Lá deitado na cama, olhos abertos no escuro, a repetir a mesma cena em loop. Ouves-te a explicar o teu lado, a antecipar a reação da outra pessoa, a preparar respostas, a tapar possíveis silêncios. O teu cérebro é um cinema, a passar o mesmo trailer vezes sem conta. E, nesse filme mental, tu dizes sempre exatamente a coisa certa.
Depois chega a conversa real. O coração acelera. A outra pessoa diz algo que não previste. O teu guião perfeito evapora-se. As palavras pesam, a boca seca, e mais tarde, a caminho de casa, o realizador na tua cabeça reaparece: «Devias ter dito isto.» O filme recomeça.
Chamamos a isso «estar preparado». Mas e se este hábito de ensaiar não te estiver a ajudar em nada?
Quando o teu argumentista interior vai longe demais
Gostamos de acreditar que ensaiar nos torna mais afiados. Mais confiantes. No controlo.
Na realidade, conversas ensaiadas soam muitas vezes rígidas para quem está de fora. O tom fica ligeiramente errado. O timing demasiado apertado. As respostas saem depressa demais, como se estivesses a ler legendas invisíveis que só tu consegues ver.
As pessoas sentem essa diferença. Nem sempre sabem porquê, mas algo não encaixa. O que era suposto «correr bem» de repente parece estranhamente formal, ou um pouco frio. O teu guião é bom no papel. Na vida real, choca com a confusão de uma mente humana do outro lado.
Numa manhã de terça-feira em Londres, uma engenheira de 32 anos chamada Lisa entrou no gabinete do seu gestor com um discurso que tinha repetido durante dias.
Tinha decorado cada frase para pedir um aumento. Há quanto tempo estava na função. As suas contribuições. As referências do mercado. Sentada na sala de espera, quase conseguia ouvir-se a dizer aquelas linhas na cabeça, como um TED Talk que ninguém tinha pedido.
Então o gestor começou com: «Só quero dizer que tens estado brilhante num trimestre difícil.» Elogio. Inesperado. Fora do guião. A Lisa congelou, sorriu demais, e depois lançou-se mecanicamente no seu monólogo. A meio, percebeu que não estava a responder a nada do que ele estava realmente a dizer. A conversa acabou num vago «vamos voltar a isto mais tarde». Ela saiu com um nó no peito e a sensação estranha de se ter visto falhar de fora.
O que aconteceu ali não foi falta de preparação. Foi um choque entre um guião interior rígido e uma conversa viva, em movimento.
Quando ensaias com demasiada precisão, o teu cérebro apega-se à forma como as coisas «devem» correr. Qualquer desvio na vida real parece um erro. O teu foco deixa a pessoa à tua frente e prende-se ao teleponto invisível na tua mente.
Isso sequestra a tua atenção. Deixas de ouvir e começas a «esperar pela tua vez de falar». Não estás presente; estás a comparar a realidade com uma versão fantasiosa da cena. E essa comparação raramente te favorece. O teu sistema nervoso lê a discrepância como perigo, o stress dispara, e o teu acesso às palavras piora ainda mais.
Ensaiar também tende a amplificar o negativo. Treinamos respostas para conflitos que talvez nunca aconteçam. Imaginamos as piores reações e construímos discursos inteiros à volta delas. De repente, a conversa deixa de ser uma conversa e passa a ser um campo de batalha que tens de ganhar.
Preparar sem ensaiar em excesso
Há uma forma de te preparares que não te prende a um guião único.
Começa pelas intenções, não pelas frases. Antes de uma conversa difícil, escreve três coisas: o que sentes, o que precisas e como gostarias que a relação ficasse depois da conversa. Linhas curtas e simples. Sem formulações perfeitas. Sem diálogos cinematográficos.
Depois, em vez de repetires cenas inteiras, pratica apenas a tua frase de abertura e um pedido claro. Só isso. Dois pontos de ancoragem a que podes voltar se a tua mente ficar em branco. Tudo o resto? Mantém flexível. Conversas são jazz, não música clássica.
Um pequeno exercício muda muita coisa: grava-te a dizer o teu ponto principal numa só tomada, sem parar.
Sem edição. Sem repetir. Só tu, o teu telemóvel e uma versão desarrumada e real da tua voz a dizer, por exemplo: «Quero falar sobre como a nossa carga de trabalho é distribuída, porque ultimamente tenho-me sentido sobrecarregado/a.» Ouve uma vez. Repara onde aceleras, onde engoles palavras, onde soas como se estivesses a ler de uma folha invisível.
Não precisas de o transformar em algo impecável. O objetivo é ouvires como falas de verdade, não como o teu escritor interior gostaria que falasses. Esse som é o que as pessoas vão encontrar. Não o guião.
Muita gente cai na mesma armadilha: polir as palavras em excesso e depois julgar-se quando a realidade não corresponde ao ensaio.
Repetem uma discussão futura enquanto tomam banho, vão no trânsito, partem ovos na cozinha. Quando chega a conversa real, já estão emocionalmente exaustos. Num nível mais fundo, ensaiar torna-se uma forma de gerir a ansiedade, não de comunicar melhor.
Num plano humano, há uma espécie de auto-violência silenciosa em forçares-te a falar como uma versão de ti que não existe. Quando a conversa começa, o teu corpo recusa o papel. A garganta aperta. Os ombros sobem. Soas menos como tu e mais como um/a ator/atriz nervoso/a numa audição.
«Boas conversas não são performances para ganhar; são momentos de realidade partilhada», diz uma psicoterapeuta que entrevistei, especializada em ansiedade social. «Quando as pessoas deixam de tentar ser impressionantes e começam a tentar ser honestas, tudo suaviza.»
Essa mudança - da performance para a presença - altera a forma como te preparas.
Em vez de praticares diálogos inteiros, tenta construir uma pequena caixa de ferramentas que possas levar para qualquer conversa:
- Uma frase de abertura calma que comece por «Eu» em vez de «Tu».
- Uma frase para pedir uma pausa se as emoções subirem: «Podemos fazer uma pausa? Estou a sentir-me um bocado sobrecarregado/a.»
- Uma frase de fecho que proteja a relação: «Ainda bem que falámos, mesmo que tenha sido um pouco estranho.»
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ainda assim, usar só uma destas frases uma vez por semana pode fazer com que as tuas conversas pareçam menos performances com guião e mais encontros humanos que consegues atravessar, mesmo quando cambaleiam.
Deixar que a vida real interrompa o teu guião
Raramente falamos da solidão das conversas ensaiadas. Todo esse tempo a discutir com pessoas na cabeça, a defender-te, a ganhar pontos em lutas imaginárias. Não admira que a conversa real se sinta tão carregada quando finalmente acontece.
E se, da próxima vez que te apanhares a escrever um guião no duche, tratares isso como um sinal, não como uma solução? Um sinal de que algo é importante para ti. De que te importas o suficiente para querer que corra bem. A partir daí, a pergunta muda: não «Como digo isto na perfeição?», mas «Quão honesto/a consigo ser, mantendo a gentileza para nós os dois?»
Esse tipo de honestidade não se ensaia totalmente. Acontece no espaço imperfeito entre duas pessoas, com frases inacabadas e pequenos silêncios que são mais curativos do que qualquer monólogo.
Quanto mais deixas espaço para o desconhecido, mais te dás a oportunidade de ser surpreendido/a.
Às vezes, a outra pessoa reage com mais calor do que esperavas. Às vezes, oferece uma solução que nem tinhas considerado nos teus ensaios noturnos. Às vezes, não te entende à primeira, e precisam de uma segunda ronda.
No autocarro, a passear o cão, parado/a num semáforo vermelho, podes começar a experimentar um hábito interior diferente: em vez de percorreres um guião, podes praticar uma única pergunta que gostarias de lhes fazer. Uma pergunta real cuja resposta não sabes de antemão. Essa pergunta é um convite, não uma performance.
Todos conhecemos aquele momento em que te afastas de uma conversa a pensar: «Foi confuso, mas estranhamente honesto.» Muitas vezes são essas conversas que fazem as relações avançar, de forma silenciosa. Não são fáceis de partilhar. Não soam a diálogo de uma série. Pertencem-te.
As tuas conversas ensaiadas serão sempre tentadoras. Oferecem controlo e finais limpos. As conversas reais oferecem outra coisa: a possibilidade de seres acolhido/a onde realmente estás, não onde o teu argumentista interior acha que devias estar.
Partilhar essa versão crua de ti é arriscado. Pode parecer tirar camadas de armadura que usas há anos. Mas a armadura é pesada. É difícil respirar com ela. Difícil ouvir. Difícil rir.
Não tens de deitar os guiões fora de um dia para o outro. Podes começar mais pequeno: segurando-os com mais leveza. Entrando na próxima conversa com uma ideia geral, uma intenção suave e a curiosidade de ver o que acontece quando dois seres humanos deixam de ensaiar e começam a falar a sério.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Ensaiar pode sair pela culatra | Ter um guião demasiado fechado cria rigidez e aumenta a ansiedade quando a realidade não corresponde ao guião mental | Perceber porque é que «estar preparado» às vezes te faz sentir pior, não melhor |
| Focar nas intenções | Clarificar o que sentes, precisas e esperas, em vez de decorar discursos inteiros | Ganhar flexibilidade para te adaptares ao que a outra pessoa realmente diz |
| Construir uma pequena caixa de ferramentas | Usar algumas frases simples para abrir, pausar e fechar conversas difíceis | Ter frases práticas prontas sem transformar a conversa numa performance |
FAQ:
- É sempre mau ensaiar conversas? Não necessariamente. Uma preparação leve ajuda, sobretudo em conversas de alto risco. O problema começa quando escreves cada linha e dependes emocionalmente de a conversa acontecer exatamente assim.
- Como posso preparar-me sem soar falso/a? Prepara a tua ideia-chave, não um discurso completo. Pratica uma frase de abertura em voz alta e para. Quanto mais espaço deixares para a espontaneidade, mais natural vais soar.
- E se eu ficar em branco no momento? Tem uma «frase de resgate» pronta, como: «Estou com dificuldade em encontrar as palavras certas, dá-me um segundo.» Dá-te tempo e mantém a ligação honesta, em vez de te forçar a voltar a um guião que já se partiu.
- Porque é que eu ensaio sempre discussões na cabeça? Muitas vezes é uma forma de gerir medo ou vergonha. O teu cérebro tenta proteger-te ao prever perigo. Notar isso e rotulá-lo como ansiedade, e não como verdade, já reduz o seu poder.
- Consigo mesmo parar de ensaiar completamente? Provavelmente não - e não precisas. O objetivo não é ensaiar zero, mas ter menos apego ao teu guião interior e mais atenção à pessoa real à tua frente.
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