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Nove hábitos intemporais que pessoas nos 60 e 70 mantêm e porque costumam ser mais felizes do que as gerações jovens ligadas à tecnologia.

Casal idoso sentado à mesa de madeira, escrevendo em cadernos, com tigela de laranjas ao lado.

À uma mesa, três estudantes percorriam o ecrã em silêncio, com os rostos iluminados pelo brilho azul-pálido dos telemóveis. Na mesa ao lado, duas mulheres na casa dos setenta discutiam animadamente qual era o pastel com “manteiga a sério, como em 1983” e, de repente, desataram a rir com tanta força que o empregado acabou por se juntar.

Um grupo era jovem, ligado ao mundo digital e aborrecido. O outro era mais velho, desligado e inconfundivelmente vivo. O contraste era quase embaraçoso.

Quando a conta chegou, uma das mulheres tirou da mala um caderno amarrotado, escreveu nele qualquer coisa e voltou a guardá-lo com um aceno satisfeito. Sem app. Sem monitorização. Apenas um hábito que, provavelmente, mantém há décadas.

A vê-las, instalou-se uma pergunta que não me largava.

O que é que estas pessoas fazem de forma diferente - e porque é que parecem mais felizes do que os jovens obcecados por tecnologia sentados mesmo ao lado?

Nove hábitos discretos que vencem qualquer app de felicidade

Pessoas nos 60 e 70 raramente falam em “optimizar a vida”. Limitam-se a vivê-la. Muitas transportam pequenos rituais como uma armadura invisível: caminhadas matinais na mesma rua, listas escritas à mão, chamadas semanais que nunca mudam no calendário.

Estes hábitos não viram tendência no TikTok. Não vêm com notificações. E, no entanto, funcionam como uma coluna emocional, mantendo os dias estáveis enquanto as gerações mais novas saltam de um pico de dopamina para o seguinte.

O que se destaca não é que os mais velhos tenham mais tempo. É que protegem certos momentos de serem invadidos por ecrãs, notícias e ruído. Aprenderam, à custa de experiência, que a energia se escoa por cada separador aberto - e fecham, discretamente, a maioria deles.

Veja-se Maria, 72 anos, enfermeira reformada, que caminha os mesmos dois quilómetros todas as manhãs antes do pequeno-almoço. Sem contador de passos. Sem auscultadores. Apenas as chaves, um cachecol e um percurso gasto onde os vizinhos a conhecem pelo nome.

Começou nos quarenta, primeiro para escapar ao caos das crianças pequenas e dos turnos da noite. Agora, há pessoas que a esperam. A florista acena. Um adolescente na mercearia da esquina segura a porta quando a vê chegar. Nos dias de chuva, alguém inevitavelmente pergunta se a deve levar a casa de carro.

Na cabeça dela, essa caminhada não é “exercício”. É orientação. Um ritual que lhe diz: “Ainda estás aqui, esta ainda é a tua rua, os teus pulmões ainda funcionam.” Jovens fazem scroll uma hora na cama a tentar sentir-se acordados. A Maria bastam vinte minutos de passeio e uma árvore familiar.

A investigação confirma aquilo que o corpo dela já sabe. Movimento regular e leve em idades avançadas está fortemente associado a taxas mais baixas de depressão, melhor sono e cognição mais apurada. Mas não é só caminhar que importa. É a previsibilidade. O tempo ancorado. Quando repetimos um hábito durante anos, ele passa a ser parte de quem somos, não apenas algo que fazemos.

A juventude movida a tecnologia persegue muitas vezes a novidade: novos treinos, novas apps, novas rotinas todos os janeiros. Essa mudança constante é excitante, mas mentalmente cansativa. Pessoas nos 60 e 70 tendem a inclinar-se para o lado oposto. Reutilizam o que funciona. São menos seduzidas por “truques de vida” e mais fiéis ao que provou o seu valor ao longo de décadas.

Esta fidelidade a rotinas simples e de baixa tecnologia cria uma sensação discreta de segurança. O dia tem forma. A mente sabe o que vem a seguir. A felicidade, para elas, não é um fogo-de-artifício. É uma chama piloto constante que não se apaga quando o Wi‑Fi falha.

Como vivem, de facto: de listas manuscritas a noites “sem telemóvel”

Um dos hábitos mais subestimados que os mais velhos mantêm é a lista física. Um papel em cima da mesa com três ou quatro coisas escritas à mão: comprar tomates, ligar à Ana, apertar aquele puxador solto. Não um planeador digital com 30 itens. Apenas o essencial, visível num relance.

Este pequeno ritual faz mais do que organizar o dia. Cria uma promessa ao “eu” do futuro. Quando riscamos algo à mão, o cérebro regista o progresso de forma diferente do que quando assinalamos uma caixa num ecrã. Há uma celebração minúscula no pulso.

Muitas pessoas nos 60 e 70 mantêm também janelas “sem telemóvel” quase por instinto. O jantar é para comer. O passeio é para conversar. A televisão pode estar ligada, mas o telemóvel fica noutra divisão. Estes limites eram normais antes de existirem smartphones. Simplesmente… nunca os abandonaram.

Se falar com elas tempo suficiente, admitem que não são santos da disciplina. Também caem em buracos de coelho. Também vêem mais um episódio do que tinham planeado ou lêem comentários debaixo de uma publicação acesa. Só não deixam que isso engula a noite inteira.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Também se dão mais margem. Onde os mais novos se culpam por não seguirem uma rotina matinal impecável, muitos mais velhos encolhem os ombros e dizem: “Amanhã, então,” e vão fazer um chá. O hábito constrói-se ao longo de décadas, não com uma sequência perfeita de 21 dias.

A maior diferença pode ser que os hábitos deles são profundamente sociais. Idas semanais ao mercado onde se fala com o mesmo vendedor de queijos. Ensaios de coro todas as quintas-feiras. Almoço de domingo que acontece quer as pessoas estejam “com vontade” quer não. Isto não são “eventos” para acrescentar ao calendário. São estruturas fixas, como paredes numa casa.

Um homem de 68 anos descreveu-me a vida assim:

“Temos estas poucas coisas que nunca mudam: cartas com amigos à terça-feira, jantar com a minha irmã à sexta, domingo de manhã no parque. O resto pode desmoronar-se. Estas três coisas mantêm a semana de pé.”

Para alguém criado com redes sociais, isto soa quase radical. Sem coordenação complexa. Sem “logo se vê como me sinto no dia”. Apenas a disciplina tranquila de aparecer - mesmo quando se está cansado, mesmo quando se preferia ficar no sofá.

  • Mantenha uma lista física visível em casa. Três a cinco tarefas, não mais.
  • Escolha um ritual diário sem ecrãs (um passeio, café, alongamentos).
  • Ancore um hábito social semanal que se repita à mesma hora, no mesmo sítio.
  • Deixe que existam dias imperfeitos sem eliminar o hábito por completo.

A lição mais profunda: lentidão, presença e uma alegria teimosa

Há outro hábito que muitas pessoas nos 60 e 70 mantêm, embora raramente lhe deem nome. Contam histórias. Na paragem de autocarro. Nas filas. À mesa, com café. Reciclam memórias como moedas gastas, passando-as de mão em mão até que todos as tenham tocado.

A um ouvido apressado, isto pode soar repetitivo. A uma mente solitária, é oxigénio. Contar histórias é uma das formas mais antigas de os humanos regularem emoções, darem sentido à dor e se sentirem menos sós. As gerações mais velhas cresceram com isso. As mais novas, muitas vezes, terceirizam esse papel para podcasts e Netflix.

Num dia mau, alguém de 25 anos pode abrir uma app. Alguém de 70 pode abrir a boca e falar com a pessoa ao lado. Um acrescenta mais ruído à cabeça. O outro atravessa-o.

Todos conhecemos aquele momento em que damos por nós a fazer scroll à 1 da manhã, sem estar a gostar, apenas… incapazes de parar. O contraste com uma avó a tricotar calmamente enquanto o rádio murmura ao fundo é quase violento. Ela praticou estar consigo própria durante décadas. Muitos jovens estão só agora a descobrir o quão difícil isso é.

Há também um tipo de alegria teimosa que aparece com a idade. Pessoas que enterraram amigos, perderam empregos, sobreviveram a doenças desenvolvem um filtro diferente para o que importa. Queixam-se, claro. Preocupam-se com dinheiro, saúde, política como toda a gente. Mas muitas também carregam uma leveza surpreendente.

Dizem coisas como: “Nem pensei que fosse viver tanto, estou a roubar dias,” e riem-se e pedem sobremesa. Ou plantam tomates apesar de lhes doer as costas, não porque seja uma tendência de bem-estar, mas porque sempre foi isso que fizeram na primavera.

A juventude movida a tecnologia sente muitas vezes que tem de “construir uma vida com sentido” antes dos 30. Pessoas nos 60 e 70 sabem que o sentido, na maior parte das vezes, cresce por acidente, regado por pequenas acções fiéis repetidas ao longo de anos. Os nove hábitos intemporais que mantêm - caminhar, listar, telefonar, cozinhar, reunir, contar, escutar, descansar e reparar - parecem quase aborrecidos no papel.

E, no entanto, estes rituais discretos vencem a app de felicidade mais inteligente na maioria dos dias.

Não anulam a ansiedade para sempre. Não oferecem calma eterna. Dão algo mais realista: uma aterragem mais suave quando a vida bate com força. Uma cozinha familiar, um número de telefone sabido de cor, uma canção que todos conseguem cantar sem olhar para a letra.

À medida que as gerações mais novas se afogam em escolhas e notificações, há um conforto estranho em ver alguém de setenta e tal anos a descascar uma laranja num banco de jardim, a comer devagar, a observar pombos como se fosse o uso mais natural do tempo. Os hábitos deles não são um programa para copiar linha a linha. São um lembrete de que a felicidade muitas vezes se esconde nas coisas que já sabemos fazer, mas continuamos a adiar.

Pergunte a si mesmo quais destes hábitos dos mais velhos inveja em segredo. O almoço semanal. As longas caminhadas. A capacidade de pousar o telemóvel durante uma tarde inteira sem sentir vibrações fantasma no bolso.

Não precisa de esperar que o cabelo fique grisalho para os pedir emprestados.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Hábitos como âncoras Rotinas simples como caminhadas, listas e encontros semanais criam estrutura e segurança emocional. Dá ideias para estabilizar os seus dias sem mais apps.
Presença de baixa tecnologia As gerações mais velhas mantêm frequentemente janelas sem ecrãs e rituais sociais. Mostra como recuperar atenção e profundidade nas relações.
Alegria teimosa e realista Décadas de experiência transformam pequenas acções em fontes de significado. Ajuda a reenquadrar a felicidade como prática diária, não como um objectivo distante.

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Quais são os nove hábitos que as pessoas mais velhas costumam manter? Movimento leve e regular, listas manuscritas, compromissos sociais semanais fixos, refeições partilhadas, janelas sem ecrãs, contar histórias, escutar sem multitarefa, pequenas tarefas criativas ou práticas (horta, tricô, bricolage), e rituais simples de descanso.
  • Tenho de copiar a rotina deles exactamente para me sentir mais feliz? Não. Comece por “roubar” um ou dois hábitos que lhe pareçam naturais e repita-os de forma consistente, em vez de perseguir uma rotina perfeita.
  • Como crio tempo “sem telemóvel” se o meu trabalho é online? Proteja blocos curtos e claros: durante as refeições, nos primeiros 20 minutos após acordar, ou nos últimos 30 minutos antes de dormir, e mantenha o telemóvel noutra divisão nesses períodos.
  • E se os meus amigos não estiverem interessados em encontros regulares? Comece com uma pessoa que esteja disponível, sugira uma data simples e repetida (mesmo café, mesma hora) e trate-a como não negociável durante algumas semanas para se tornar normal.
  • Pequenos hábitos podem mesmo competir com apps de saúde mental? As apps podem ajudar, mas rituais offline incorporados e relações estáveis estão fortemente associados ao bem-estar a longo prazo e são mais fáceis de sustentar ao longo da vida.

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