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Descobrimos um método inovador: uma escola secundária em Nantes lança um projeto revolucionário.

Professora orienta alunos em aula interativa, analisando cubo. Alunos trabalham em portáteis e notas adesivas na mesa.

On a tous déjà vivido aquele momento em que uma sala de aula parece mais uma sala de espera do que um lugar com vida. Olhos colados ao relógio, cadernos que se fecham mentalmente muito antes de tocar a campainha. Em Nantes, num liceu público enfiado entre um elétrico barulhento e uma padaria, essa cena familiar era a norma. Até ao dia em que uma equipa de professores decidiu partir o cenário.
Dizem que encontraram um método que muda tudo.
Os alunos, esses, juram que “já não é o mesmo liceu”.
E o que se passa por lá começa a fazer barulho muito para lá da cidade.

Numa terça-feira de manhã chuvosa, no liceu Guillaume-de-Nantes, toca a campainha e ninguém se precipita para a porta. Os alunos ficam à volta de mesas altas, inclinados sobre um sensor de CO₂ improvisado com um microcontrolador e uma caixa de cartão. Uma professora de Física, ténis brancos e cabelo apanhado à pressa, ouve mesmo um aluno a explicar-lhe porque é que o seu código não compila.
Num canto, um grupo grava um podcast sobre a desigualdade no acesso à habitação, enquanto outro testa uma aplicação de monitorização de energia no edifício.
Na parede, um painel mostra, em letras pretas: “LAB 404 - School not found”.
Nada parece uma aula clássica. E, no entanto, toda a gente está a trabalhar.

“Encontrámos um método que muda tudo”: o que está realmente a acontecer neste liceu de Nantes?

O projeto tem um nome simples: “Lab Classe Aberta”. No papel, é um dispositivo pedagógico. Na prática, está mais perto de um pequeno laboratório social instalado no coração do liceu.
Três salas foram fundidas para criar um grande espaço modulável, com sofás reaproveitados, quadros móveis, ilhas de trabalho e zonas silenciosas.
Os professores já não “dão aulas” no sentido clássico. Propõem desafios, missões, problemas bem enraizados na vida real: reduzir o ruído no refeitório, mapear as zonas de stress no bairro, imaginar uma IA que ajude a estudar sem batota.
Os alunos escolhem, organizam-se em equipas, erram, recomeçam.
E, estranhamente, mantêm-se concentrados.

Um exemplo serviu de clique para o resto da equipa: a “semana sem notas”.
No 10.º ano, uma turma inteira trabalhou num desafio simples de formular, mas ambicioso de resolver: “Como reduzir em 20% o consumo de energia do liceu num ano, sem alterar o aquecimento central?”.
Mediram, entrevistaram o pessoal, filmaram hábitos, analisaram faturas e depois conceberam micro-ações: autocolantes nos interruptores, campanhas TikTok feitas em casa, afixação em tempo real do consumo de papel na sala de professores.
Em vez de notas, os alunos receberam um retorno detalhado sobre três pontos: rigor dos dados, criatividade das soluções, capacidade de convencer.
Os professores esperavam um caos mole. Tiveram 89% de participação ativa durante toda a semana e zero trabalhos não entregues.

No essencial, o método assenta numa ideia bastante crua: tratar os alunos do secundário como pessoas já capazes de produzir algo com peso fora dos muros da escola.
Cada projeto tem, portanto, de ter um impacto visível: um protótipo, uma apresentação perante autarcas, uma aplicação testada por outras turmas, uma exposição aberta aos pais e ao bairro.
As disciplinas não desaparecem; mudam de papel. A Matemática torna-se uma ferramenta para validar dados, Português serve para defender uma ideia em público, Inglês permite trocar com um liceu parceiro na Finlândia.
Nada é mágico, nada é perfeito. Nalguns dias, o ruído sobe, as ideias dispersam-se, a fadiga nota-se.
Mas algo mudou: a energia já não está centrada nas notas; gira à volta dos problemas a resolver.

O método por trás do burburinho: como é que esta “turma-laboratório” funciona na prática

No coração do dispositivo, há um ritual semanal a que os professores chamam “o ciclo curto”.
Todas as segundas-feiras, a turma começa com um “stand-up” de 15 minutos: os alunos, de pé em círculo, dizem numa frase o que querem atingir até sexta-feira.
À quarta-feira, um ponto de situação rápido permite ajustar: abandona-se uma pista falsa, afina-se um objetivo, trocam-se papéis numa equipa que está emperrada.
À sexta-feira, tudo termina com um momento de demonstração, mesmo que nada esteja “terminado”: miniapresentações, testes entre grupos, feedback franco mas cuidadoso.
Este pequeno mecanismo, inspirado em métodos ágeis das startups, estrutura a semana.
Evita que os projetos se transformem em intenções vagas que se arrastam sem nunca chegar a lado nenhum.

Os professores também identificaram uma armadilha: quando se dá liberdade, por vezes cria-se apenas ansiedade silenciosa.
Alguns alunos, sobretudo os que estão habituados a “jogar bem o jogo escolar”, sentem-se perdidos quando já não há instruções ultradetalhadas.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, nem sequer entre adultos.
Por isso, a equipa criou salvaguardas muito concretas: fichas de papéis (coordenador, garante do tempo, responsável pelos dados), grelhas simples de autoavaliação, momentos de retorno individual onde também se fala de cansaço, vontade, confiança.
A mensagem subjacente é: tens o direito de hesitar, mas não estás sozinho no meio da neblina.
E isso muda o tom dos corredores.

Uma professora de História e Geografia, envolvida no projeto desde o início, resume a viragem assim:

“Já não me vejo como alguém que transmite um programa, mas como alguém que organiza situações em que o programa se torna um recurso. O mais surpreendente é que os alunos mais discretos ganham voz quando têm um verdadeiro desafio à frente.”

Para não perder o fio, a equipa do liceu formalizou alguns marcos, quase como um pequeno “manual não oficial” que os alunos sabem de cor:

  • Um projeto = um problema real, observável no dia a dia.
  • Cada semana deve produzir uma evidência visível, mesmo que pequena.
  • Temos o direito de falhar; não temos o direito de desaparecer do grupo.
  • As disciplinas nunca ficam “arrumadas em caixas”; cruzam-se.
  • Falamos do trabalho, mas também da forma como o vivemos.

O que isto pode mudar para lá de um liceu em Nantes

À volta deste “Lab Classe Aberta”, algo bastante raro está a acontecer: as conversas saem da sala de professores.
Pais, por vezes desconfiados no início, vêm assistir às demonstrações de sexta-feira. Já não veem apenas pautas; descobrem o filho a defender um projeto, a explicar uma escolha, a assumir um erro.
Professores de outras escolas vizinhas passam um dia inteiro em imersão e regressam com ideias, dúvidas, vontade.
Nas redes, alguns vídeos gravados com smartphone mostram alunos a apresentar (“pitch”) um projeto de aplicação para orientar melhor os alunos do 9.º ano.
Nada polido, nada “marketizado”, mas uma naturalidade que interpela.
E uma pergunta que surge sem parar: porque é que este tipo de espaço ainda é a exceção?

Para quem lê tudo isto a pensar “connosco, isso seria impossível”, a equipa de Nantes responde com modéstia.
O método deles não é uma receita milagrosa; é um conjunto de pequenos gestos reproduzíveis: mover mesas para criar ilhas, transformar um trabalho clássico num desafio a apresentar a um público real, transformar uma avaliação em feedback argumentado.
Também contam os falhanços: um projeto ambicioso demais que colapsou por falta de tempo, uma turma que interpretou “liberdade” como permissão para desligar, tensões entre professores sobre a forma de avaliar.
É precisamente esta matéria-prima que torna a experiência útil noutros sítios.
Não como um modelo para copiar, mas como um espelho que convida cada escola a perguntar: e se ousássemos um primeiro passo, mesmo minúsculo?

O que está em jogo em Nantes vai além da questão escolar.
Ao formar alunos para conduzirem projetos concretos, trabalharem em equipa e argumentarem perante adultos, este liceu toca em algo muito contemporâneo: a capacidade de não ser apenas consumidor de um sistema, mas ator - ainda que um pouco.
Os alunos que saem dali não se tornam todos empreendedores, longe disso. Uns querem ser enfermeiros, outras engenheiras, outros ainda não têm a mínima ideia.
Mas terão vivido pelo menos um lugar onde a sua opinião, as suas ideias e os seus ensaios desajeitados produziam um efeito real no ambiente à sua volta.
E é muitas vezes essa memória que, anos mais tarde, faz com que se ouse lançar uma iniciativa, propor uma mudança, dizer “podia ser de outra forma”.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Uma sala de aula transformada em “lab” Espaços moduláveis, projetos concretos, trabalho em equipas mistas Inspirar-se para repensar uma aula, um workshop, um local de trabalho
Rituais do “ciclo curto” Objetivos à segunda, ajustes à quarta, demonstrações à sexta Adotar uma estrutura simples para dinamizar qualquer projeto
Avaliação por feedback em vez de apenas notas Retornos detalhados sobre rigor, criatividade, cooperação Imaginar uma forma diferente de acompanhar o progresso, na escola e no trabalho

FAQ

  • Este método é apenas para “bons alunos”?
    De modo nenhum. A equipa de Nantes observa que algumas das maiores mudanças vêm de alunos normalmente rotulados como “medianos” ou “desligados”, que aqui encontram uma forma de mostrar competências raramente visíveis em testes tradicionais.
  • O liceu continua a seguir o currículo oficial francês?
    Sim. O currículo é totalmente cumprido, mas os conteúdos são integrados em projetos, em vez de serem lecionados capítulo a capítulo, de forma isolada.
  • Como são atribuídas notas se há menos testes clássicos?
    Continua a haver testes escritos quando necessário, mas uma grande parte da classificação vem do trabalho de projeto, apresentações orais e grelhas de feedback detalhadas partilhadas com os alunos.
  • Uma escola pode começar em pequeno sem transformar salas inteiras?
    Sim. Muitas ideias podem começar numa única turma: stand-ups semanais, um desafio do mundo real por período, ou transformar um trabalho tradicional num projeto apresentado ao público.
  • Isto é apenas uma tendência, ou algo que pode durar?
    O projeto já resistiu a mudanças de horário, rotação de pessoal e pressão de exames. Continua a evoluir, precisamente porque é construído como um laboratório vivo, e não como um “modelo perfeito” congelado.

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