preço social mais alto do que o ecrã de reserva revela.
A varanda enquadrada numa fotografia ao pôr do sol pode ter enquadrado a vida quotidiana de uma avó apenas algumas semanas antes.
Algumas cidades incentivam agora os visitantes a escolher hotéis licenciados ou arrendamentos regulados, ou a ficar em zonas menos afetadas pela escassez. Outras publicam mapas que mostram onde a concentração turística expulsa residentes. Para inquilinos idosos, em particular, cada novo anúncio na cidade velha aperta o espaço onde podem, realisticamente, viver.
Envelhecer no próprio lugar: o que está em jogo
Urbanistas falam de “envelhecer no próprio lugar” - a ideia de que as pessoas devem permanecer nas suas casas e comunidades o máximo de tempo que desejem e que, em segurança, consigam. A investigação liga isso a melhor saúde mental, menos solidão e menores custos de cuidados de saúde.
A situação da Maria mostra o que acontece quando “envelhecer no próprio lugar” colide com “maximizar a rentabilidade por metro quadrado”. Uma varanda que antes segurava roupa a secar surge agora em escapadinhas de fim de semana cuidadosamente curadas. A pessoa do outro lado dessa porta arrisca-se a ser tratada como uma nota de rodapé.
Para famílias com familiares idosos a viver em arrendamento, o caso levanta questões práticas. Podem precisar de compreender as cláusulas do contrato, as datas de renovação e se as autarquias oferecem aconselhamento ou regimes de prioridade para inquilinos vulneráveis. Conversas atempadas com senhorios, antes do fim de um contrato, podem por vezes abrir espaço para negociação - espaço esse que deixa de existir quando chega um aviso.
Numa escala mais ampla, a mudança forçada da Maria obriga cidades e viajantes a pensar de forma diferente sobre envelhecimento, habitação e turismo. O desafio está em manter as ruas vivas sem as transformar em cenários, e em garantir que uma vida inteira vivida num pequeno apartamento ainda conta para alguma coisa quando o mercado decide que aquela vista vale mais para alguém de passagem.
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário