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Nunca deves fazer cócegas a uma criança que não está a rir, pois o reflexo de se mexer pode ser confundido com diversão.

Pai e filho a brincar no tapete, dando uma "high five", com brinquedos e livros ao redor.

Um pai inclinou-se sobre o sofá, mexendo os dedos em direção às costelas da filha. Ela contorceu-se para o lado, com as pernas a pontapear, o rosto a ficar vermelho. Toda a gente rebentou a rir. Ela não. Tinha os olhos muito abertos, a boca entreaberta, mas não saía som nenhum. Por um segundo, a expressão parecia mais pânico do que alegria. Depois passou, engolida pela cena, e alguém mandou uma piada. O momento dissolveu-se no ruído da tarde.

Mais tarde, quando a casa estava silenciosa, a menina disse à mãe, numa voz muito baixinha: “Não gosto quando ele me faz cócegas. Faz-me sentir presa.” A mãe hesitou. “Mas tu estavas a contorcer-te e a guinchar. Pensámos que adoravas.” Essa é a armadilha. Achamos que estamos a ver diversão. Talvez estejamos a ver alguém a congelar.

Quando contorcer-se não é alegria

As cócegas parecem riso. Os corpos agitam-se, as mãos tentam afastar os dedos, as crianças rebolam no chão como se não se fartassem. Visto de fora, grita “brincadeira”. Visto de dentro, pode parecer perda de controlo. Algumas crianças gostam genuinamente de cócegas breves e previsíveis. Outras vivem-nas quase como um mini ataque de pânico. O reflexo de se contorcer é automático, não é um sinal de consentimento.

É aí que entra o mal-entendido. Os adultos interpretam movimento como entusiasmo. Vêem uma criança a torcer-se ou a dar pontapés e pensam: “Olha, está a divertir-se imenso.” O corpo está apenas a reagir a sobrecarga. Os nervos disparam, o cérebro fica inundado, e a criança pode nem conseguir formar a palavra “pára” naquele momento. O espectáculo parece alegre. O sistema nervoso discorda.

Fale com adultos sobre cócegas na infância e as histórias jorram. Uma mulher na casa dos trinta lembra-se de ter sido imobilizada por primos e “torturada com cócegas” até fazer xixi. Toda a gente ria. Ela também ria, mas só porque não conseguia respirar o suficiente para gritar. Um pai recorda um tio que “ia sempre longe demais” em encontros de família; ainda hoje fica tenso quando alguém lhe estende a mão para os lados. Não são excepções raras. Vários pequenos inquéritos a adultos referem que uma larga maioria não gostava de cócegas em criança, ou sentia que muitas vezes duravam demasiado.

A maior parte das pessoas não disse nada. Pensavam que o problema eram elas, não a brincadeira. “Devo ser demasiado sensível. Tenho é de relaxar.” Algumas dessas pessoas são hoje pais e repetem o mesmo guião por hábito. Não por maldade, mas porque as cócegas estão codificadas na nossa cultura como leves, parvas, inofensivas. Tratamos o corpo das crianças como um adereço numa cena cómica. O punchline é a reacção delas, não o conforto delas.

Biologicamente, as cócegas ocupam um espaço estranho entre prazer e alarme. As zonas mais “cosquinhentas” - costelas, axilas, pescoço, pés - são também áreas que o corpo protege em situação de perigo. Tocá-las rapidamente pode enviar um sinal misto ao cérebro: “Isto é brincadeira” e “Isto pode ser uma ameaça” ao mesmo tempo. O sistema nervoso reage com uma enxurrada de respostas involuntárias: riso, solavancos, contorções, falta de ar. Nenhuma delas prova que a criança esteja a gostar.

Esse reflexo é precisamente o motivo por que tanta gente confunde aflição com deleite. O riso sob cócegas é menos como ouvir uma grande piada e mais como espirrar quando o pó entra no nariz. Sai quer se queira quer não. Quando a criança não está já a rir, quando a cara está tensa, quando o corpo enrijece em vez de se inclinar para a frente, isso é um sinal de alerta. O reflexo de se contorcer está a ser lido como luz verde.

Como transformar a brincadeira em consentimento real, e não em reflexo

Há uma regra simples que muda tudo: cócegas só são ok se a criança já estiver a rir e a convidar claramente. Isso significa que ela está a rir antes mesmo de as mãos pousarem, que pede “outra vez!”, que é ela quem começa o jogo. Se é você que arranca do silêncio, não está a responder à alegria: está a testar limites.

A forma mais segura é criar pequenos rituais. Pergunte primeiro: “Queres cócegas ou só um abraço?” Diga de forma casual, como quem oferece um lanche. Se disser não, respeite imediatamente, sem revirar os olhos nem gozar. Se disser sim, faça pouco tempo: dois ou três segundos, depois pare e confirme. “Mais ou pára?” E deixe que a resposta decida mesmo o que acontece a seguir. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas nos dias em que faz, a mensagem fica.

Muitos adultos caem num erro comum: acham que “pára” faz parte do jogo. Viram crianças a gritar “nããão!” a rir em desenhos animados, ou lembram-se das suas próprias “guerras de cócegas” em que protestar era metade da graça. Então, quando uma criança diz “pára”, ouvem “continua, isto é hilariante”. Não é só uma leitura errada. É um treino para ignorar o próprio desconforto.

Outra armadilha é usar as cócegas como atalho para a ligação. Teve um dia longo, as crianças estão inquietas, está cansado de ecrãs, e lança um ataque de cócegas para criar proximidade instantânea. À superfície resulta: barulho, risos, contacto. Por baixo, tem um custo se a criança não estiver totalmente de acordo. Numa noite cansativa, uma massagem nas costas ou deitar-se lado a lado no tapete pode ser tão vinculado quanto, sem empurrar o sistema nervoso para o limite.

Há uma revolução silenciosa na forma como alguns pais falam sobre cócegas. Terapeutas infantis, especialistas em trauma e educadores repetem uma ideia semelhante:

“As cócegas devem ser a primeira coisa a parar quando a criança está insegura, não a última.”

Esta mudança parece pequena. Não é. Diz à criança: “O teu corpo é teu, mesmo na brincadeira.” Diz ao adulto: “O teu trabalho é ler o ambiente, não o reflexo.”

  • Mantenha as cócegas lideradas pela criança: ela começa, ela conduz, ela pára.
  • Observe a cara, não apenas o som: olhos muito abertos e rigidez significam recuar.
  • Use palavras: pergunte antes, confirme durante, e faça balanço depois (“Foi divertido ou foi demais?”).
  • Normalize o “não”: trate-o como informação, não como piada.
  • Ofereça outros jogos: apanhada, cabanas de almofadas, caretas, dançar na cozinha.

Deixar as crianças serem donas do seu riso - e do seu “não”

Quando começa a prestar atenção, vê o padrão em todo o lado. Um bebé/toddler imobilizado num sofá por três primos mais velhos. Um menino a contorcer-se sob as mãos do avô, olhar vidrado, adultos a filmar com o telemóvel. Uma rapariga numa festa do pijama, obrigada a “ganhar” inclusão sobrevivendo a uma ronda de cócegas. Nada disto parece malévolo para quem o faz. Parece tradição. Para a criança, parece mais uma forma de o seu “não” não contar a sério.

Mudar este padrão não exige uma cruzada. Começa com gestos pequenos, quase invisíveis. Faz uma pausa antes de enfiar os dedos. Pergunta: “Queres cócegas ou um abraço?” Respeita um abanar de cabeça sem suspirar nem ficar ofendido. Com o tempo, a criança aprende que o seu corpo é um lugar onde a sua opinião importa. Essa lição viaja. Aparece na forma como lida com jogos no recreio, como responde a brincadeiras mais brutas, como fala quando algo parece errado.

Isto não é só sobre cócegas. É sobre reescrever quem tem o direito de “ler o guião” do corpo de outra pessoa. Quando pára de fazer cócegas a uma criança que não está a rir, está a dizer: o teu silêncio não é consentimento, as tuas contorções não são uma punchline, o teu conforto não é negociável. Parece pesado para um jogo leve. Mas é precisamente daí que vem a leveza. A brincadeira só é realmente livre quando toda a gente sabe que pode sair a qualquer momento, sem precisar de dar explicações.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Contorcer-se não é consentimento Reflexos físicos durante as cócegas imitam alegria, mas podem mascarar aflição Ajuda a não confundir reacção automática com prazer real
Pergunte antes de fazer cócegas Pequenas verificações verbais transformam as cócegas numa escolha, não numa surpresa Oferece um método concreto para respeitar o corpo da criança
Normalize o “não” na brincadeira Parar imediatamente quando pedido ensina que os limites da criança importam Reforça a confiança e a segurança emocional na relação

FAQ

  • Como posso perceber se o meu filho está mesmo a gostar de cócegas? Olhe para além do barulho. Uma criança que gosta normalmente inicia, inclina-se para a brincadeira, pede “outra vez” e relaxa rapidamente a seguir. Uma criança que apenas aguenta tende a enrijecer, virar a cara para o lado, ficar quieta entre acessos ou evitá-lo mais tarde.
  • Todas as cócegas fazem mal às crianças? Não. Cócegas breves, lideradas pela criança e com consentimento podem fazer parte de uma brincadeira carinhosa e disparatada. O problema começa quando são surpresa, duram demasiado, ignoram o “pára” ou são feitas a uma criança que não está já visivelmente confortável.
  • O que devo fazer se perceber que no passado fui longe demais? Diga-o em voz alta. Um simples “Olha, acho que eu antes te fazia cócegas demais. Desculpa se alguma vez isso te fez sentir mal. A partir de agora, tu é que mandas no teu corpo” pode ser muito forte. As crianças raramente ouvem adultos assumir erros sobre toque.
  • Como pedir a familiares para pararem com cócegas indesejadas? Mantenha a calma e seja claro: “Estamos a ensinar-lhe a ouvir o corpo dela, por isso vamos parar com as cócegas a menos que ela peça.” Repita as vezes que forem necessárias. Não está a acusar; está a actualizar as regras do jogo.
  • O que posso fazer em vez de cócegas para me ligar ao meu filho? Experimente brincadeira física que eles controlem: cavalitas, luta suave em que eles possam “ganhar”, dançar, jogos de perseguição, ou proximidade simples como escovar o cabelo e massagens às mãos. A ligação não precisa de riso forçado. Precisa de presença.

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