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Esta definição esquecida na sua televisão melhora a qualidade da imagem sem alterar a resolução.

Mão segurando um comando à distância apontado para uma televisão numa sala de estar, com planta e janela ao fundo.

A cena é sempre a mesma: uma TV 4K brilhante, uma subscrição de streaming novinha em folha e um filme que andou a guardar para “quando tudo estiver perfeito”.

Carrega no play, aparecem os logótipos e… há qualquer coisa que não bate certo. A imagem é nítida, sim, mas parece sem profundidade, um pouco deslavada, quase como se alguém tivesse colocado um véu cinzento por cima do ecrã. Agarra no comando e vai direto à resolução, a pensar que mais píxeis significa melhor imagem. Os números estão certos. 4K. HDR. Todos os selos certos. Então porque é que continua a saber a pouco?

Mais tarde nessa noite, alguém pega no comando com naturalidade, carrega num único botão nas definições e, de repente, a imagem muda por completo. Os pretos ficam mais profundos, as cores ganham vida, os detalhes saltam das sombras. A resolução não mexeu um milímetro. E, no entanto, parece outra TV. Uma definição minúscula, escondida atrás de jargão, acabou de transformar o ecrã naquilo que achou que tinha pago desde o primeiro dia. Parece magia. Não é.

A definição discreta que muda tudo

A maioria das pessoas acha que a qualidade de imagem começa e acaba na resolução. 1080p, 4K, 8K, selos HDR a brilhar nas montras. O que realmente molda aquilo que vê, a cada segundo, é algo em que quase ninguém mexe: os controlos de contraste e de local dimming (escurecimento local) da TV. É aqui que a TV decide quão escuros devem ser os escuros, quão brilhantes podem ser os claros e até onde se atreve a esticar essa diferença. É nesse “esticão” que a imagem ganha vida.

Entre num corredor de TVs num hipermercado e vai ver ecrãs com o brilho no máximo, todos no mesmo modo “Vívido” ou “Dinâmico”, a derreter retinas. Parece espetacular durante 30 segundos. Depois repara em tons de pele a ficarem laranja, sombras a virarem uma sopa cinzenta e numa imagem mais parecida com uma montra do que com um filme. Em casa, muitas TVs ficam presas nesse modo por defeito. Ou seja: tecnicamente é “4K”, mas a imagem está a funcionar num perfil de demonstração, não num perfil sério.

O que muda o jogo não é saltar de 1080p para 4K. É deixar a TV controlar a luz como deve ser. Isso significa ligar (ou ajustar) o local dimming quando existe e usar um contraste que permita que cenas escuras continuem escuras enquanto pequenos elementos brilhantes se destacam. Os seus olhos leem o contraste quase como leem o foco. Quando o contraste está errado, o cérebro arquiva a imagem como “barata” ou “falsa” mesmo quando os píxeis são de topo. Este é o interruptor ignorado: não mais píxeis, mas luz mais inteligente.

Como desbloquear melhor imagem sem tocar na resolução

Escolha uma noite calma. Comando na mão, sem pressa. O ponto de partida mais fácil é o modo de imagem. Esqueça o Vívido. Experimente mudar para Cinema, Filme (Movie) ou Modo Realizador (Filmmaker Mode) se a sua TV o tiver. Logo aí, muitas vezes vê o brilho a acalmar, as cores a deixarem de parecer néon e os pretos a ficarem um pouco mais profundos. Só isto já parece mais “cinematográfico” do que qualquer resolução, por si só.

Próximo passo: procure as opções de local dimming ou de melhoria de contraste. Na Samsung, costuma estar em “Controlo da retroiluminação” ou “Escurecimento local” (Local Dimming). Na LG, aparece muitas vezes como “Local Dimming” ou “LED Local Dimming”. A Sony tende a chamar-lhe “X-tended Dynamic Range” ou “Local Dimming”. Experimente colocar em Médio primeiro. No Alto, pode ficar espetacular em salas escuras, mas em alguns modelos pode criar halos à volta de objetos brilhantes. Vê melhor o efeito numa cena noturna com candeeiros de rua ou velas: de repente, o preto à volta deixa de “brilhar”.

Em muitas TVs de gama média e alta, este único ajuste faz mais pelos filmes do que passar de streaming 4K para Blu‑ray 4K. Não porque o Blu‑ray não seja melhor, mas porque a sua TV nem estava a usar toda a sua gama de luz. Quando o local dimming entra em ação, desliga ou reduz partes da retroiluminação atrás das zonas escuras da imagem. Resultado: os pretos deixam de ser cinzento enlameado, as cores ganham impacto e a imagem ganha profundidade. Do sofá, isso parece uma atualização completa, não um ajuste de menu.

Ajustes práticos, ganhos reais no dia a dia

O caminho prático é simples: comece num modo calmo e realista e depois ajuste o contraste até ficar do seu agrado. Depois de escolher Filme ou Cinema, abra as definições avançadas. Procure três controlos principais: Retroiluminação (ou Luz OLED), Contraste e Brilho. Pense na retroiluminação como a “lâmpada da sala”, no contraste como a “força” entre claro e escuro e no brilho como o “nível de preto” (o piso).

A retroiluminação é onde muita gente erra. Colocam no máximo, a pensar “mais brilhante é melhor”. Não é. Numa sala pouco iluminada, baixe a retroiluminação até as cenas escuras deixarem de parecer que têm um brilho nas bordas. Depois suba o contraste até os brancos (como legendas ou reflexos no rosto) ficarem suficientemente brilhantes sem “queimar” detalhe. Se os rostos parecem máscaras planas sem sombreamento suave, o contraste está provavelmente alto demais. Se a imagem parece mortiça e cansada, está baixo demais. Isto é sensação, não teste de laboratório.

Agora vem o segredo: ponha uma cena escura que conhece bem. Algo de uma série que já viu duas vezes ou de um filme que já tem meio decorado. Numa TV LCD moderna com local dimming, desligue e ligue essa função enquanto a imagem está em pausa. Desligado: o ecrã fica iluminado de forma uniforme, como um smartphone grande. Ligado: o fundo escurece, as partes brilhantes “soltam-se” do escuro e os seus olhos voltam a notar profundidade e forma. Quem tem OLED sente isto de outra maneira, porque cada píxel controla a própria luz, mas mesmo aí, ajustar contraste e mapeamento de tons pode revelar gradientes subtis que nem sabia que estavam a faltar.

Erros comuns e pequenos acertos que vai mesmo manter

A maior armadilha, a nível humano, é tentar reproduzir em casa o aspeto de “demonstração de loja”. Habitua-mo-nos a imagens exageradas: brancos que quase doem, cores que gritam. Impressiona à primeira vista, especialmente numa sala muito iluminada. Depois vê um filme inteiro assim e acaba com dor de cabeça e a sensação vaga de que tudo parecia falso. A realidade raramente é néon.

Também caímos na mentalidade do “configurar e esquecer para sempre”. Afina a TV uma vez, normalmente no dia em que a tira da caixa, e pronto. Mas a vida muda: cortinas, novas luzes, estações do ano, distância de visualização. Uma configuração que ficou ótima numa tarde solarenga de agosto pode começar a parecer plana nas noites de janeiro. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas revisitar contraste e local dimming uma ou duas vezes por ano já faz uma diferença enorme.

Há ainda outro erro subtil: aumentar a nitidez (sharpness) a pensar que vai revelar mais detalhe. Na verdade, a maioria das TVs adiciona halos artificiais nas extremidades quando a nitidez passa um valor baixo. Dá a ilusão de detalhe por um segundo e depois começa a parecer agressivo e ruidoso. Experimente isto: baixe a nitidez quase para zero e depois suba devagar até as arestas deixarem de parecer esbatidas, mas sem brilharem. Muitas vezes, esse “ponto ideal” é muito mais baixo do que o valor por defeito. A imagem fica mais calma e natural, e o contraste melhorado deixa o detalhe real respirar, em vez de depender de contornos falsos.

Quando os especialistas falam, acabam sempre por voltar ao contraste

“Se eu tivesse de escolher entre mais resolução ou melhor controlo de contraste numa TV, escolhia o contraste sempre. Os seus olhos perdoam píxeis em falta; não perdoam pretos lamacentos.”

Esta frase veio de um calibrador veterano que passa os dias a navegar em menus de TVs. A ideia é simples: os nossos olhos têm fome de contraste. Julgamos “qualidade” primeiro pela forma como a luz e a sombra parecem convincentes, muito antes de começarmos a contar píxeis. É por isso que um plasma 1080p antigo, ou uma OLED, bem afinados para contraste, podem parecer mais cinematográficos do que uma 4K barata presa no modo “lanterna”. Resolução é matemática. Contraste é emoção.

Aqui ficam algumas ações essenciais para manter num checklist mental:

  • Sair do Vívido/Dinâmico e mudar para Filme/Cinema/Modo Realizador.
  • Ativar local dimming ou contraste dinâmico em Médio nas TVs LCD.
  • Baixar a nitidez até os halos desaparecerem e depois subir ligeiramente.
  • Ajustar a retroiluminação à sua sala, não ao chão de loja.
  • Rever estas definições quando as estações do ano ou a iluminação mudarem.

Nada disto tem de ser perfeito ou científico. Não precisa de um disco de calibração nem de um colorímetro. Só precisa de dez minutos tranquilos e de confiar nos seus olhos. Se um rosto parecer um rosto real e a noite parecer noite a sério, já está a ganhar.

Porque é que esta pequena definição diz algo sobre a forma como vemos

Depois deste pequeno ritual de afinação, pode acontecer algo estranho. Começa a reparar na qualidade de imagem nas TVs dos outros. Em casa de um amigo, vê os pretos a brilhar ou as arestas demasiado afiadas e percebe em silêncio o que se passa. É como quando, depois de afinar bem o EQ dos seus auscultadores, de repente todas as colunas “fininhas” de um café passam a soar planas e agressivas. Já não consegue deixar de ver (ou ouvir).

O interessante é como esta definição pequena e esquecida conta uma história maior. Tendemos a associar progresso tecnológico a números maiores: mais píxeis, mais Hertz, mais nits. A verdade discreta é que o nosso prazer muitas vezes vem de coisas mais subtis. Contraste bem feito. Cores mais calmas. Uma imagem que deixa de gritar e começa a respirar. É aí que relaxa dentro do filme, em vez de sentir constantemente que o ecrã está a “atuar” para si.

Todos já tivemos aquele momento em que uma cena bate mais forte do que esperávamos: um rosto à luz de vela, uma cidade à noite depois da chuva, um grande plano em que quase sente o ar da sala. Esses momentos raramente vêm só da resolução. Vêm de luz e sombra tratadas com cuidado. Se uma única definição, quase escondida, consegue transformar a sua TV atual em algo mais próximo do que o realizador viu na sala de gradação, fica uma pergunta silenciosa: quantas outras “atualizações” na nossa vida estão ali num menu, já pagas, só à espera de serem ligadas?

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Escolha do modo de imagem Passar de Vívido/Dinâmico para Filme/Cinema/Modo Realizador Imagem mais natural sem comprar uma nova TV
Local dimming e contraste Ativar ou ajustar o controlo de luz para reforçar os pretos Mais profundidade percebida, sensação de “TV nova”
Ajustes regulares Adaptar retroiluminação e contraste às estações e à luz ambiente Manter uma imagem confortável e imersiva o ano todo

FAQ:

  • O que é o local dimming numa TV, em termos simples?
    É uma funcionalidade que permite à TV escurecer ou iluminar zonas diferentes da retroiluminação de forma independente, para que as áreas escuras se mantenham escuras enquanto as partes brilhantes se destacam mais.
  • Consigo melhorar a qualidade de imagem numa TV barata com estas definições?
    Sim. Não a vai transformar num modelo topo de gama, mas melhor contraste, um modo mais calmo e menos nitidez podem fazer uma diferença visual grande.
  • O 4K é mesmo menos importante do que o contraste?
    Precisa de uma resolução decente, mas a partir de 1080p ou 4K, o contraste e o controlo de luz costumam influenciar muito mais aquilo que sente do que a contagem de píxeis.
  • Devo copiar definições de calibração que encontro online?
    Podem ser um bom ponto de partida, mas cada sala e cada unidade são diferentes. Use-as como guia e depois afine a olho com a sua própria iluminação.
  • Preciso de calibração profissional para um bom resultado?
    Não. A calibração profissional é ótima para perfeccionistas, mas alguns ajustes cuidadosos de modo, contraste e brilho já levam a maioria das pessoas a 80% do resultado.

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