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Esperava melhores resultados: alunos desta escola secundária em Mulhouse lutam contra a desigualdade social.

Alunos numa sala de aula a trabalhar em grupo, com computadores e folhas de papel sobre a mesa.

On a todos já vivemos aquele momento em que uma sala de aula parece menos um lugar de igualdade e mais um espelho da sociedade. No liceu Lambert, num bairro popular de Mulhouse, isso vê-se logo à entrada: mochilas gastas, AirPods de última geração, ténis esburacados, sweatshirts de marca. Mundos sociais roçam-se no mesmo corredor sem, nem sempre, se falarem.
Nessa manhã, numa sala do terceiro andar, cerca de uma dezena de alunos encostou duas mesas à parede e tirou folhas cobertas de palavras: “bolsas”, “orientação”, “alojamento”, “cantina”. Uma reunião informal, quase clandestina, para falar de algo que ultrapassa as notas do exame final.
Já não querem apenas “ter sucesso apesar de tudo”.
Querem mudar as regras do jogo.

“Esperava melhores resultados”: quando as notas expõem o fosso social

Tudo começou com uma frase dita em voz baixa no fim de um conselho de turma.
“I expected better results.” O professor olhava para a pauta de um aluno do 12.º ano, filho de operário, que faz biscates à noite para ajudar em casa. No papel, as notas pareciam “medianas”. Na vida real, eram quase um milagre.
Neste liceu de Mulhouse, os alunos veem todos os dias esse desfasamento entre o que os adultos esperam e o que as suas vidas reais lhes permitem.
As menções de excelência convivem com boletins “pode melhorar”, mas por trás das médias escondem-se histórias de quartos partilhados, Wi‑Fi instável e pais que não percebem o Parcoursup.

Lina, 17 anos, conta o seu primeiro choque.
No 10.º ano, descobre que alguns colegas têm secretária, computador pessoal, uma assinatura de um site de apoio ao estudo. Em casa, estuda na mesa da sala, com a televisão ligada e as idas e vindas dos irmãos mais novos. Quando um professor pergunta quantos leem imprensa ou livros “fora das aulas”, ela atreve-se a levantar a mão, quase sozinha.
Um dia, um colega explica que vai para uma “prépa” em Estrasburgo, “como estava previsto desde o colégio”. Ela nem sequer sabe quanto custa um estúdio para estudantes.
Essa diferença de horizonte, mais do que a diferença de notas, atinge-a como uma bofetada silenciosa.

Nos corredores, a fratura social nem sempre se vê à primeira vista.
As mesmas piadas, os mesmos jeans, as mesmas redes sociais. No entanto, a sociologia entra em cada detalhe: quem vai à biblioteca à quarta-feira, quem trabalha na fábrica nas férias, quem já andou de avião, quem tem medo de não conseguir pagar a cantina no próximo mês.
Os professores falam em “igualdade de oportunidades”, os cartazes promovem as grandes escolas, mas a realidade por vezes parece uma corrida em que alguns começam com três voltas de vantagem.
Foi então que um punhado de alunos decidiu transformar o liceu num laboratório anti-desigualdades. À sua escala, com as suas palavras, os seus papéis e uma energia teimosa.

As pequenas revoluções nascidas numa sala de aula em Mulhouse

A primeira ideia não veio de um grande discurso, mas de uma constatação muito simples.
“Não percebemos os códigos escolares como os outros”, conta Amine, 16 anos. Assim, os alunos decidem criar uma “oficina de descodificação” durante a pausa de almoço.
Objetivo: traduzir a linguagem escolar para linguagem realista.
Pegam nos boletins, nos comentários, nas fichas do Parcoursup, e leem-nos em voz alta. Depois reescrevem: “aluno aplicado mas sem ambição” torna-se “tens nível, mas ninguém te explicou as vias possíveis”.
O exercício parece modesto, quase banal. No entanto, muda a relação deles com a escola.

Numa quarta-feira, organizam uma “simulação de orientação” numa sala emprestada pela equipa da vida escolar.
Uma mesa representa a universidade, outra os BTS, outra as “prépas”. Em cada stand, um aluno pesquisou e faz de embaixador: salários médios, duração dos estudos, seleção, custos escondidos.
Uma novidade: fala-se mesmo de dinheiro. De rendas, transportes, trabalho de estudante.
Uma aluna do 11.º ano percebe que uma “prépa” em Colmar não está necessariamente fora do seu alcance se conseguir uma bolsa e alojamento do CROUS. Outro percebe que um BTS pode levar a carreiras reais de engenharia.
Em duas horas, portas simbólicas abrem-se na cabeça de mais de uma dezena de pessoas.

Por trás destas “mini-iniciativas” há uma ideia simples, mas radical: recuperar o controlo.
Os alunos já não querem ser apenas beneficiários passivos de ações “para eles”. Constroem as suas próprias respostas às desigualdades sociais que vivem todos os dias.
Perceberam por dentro aquilo que os relatórios oficiais repetem há anos: a escola nem sempre apaga as diferenças; pode até ampliá-las se ninguém questionar as suas regras tácitas.
Ao falar, ao nomear o que emperra, quebram o tabu que muitas vezes rodeia a pobreza, o capital cultural, a vergonha de “não saber”.
E, pouco a pouco, transformam um liceu comum de Mulhouse num terreno de experimentação social.

Como estes alunos estão, discretamente, a “hackear” o sistema

O método que mais aparece nos seus relatos cabe numa palavra: coletivo.
Montaram um pequeno grupo, informal no início, e depois reconhecido pelo liceu como “clube de igualdade social”. Todas as semanas, listam obstáculos concretos: falta de silêncio para estudar, formulários incompreensíveis, desânimo perante os dossiers.
Para cada problema, procuram uma micro-solução acionável.
Por exemplo, criaram um “frasco de perguntas anónimas” no CDI. Um frasco de vidro simples, onde qualquer pessoa pode deixar um papel: “Não percebo nada de bolsas”, “Não tenho computador em casa”, “Tenho vergonha de dizer que não consigo pagar a visita de estudo”.
As perguntas mais frequentes servem de base a oficinas curtas, à hora do almoço.

O que impressiona é a forma como misturam entreajuda e lucidez.
Sabem que não vão mudar a estrutura social do país a partir da sala 307, mas recusam a resignação silenciosa.
Partilham conselhos de sobrevivência escolar: negociar uma autorização no caderno para aceder a uma sala tranquila, atrever-se a pedir uma reunião individual com um professor, identificar associações do bairro que emprestam computadores.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Muitos desistem antes sequer de tentar.
Eles decidiram fazer destes gestos um hábito - mesmo improvisado, mesmo imperfeito. E falar disso à volta, sem moralizar quem não consegue.

Um dia, numa reunião, um aluno larga uma frase que fica suspensa na sala:

“Dizem-nos que a escola é a solução, mas nunca nos dão realmente o manual de instruções quando vimos de um bairro como o nosso.”

Então elaboraram, à sua escala, um início de “manual de instruções sociais”, quase como um kit de sobrevivência para um aluno do liceu de meio popular:

  • Identificar pelo menos um adulto “aliado” no liceu (professor, CPE, documentalista) e atrever-se a falar com franqueza.
  • Juntar-se a dois ou três para preencher os dossiers de orientação - nunca sozinho em frente ao ecrã.
  • Anotar, preto no branco, as datas-chave: bolsas, Parcoursup, internato, e afixá-las na sala.
  • Criar um grupo de mensagens onde se partilham boas dicas: estágios, apoios locais, trabalhos de verão dignos.
  • Não ter vergonha de dizer “não sei”, mesmo no 12.º ano - sobretudo no 12.º ano.

Estas ferramentas parecem simples. Na realidade, são profundamente políticas, porque redistribuem um pouco do poder de compreender e decidir.

Uma luta maior do que um corredor de liceu

Quando se ouvem estes alunos, percebe-se depressa que não se veem como heróis.
Dizem-se muitas vezes “cansados”, “no limite”, por vezes “desiludidos” com resultados que não refletem nem o esforço, nem as noites em branco, nem as responsabilidades familiares sobre os seus ombros.
“I expected better results” já não é apenas uma frase de professor num boletim; tornou-se uma espécie de slogan de dois gumes.
Melhores resultados para quem? Nas conversas deles, a pergunta volta constantemente. Resultados escolares, sim, mas também resultados sociais, emocionais, coletivos.
Querem que o sucesso não fique reservado a quem nasce com os códigos certos.

De tanto falar, alguns começaram a escrever.
Textos lidos em assembleia geral, publicações anónimas nas redes, cartas abertas à câmara municipal. Contam dias impossíveis, refeições saltadas, horas passadas a explicar trabalhos de casa a um irmão mais novo quando eles próprios não perceberam nada da aula.
Não procuram piedade. Reivindicam um olhar mais justo.
Um professor de Filosofia propôs ajudar a reunir esses textos num pequeno livrinho, para circular no liceu.
O projeto está em curso, frágil, como muitas coisas aqui. Mas a ideia existe - e isso já é uma fissura no muro do hábito.

À escala de um artigo, tende-se a simplificar: os “empenhados” de um lado, os “passivos” do outro. A realidade neste liceu de Mulhouse é muito mais matizada.
Há os que se atiram de cabeça para os projetos, os que só querem acabar o ano sem dramas, os que não ousam dizer que têm dificuldades com a gramática ou com as equações.
O movimento contra as desigualdades sociais no Lambert não é um bloco uniforme.
É uma soma de atos minúsculos: emprestar apontamentos, traduzir um e-mail da administração, explicar o que é uma “carta de motivação convincente”, acompanhar um amigo ao CIO quando se preferia ir para casa dormir.
Na discrição dos corredores, estes gestos desenham, ainda assim, outra escola possível.
Não perfeita. Mas um pouco menos injusta.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A “descodificação” escolar Oficinas entre alunos para traduzir boletins, Parcoursup e comentários para uma linguagem concreta Dá ideias práticas para compreender melhor e usar o sistema escolar a seu favor
Entreajuda estruturada Clube de igualdade social, frasco de perguntas anónimas, grupos para preencher dossiers Mostra como criar, mesmo localmente, espaços de apoio face às desigualdades
Micro-gestos políticos Escolhas quotidianas: falar de dinheiro, atrever-se a pedir ajuda, partilhar os “códigos” com os outros Convida a refletir sobre o próprio poder de ação, mesmo sem grandes reformas nacionais

FAQ:

  • As desigualdades sociais são mesmo assim tão visíveis num liceu? Sim, mas muitas vezes de forma discreta: no acesso a silêncio para estudar, a material, a redes - não apenas na roupa ou nas notas.
  • O que é que os alunos podem realmente fazer contra um problema tão grande? Podem organizar entreajuda, partilhar informação, descodificar regras escondidas e recusar que alguns fiquem sozinhos perante o sistema.
  • Os professores deste liceu de Mulhouse apoiam estas iniciativas? Alguns sim: emprestando salas, divulgando informação, ouvindo sem julgar. Outros ficam mais de fora, por falta de tempo ou de referências.
  • Este tipo de movimento estudantil pode mudar resultados reais? Não elimina a pobreza, mas pode mudar escolhas de orientação, trajetórias e devolver confiança a quem se achava “condenado” ao fracasso.
  • Como podem outras escolas replicar o que está a acontecer em Mulhouse? Começando pequeno: um grupo de alunos motivados, um adulto aliado, um espaço para reunir, e a aceitação de que nem tudo será perfeito nem imediato - mas já assim valioso.

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