É às 10h30. O dia mal começou e, ainda assim, as raízes dela já parecem um pouco sem volume. Suspira, tira um champô seco em spray da mala e resmunga qualquer coisa sobre “ter de o lavar outra vez logo à noite”.
Atrás dela, outra colega faz scroll no telemóvel e pára num reel viral de um dermatologista: “Parem de lavar o cabelo todos os dias. Estão a destruir o vosso couro cabeludo.” Ela revira os olhos. “Então o que é suposto eu fazer, aparecer oleosa no Zoom?”
Entre conselhos das redes sociais, anúncios de cabelo brilhante e dicas meio esquecidas das nossas mães, a maioria de nós já não faz ideia de com que frequência deve lavar o cabelo. Uma coisa está a ficar cristalina: os dermatologistas dizem que temos andado a fazer isto tudo mal.
Estamos a lavar o cabelo como se fosse 1999
Pergunte a cinco pessoas com que frequência lavam o cabelo e vai ouvir cinco regras totalmente diferentes. Todos os dias. Dia sim, dia não. Só aos domingos. Uns juram que o cabelo “fica sujo mais depressa” se falharem uma lavagem. Outros dizem que o treinaram para aguentar uma semana. No meio disto, muitos couros cabeludos estão a gritar em silêncio.
Os dermatologistas estão agora a levantar um sinal de alerta: a nossa obsessão por madeixas “a chiar de tão limpas” está a sair pela culatra. Lavar com champô demasiadas vezes não remove apenas sujidade. Remove também os óleos naturais que o couro cabeludo produz cuidadosamente para proteger o cabelo e a pele. Aquela sensação de “leve e ultra-limpo” que tantos procuram? Muitas vezes é sinal de cabelo sobrelavado e pouco nutrido.
Uma dermatologista de Londres disse-me que vê isto todos os dias na clínica: couros cabeludos com comichão, descamação crónica, cabelo que parece mais fino sem qualquer causa médica. O denominador comum não é uma condição rara. É uma rotina de duche que faria chorar qualquer glândula sebácea saudável.
Vejamos a Emma, 29 anos, de Manchester. Começou a lavar diariamente o cabelo comprido e com madeixas durante o confinamento, quando as videochamadas a deixaram subitamente hiperconsciente do aspeto das raízes. Em menos de um ano, tinha o couro cabeludo vermelho e irritado e, pela primeira vez na vida, uma caspa persistente.
Experimentou champôs anticaspa, esfoliantes para o couro cabeludo, enxaguamentos com vinagre de sidra de maçã que encontrou no TikTok. Nada ajudou realmente. Quando finalmente consultou um dermatologista, o veredito foi dolorosamente simples: a barreira do couro cabeludo estava danificada por excesso de lavagens e produtos agressivos. “A sua pele está a compensar em excesso”, disse-lhe o médico. “Está a produzir mais oleosidade porque a está a remover constantemente.”
A Emma passou a lavar duas vezes por semana, trocou para um champô suave e usou, pelo meio, um sérum calmante para o couro cabeludo. O primeiro mês foi difícil. O cabelo parecia-lhe mais oleoso do que gostaria. Mas, por volta da sexta semana, aconteceu uma coisa estranha: as raízes mantinham-se frescas por mais tempo. A descamação acalmou. Ela ainda se ri do tempo que demorou a perceber: não era o cabelo que era “mau”. Era a rotina.
Os dermatologistas explicam isto de forma muito simples: o couro cabeludo é pele. Tem um microbioma, um pH e uma camada lipídica protetora, tal como o resto do corpo. Quando lavamos com demasiada frequência - sobretudo com tensioativos fortes e água muito quente - perturbamos todo esse sistema. Depois, o couro cabeludo reage como qualquer pele em stress: inflama, produz oleosidade em excesso ou descama mais rapidamente.
É por isso que muitas pessoas juram que o cabelo fica mais oleoso quando tentam lavar menos. O couro cabeludo ainda está preso em “modo de emergência” depois de anos de remoção diária. Imagine chatear um amigo durante meses e esperar que ele relaxe de um dia para o outro. O reequilíbrio leva tempo. E a paciência é rara quando se está a olhar para uma franja oleosa.
Por outro lado, não lavar de todo também não é uma solução mágica. Sujidade, suor, poluição e acumulação de produtos podem obstruir os folículos e alimentar leveduras que pioram a caspa. O problema não é lavar em si. É lavar como se o nosso cabelo vivesse num anúncio de champô, em vez de num couro cabeludo real e vivo.
Afinal, com que frequência deve lavar o cabelo?
Os dermatologistas não concordam num número mágico, mas partilham um intervalo claro. Para a maioria das pessoas com um couro cabeludo normal (sem problemas médicos), o ponto ideal é duas a três lavagens por semana. Não diariamente. Não “quando me lembro”. Um ritmo estável que permite ao couro cabeludo respirar entre champôs.
Se o seu cabelo é muito fino e perde volume rapidamente, poderá estar mais perto das três. Se é mais espesso, encaracolado, crespo ou seco, poderá descer para uma ou duas. O que importa não é obedecer a uma regra da internet, mas observar como o couro cabeludo reage ao longo de algumas semanas. Menos comichão. Menos ardor. Menos necessidade desesperada de champô seco às 16h - esses são os sinais de que encontrou o ritmo certo.
Os dermatologistas também apontam a geografia e o estilo de vida. Vive numa cidade quente, vai de bicicleta para o trabalho e treina todos os dias? O suor acumula-se. Pode precisar de enxaguar com mais frequência, mas com um produto suave e amigo do couro cabeludo - ou até apenas com água nos dias sem champô. Tem um trabalho de secretária num clima mais fresco? O seu couro cabeludo provavelmente não precisa de tanto drama. Cuidar do cabelo não é uma questão moral. É uma questão prática.
A um nível humano, a culpa por “não lavar o suficiente” é surpreendentemente forte. Alguns pacientes pedem desculpa nas consultas de dermatologia, como se saltar um champô fosse uma confissão. Uma dermatologista baseada em Paris contou-me que muitas vezes começa com uma pergunta simples: “O que é que o seu couro cabeludo sente, e não o que acha que devia parecer?” Isso muda toda a conversa.
Digamos que, neste momento, lava com champô todos os dias. O primeiro passo não é deitar fora o frasco. É aumentar o intervalo, com cuidado. Passe de 7 lavagens por semana para 5, depois 4. Use um tónico para o couro cabeludo ou água micelar nos dias “off” para refrescar sem o efeito de remoção total. Pense nisto como reabilitação para os seus folículos.
O cabelo encaracolado e crespo, muitas vezes usado em estilos protetores, tem o seu próprio ritmo. Lavar uma vez por semana com um produto hidratante, mais um refresh a meio da semana, é comum. Os óleos naturais demoram mais a percorrer o fio, por isso a secura é uma grande inimiga. Lavar em excesso aqui é um atalho para quebra e falta de brilho.
E há exceções. Se tiver caspa verdadeiramente médica (dermatite seborreica), psoríase ou pele muito oleosa e com tendência acneica, o seu dermatologista pode recomendar lavagens mais frequentes com produtos específicos. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias de forma perfeita, mas instruções claras ajudam. A questão é: deixe que um diagnóstico o guie, não um truque viral.
“Crescemos a ouvir que cabelo limpo é cabelo ‘bom’, por isso as pessoas entram em pânico quando veem o mínimo brilho”, diz a Dra. L., dermatologista consultora em Londres. “Mas cabelo saudável tem um pouco de óleo, um pouco de movimento. Quando o couro cabeludo está seco como osso e repuxado, isso não é uma vitória. É um sinal de alerta.”
Então, como é uma rotina realista e aprovada por dermatologistas para a pessoa comum? Pense em camadas, não em extremos. Escolha um champô sem sulfatos ou, pelo menos, um mais suave para a maioria das lavagens. Guarde um champô de limpeza profunda para uma vez a cada duas a quatro semanas, para “resetar” a acumulação de produtos. Use água morna em vez de duches quase a ferver que inflamam a pele.
Nos dias sem lavagem, trate por zonas. Um pouco de champô seco na franja, não pulverizado por todo o couro cabeludo. Um leave-in leve apenas nas pontas, não nas raízes. E um hábito que os dermatologistas adoram em segredo: massajar suavemente o couro cabeludo com as pontas dos dedos limpas para estimular a circulação e ajudar a distribuir os óleos naturais. Todos já tivemos aquele momento em que olhamos para o cabelo sob a luz da casa de banho e o julgamos com dureza; uma rotina mais calma e tátil pode suavizar esse reflexo.
- Espaçar as lavagens com champô para 2–3 vezes por semana, para a maioria dos couros cabeludos.
- Usar fórmulas mais suaves e água morna.
- Refrescar entre lavagens com produtos leves em vez de lavagens completas.
- Ajustar ao tipo de cabelo, estilo de vida e conforto real do couro cabeludo.
Uma nova forma de pensar o cabelo “limpo”
Está a acontecer uma mudança cultural em torno do cabelo, e vai mais fundo do que saltar um champô. Mais pessoas começam a questionar o que “limpo” significa realmente. É cabelo que cheira a coco sintético e range quando o puxamos? Ou é cabelo que se comporta bem, brilha de forma suave e não dói nas raízes?
As redes sociais acrescentaram, sem dúvida, pressão. As câmaras em alta definição destacam cada zona oleosa, cada cabelo rebelde, cada frizz. No entanto, as mesmas plataformas estão agora cheias de dermatologistas e tricologistas a insistir calmamente que lavar diariamente raramente é necessário. Duas narrativas opostas no mesmo ecrã - não admira que estejamos confusos.
O conselho mais “assentado” que esses especialistas dão é surpreendentemente suave: ouça o seu couro cabeludo. Não o seu calendário. Não a regra que a sua mãe seguia nos anos 90. Nem sequer aquele influencer cujo cabelo vive num ring light. Couros cabeludos reais têm dias maus. Suam no caminho para o trabalho. Reagem a hormonas, ao stress, a uma noite mal dormida. Um horário rígido que ignore tudo isto nunca vai funcionar bem por muito tempo.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Frequência ideal | 2–3 lavagens com champô por semana para a maioria das pessoas | Ajustar o ritmo sem danificar o couro cabeludo |
| Papel do sebo | Protege, lubrifica e equilibra o microbioma do couro cabeludo | Perceber porque lavar em excesso fragiliza o cabelo |
| Rotinas flexíveis | Alternar champôs suaves, clarificantes raros e refrescamentos leves | Criar uma rotina realista e sustentável |
FAQ
- Com que frequência devo lavar o cabelo se fica oleoso rapidamente? Comece por lavar dia sim, dia não, em vez de diariamente; mantenha isso durante 3–4 semanas e veja se o couro cabeludo passa a produzir menos oleosidade de forma gradual. Ajuste a partir daí.
- O champô seco faz mal ao couro cabeludo? Usado ocasionalmente e em zonas específicas, não há problema. Usado todos os dias como substituto do champô, pode obstruir os folículos e irritar o couro cabeludo.
- Lavar o cabelo demasiadas vezes pode causar queda? Lavagens frequentes e agressivas normalmente não causam queda permanente, mas podem levar a quebra e a aumento da queda (shedding), fazendo o cabelo parecer mais fino.
- E se eu fizer exercício todos os dias e suar muito? Enxague com água ou use um produto de limpeza suave para o couro cabeludo em alguns dias, e mantenha as lavagens completas com champô apenas algumas vezes por semana.
- O cabelo encaracolado ou crespo deve ser lavado com menos frequência? Em geral, sim: uma a duas vezes por semana com produtos hidratantes funciona bem para muitas pessoas, juntamente com refrescamentos do couro cabeludo a meio da semana.
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