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Outro peixe antes ignorado por ser considerado “dos pobres” está a tornar-se popular no Brasil graças à sua segurança, preço acessível e ótimos benefícios nutricionais.

Pessoa prepara peixe numa tábua com limões cortados e arroz na bancada da cozinha.

À Belém, numa manhã de terça-feira, a cena repete-se: a banca do salmão está vazia, o camarão exibe preços quase arrogantes. Depois, ao lado, forma-se uma pequena fila diante de alguidares com um peixe durante muito tempo desprezado, o jaraqui, outrora apelidado de “o peixe dos pobres”.

Os clientes já não o pedem a meia-voz. Pedem-no em voz alta, pedem conselhos de confeção, comparam preços no telemóvel. Uma mulher chega mesmo a tirar uma folha impressa sobre ómega-3.

O vendedor sorri, um pouco surpreendido com o seu novo estatuto de estrela do mercado. O cheiro a fritos vem da barraca ao lado. E uma pergunta impõe-se ao olhar para estes cestos cheios de “peixe dos pobres”: e se fosse ele, afinal, o verdadeiro luxo escondido do momento?

Do “peixe dos pobres” a herói discreto nos pratos brasileiros

À beira do Rio Negro, em Manaus, o jaraqui nada em cardumes tão gigantescos que os pescadores dizem que se podia andar por cima deles. Durante anos, este peixe abundante, cheio de espinhas, foi sinónimo de refeição do dia a dia para quem não tinha alternativa.

Nas ementas dos restaurantes chiques, destacava-se sobretudo pela ausência. Preferia-se o tambaqui, o pirarucu ou o salmão importado, mais “instagramáveis”. O jaraqui ficava confinado às mesas de plástico, à cerveja bem fresca e aos pratos de metal amolgados.

Essa imagem começa a estalar. Perante a escalada dos preços e o regresso em força à cozinha caseira, os brasileiros olham de outra forma para este antigo mal-amado. E, de repente, as expressões “bom para a saúde” e “bom para a carteira” aparecem na mesma frase.

No Rio, um estudo do Observatório do Consumo Alimentar mostrou que o orçamento médio dedicado ao peixe subiu perto de 30% em cinco anos em alguns agregados familiares. As famílias urbanas ficam presas entre a vontade de comer “leve” e a realidade do talão.

Nas redes sociais, uma nova vaga de receitas “Low cost, high protein” ganha terreno. Por trás de muitos destes vídeos, surge o mesmo herói discreto: sardinha, manjuba, jaraqui e outros pequenos peixes azuis, durante muito tempo relegados para segundo plano.

Na região Norte, algumas cantinas escolares começaram até a recolocar estas espécies locais no menu, após campanhas de sensibilização sobre a sua qualidade nutricional. As crianças aprendem a reconhecê-los, a comê-los sem medo das espinhas, a nomeá-los sem vergonha. E um alimento passa, lentamente, do registo da sobrevivência para o do orgulho.

Se esta viragem está em curso, é também porque a narrativa em torno do peixe mudou. Durante muito tempo, a modernidade foi associada à carne vermelha, ao frango industrial, à facilidade de uma bandeja em plástico.

Perante as preocupações com hormonas, ambiente e obesidade, parte da classe média brasileira volta a olhar para a água. Mas não para qualquer água. Os peixes de rio, modestos e locais, tranquilizam tanto quanto alimentam.

Os nutricionistas repetem os mesmos argumentos: proteínas completas, ácidos gordos, minerais, saciedade duradoura. Só que, desta vez, não se trata de salmão norueguês caríssimo, mas de um peixe que a avó de Manaus já limpava num lava-loiça de cimento. O futuro reconcilia-se com a memória.

Como os brasileiros estão a cozinhar em casa o “novo velho” peixe

O renascimento destes peixes “de pobres” passa por um gesto muito concreto: aprender a dominá-los na cozinha. Em São Paulo, a chef Mariana, natural da Amazónia, construiu a sua reputação com um prato simples: jaraqui frito, farofa de mandioca, lima generosa.

Ela mostra aos clientes como fazer incisões diagonais no peixe, quase até à espinha central, de 5 em 5 milímetros. Este gesto, repetido de um lado e do outro, parte as espinhas pequenas e torna-as quase impercetíveis ao comer.

Nos grupos de WhatsApp do bairro, circulam tutoriais: mergulhar o peixe numa mistura de alho, sal, sumo de lima e algumas gotas de vinagre. Depois, passar por farinha de mandioca ou de trigo e fritar em óleo bem quente. Simples, quase rústico. Irresistível.

Muita gente ficou desconfiada por causa de rumores sobre contaminação dos peixes na Amazónia. As manchetes alarmistas sobre mercúrio, intoxicações e barragens deixaram uma marca duradoura.

Investigadores da Universidade Federal do Pará explicam que nem tudo é igual. Os grandes predadores, no topo da cadeia alimentar, acumulam mais metais pesados. Já os pequenos peixes herbívoros ou planctívoros apresentam níveis muito mais baixos.

São precisamente estas espécies, durante muito tempo consideradas “demasiado comuns”, que voltam em força aos cestos. Falar com clareza ajuda a ultrapassar o medo. Quando se percebe que escolher um peixe pequeno, local e bem manuseado pode ser mais seguro do que um filete importado de origem incerta, a desconfiança recua.

Nos supermercados de Recife ou Salvador, começam a aparecer etiquetas mais precisas: local de pesca, método de captura, congelação rápida. A mensagem é clara: a transparência passa a ser um argumento de venda.

As famílias que já não cozinhavam peixe inteiro há anos voltam a comprar peças com cabeça, pele e cauda. Dá um pouco mais trabalho. Exige também reaprender gestos perdidos.

Os benefícios são muito concretos: peixe mais fresco, menos processado, preço por quilo mais baixo e densidade nutricional interessante. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas uma ou duas vezes por semana pode mudar tudo no equilíbrio do prato.

Impacto nutricional, preço pequeno: porque este peixe de repente faz sentido

Os números são teimosos. Um filete de pequeno peixe de rio fornece cerca de 18 a 20 g de proteína por 100 g, com ómega-3 em quantidade respeitável. Sem falar do cálcio, sobretudo quando se comem as espinhas pequenas amolecidas pela confeção.

Para muitos lares, é uma descoberta importante: um alimento saciante, que “sustenta”, com poucas gorduras saturadas. E um preço que, muitas vezes, continua inferior ao do frango, dependendo da região e da época.

Os nutricionistas insistem num ponto muitas vezes esquecido: a regularidade conta mais do que a perfeição. Comer um “peixe humilde” duas vezes por semana faz mais pela saúde cardíaca do que comer salmão selvagem uma vez de seis em seis meses.

Esta redescoberta passa por uma pequena revolução mental. É preciso ousar pôr na mesa um alimento ainda associado à pobreza, mesmo quando ele cumpre todos os critérios da cozinha “moderna”: local, pouco processado, nutritivo, relativamente sustentável.

Uma mãe de Vila Velha conta que, ao início, os filhos troçavam do “peixe de rio que pica”. Queriam nuggets, “douradinhos de peixe” industriais, sem espinhas nem histórias.

À força de pequenas vitórias - uma fritura bem dourada aqui, um peixe em molho de tomate ali -, a resistência diminuiu. Hoje, são as crianças que pedem “o peixe estaladiço de sexta-feira”. E a mãe, em silêncio, faz as contas ao que poupa todos os meses.

Um nutricionista de São Luís resume esta mudança de olhar com uma frase certeira:

“O peixe dos pobres é muitas vezes o superalimento de quem pensa.”

Ele lembra que o essencial é a diversidade: variar as espécies, os modos de confeção, acompanhar com legumes, mandioca, arroz integral. O “peixe dos pobres” torna-se um eixo, não um totem.

Para se orientar nesta nova cartografia do bom senso, alguns pontos práticos ajudam:

  • Privilegiar peixes pequenos ou médios, de rio ou costeiros, claramente identificados na etiqueta.
  • Alternar fritura e confeção no forno ou em caldo para manter o equilíbrio.
  • Observar o peixe: olho límpido, carne firme, cheiro a mar ou a rio, nunca a amoníaco.
Ponto-chave Detalhes Porque importa aos leitores
O custo por refeição é drasticamente mais baixo Em muitas cidades do Norte, um quilo de jaraqui ou de pequenos peixes de rio semelhantes custa 30–50% menos do que frango de criação e até 70% menos do que salmão importado, alimentando generosamente uma família de quatro. Ajuda a esticar um orçamento apertado sem voltar a produtos ultraprocessados que deixam toda a gente com fome duas horas depois.
Boa combinação de proteína e ómega-3 Uma porção de 120 g fornece tipicamente cerca de 22–24 g de proteína e uma dose relevante de ómega-3, com muito menos calorias do que a carne vermelha e quase sem aditivos. Apoia a saúde cardíaca, a saciedade e a manutenção muscular, sobretudo em crianças, idosos e quem tenta comer “mais leve” sem sentir castigo.
A origem local tende a ser mais segura e mais fresca O peixe capturado em rios e zonas costeiras próximas é muitas vezes vendido em 24–48 horas, com rotulagem de origem mais clara e melhor rastreabilidade através de mercados e cooperativas locais. Reduz preocupações com contaminantes escondidos ou cadeias de abastecimento longas e opacas, ao mesmo tempo que devolve dinheiro às comunidades piscatórias da região.

Quando se olha para esta história com alguma distância, ela vai muito além da simples questão do peixe. Toca na vergonha social, no olhar dos outros sobre aquilo que comemos, e na forma como ainda associamos frequentemente qualidade a preço alto.

O regresso ao prestígio do “peixe dos pobres” diz algo sobre um país que reaprende a trabalhar com o que tem à mão. Não por resignação, mas por inteligência. Os chefs elevam-no, as mães reinventam-no, os mercados devolvem-lhe o lugar.

Entre o medo de tóxicos, os preços a disparar e o cansaço dos produtos demasiado industriais, muitos brasileiros procuram um caminho intermédio. Este pequeno peixe esquecido encaixa aí quase naturalmente. Sem marketing sofisticado, sem rótulos vistosos.

Pode ver-se como um regresso ao passado. Pode ver-se também como um passo em direção ao futuro: uma alimentação mais enraizada, mais humilde, menos dependente de um punhado de espécies globalizadas. E tudo se decide num gesto muito simples e muito concreto: escolher um peixe inteiro, comum, e tratá-lo como um tesouro diário para partilhar.

FAQ

  • O “peixe dos pobres” é mesmo seguro para comer no Brasil?
    Para a maioria das espécies pequenas de rio e costeiras vendidas em mercados regulados, os dados atuais mostram níveis de contaminantes bem dentro dos limites de segurança, sobretudo quando comparados com grandes peixes predadores. Comprar em bancas com muita rotatividade e verificar as etiquetas de origem acrescenta uma camada extra de proteção.
  • Como lidar com tantas espinhas pequenas?
    Muitos cozinheiros caseiros usam o método dos “cortes” (scoring): fazer cortes diagonais profundos ao longo dos dois lados do peixe antes de fritar ou assar. Isto parte as espinhas finas, que amolecem durante a confeção e se tornam quase impercetíveis ao comer.
  • Este tipo de peixe substitui mesmo opções mais caras do ponto de vista nutricional?
    Não iguala o salmão grama por grama em ómega-3, mas oferece uma mistura muito sólida de proteína, gorduras benéficas, cálcio e micronutrientes. Consumido com regularidade, entrega a maior parte dos benefícios que as pessoas esperam de peixes mais caros, por uma fração do custo.
  • Com que frequência uma família deve incluir estes peixes nas refeições?
    Muitos nutricionistas brasileiros sugerem apontar para duas refeições com peixe por semana. Isso pode significar um jaraqui frito simples num dia e um ensopado ou sopa de peixe noutro, integrado de forma natural no que a família já gosta de comer.
  • Qual é a forma mais fácil de começar se os meus filhos não gostam de peixe?
    Comece com preparações estaladiças, bem temperadas e em pequenas porções, servidas com acompanhamentos familiares como arroz, feijão ou puré de mandioca. Deixe as crianças escolherem os pedaços de que gostam, sem pressão nem drama, e introduza gradualmente outras texturas e molhos.

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