A apreciação chega-te aos ouvidos antes de o teu cérebro ter tempo de se preparar. “Estás com ótimo aspeto hoje”, diz um colega no corredor, ou “Aquela apresentação foi brilhante”, acrescenta a tua chefia com um sorriso caloroso. A tua boca reage mais depressa do que o teu coração: “Oh, não foi nada”, “Tive sorte”, “Isto? Já é velho.” Sentes a cara a aquecer, os ombros a ficarem um pouco tensos, e uma mistura estranha de orgulho e culpa a revolver o estômago. Querias sentir-te feliz. Só te sentes… exposto(a).
À superfície, é um gesto social tão pequeno. Uma frase, poucos segundos, um instante fugaz. Ainda assim, pode desencadear um mini sismo por dentro - como se alguém tivesse apontado uma lanterna para partes de ti que preferiam ficar no escuro.
Porque é que algo tão simples como “obrigado(a)” se torna, de repente, tão difícil de dizer?
Porque é que um simples “obrigado(a)” parece como subir a um palco
Para muitas pessoas, aceitar um elogio não é um momento suave e agradável. Parece mais como ser apanhado(a) a fazer algo errado. O teu sistema nervoso comporta-se como se estivesses a ser julgado(a), não elogiado(a). A tua mente apressa-se a explicar porque é que o elogio não é realmente merecido, enquanto a outra pessoa fica ali, um pouco confusa, a estender-te o seu presente verbal.
Já todos passámos por isso: alguém elogia o teu trabalho, o teu corpo, o teu talento, e tu instintivamente encolhes. Ficas mais pequeno(a). Desvalorizas. Desvias a luz para longe de ti, como se fosse demasiado forte, demasiado pública, demasiado perigosa.
Um elogio supostamente é uma pequena alegria. Para muitos de nós, é um pequeno teste emocional.
Pensa num cenário clássico de escritório. Ficas até tarde para polir um relatório: confirmas os números duas vezes, reescreves frases até soarem certeiras. No dia seguinte, a tua chefia diz à frente da equipa: “Esse relatório estava excelente, elevaste mesmo a fasquia.”
Em teoria, este é o teu momento. Na realidade, a tua mente passa um slideshow rápido: o erro tipográfico na página 3, o gráfico que quase estragaste, a altura em que te sentiste uma fraude num emprego anterior. Em vez de “Obrigado(a), estou orgulhoso(a)”, sai-te: “Oh, não foi assim tão difícil, só segui o modelo.”
Mais tarde, no silêncio da tua cozinha, repetes a cena na cabeça. Sabes que trabalhaste muito. Sabes que teve impacto. E, no entanto, a ideia de assumir essa excelência pareceu estranhamente perigosa - como se, ao relaxares nela, fosses exposto(a) como arrogante.
Os psicólogos falam de “crenças de merecimento” - as conclusões profundas, muitas vezes invisíveis, que tiramos sobre aquilo que merecemos. Se uma parte de ti aprendeu que o amor, a aprovação ou o sucesso têm sempre de ser conquistados e nunca simplesmente recebidos, um elogio choca com o teu livro interno de regras. O teu sistema entra em alerta: “Cuidado, isto é demais. Ainda não fizeste o suficiente para merecer.”
Por isso, em vez de deixares o elogio assentar, afastas-te dele com auto-depreciação, distração ou negação rápida. O elogio bate nas tuas defesas, não no teu coração. Com o tempo, isto torna-se um reflexo, quase um traço de personalidade: o minimizador crónico, aquele(a) que não consegue dizer “obrigado(a)” sem acrescentar uma piada autocrítica.
O desconforto não é aleatório; são as tuas crenças a tentar manter viva uma história antiga.
Como as crenças de merecimento sabotam, em silêncio, a gratidão simples
Uma pequena mudança pode alterar toda a experiência de receber um elogio. Antes de responderes, faz uma pausa de uma só respiração. Sente a vontade de desviar, brincar ou justificar. Depois experimenta um guião simples: “Obrigado(a), isso significa muito.” Ou “Obrigado(a), eu pus mesmo muito cuidado nisso.” Ao início, as palavras parecem estranhas - como um par de sapatos novos em que não sabes se consegues andar.
Esta micro-pausa não é apenas boa educação. É um pequeno ato de rebeldia contra uma voz interna que diz que tens de te manter pequeno(a). Ao sustentares o momento, estás a dizer ao teu sistema nervoso: “Estamos seguros. Ser visto(a) é permitido.” Com o tempo, este breve intervalo entre elogio e resposta pode tornar-se um campo de treino onde as tuas crenças de merecimento começam, lentamente, a perder força.
Não estás a fingir confiança. Estás a praticar consentimento para seres valorizado(a).
Há uma armadilha comum em que muitos caímos quando começamos a trabalhar isto. Achamos que temos de passar, de repente, a amar-nos incondicionalmente e a aceitar todos os elogios com uma confiança luminosa, pronta para o Instagram. Essa pressão corre mal: notas que ainda estás desconfortável e depois julgas-te por estares desconfortável. Vergonha a dobrar.
Sejamos honestos: ninguém faz isto, mesmo, todos os dias. Alguns elogios vão continuar a parecer estranhos. Podes ainda murmurar ou explicar demais. O objetivo não é a perfeição, é uma honestidade mais gentil. Uma resposta como: “Obrigado(a), estou a aprender a aceitar elogios, por isso posso parecer um bocado atrapalhado(a) agora”, é muito mais humana e curativa do que um “Obrigado(a), eu sei!” forçado e demasiado brilhante.
Quanto mais permitires a tua fase confusa, a meio caminho, mais a tua sensação de valor pode crescer de forma autêntica. Não como uma performance, mas como uma realidade silenciosa e vivida.
Há uma camada mais profunda por baixo destas reações: as histórias que absorveste sobre modéstia, orgulho e que tipo de pessoa “merece” elogio. Talvez te tenham dito em criança para não “te armares”. Talvez os elogios fossem raros, condicionais, ou viessem sempre seguidos de crítica. O teu sistema nervoso aprendeu que a visibilidade é arriscada. Por isso, quando alguém diz “Tens talento”, não ouves um facto. Ouves uma ameaça ao teu sentido de pertença.
As crenças de merecimento funcionam como filtros. Um elogio neutro passa por elas e sai distorcido: “Estão só a ser simpáticos”, “Não veem quem eu realmente sou”, “Se soubessem a verdade, tiravam o que disseram.” A realidade externa (alguém apreciar-te genuinamente) nunca chega por completo ao teu mundo interno. É como se a ponte entre os dois estivesse partida.
Reparar essa ponte é um trabalho lento, mas muitas vezes começa com uma frase muito normal, muito humana: “Reparo que isto me custa, e talvez isso diga mais sobre as minhas histórias antigas do que sobre este elogio.”
Praticar receber: pequenos rituais que reformulam a tua história interna
Uma forma prática de treinar o cérebro a aceitar elogios é tratá-los como pequenos presentes verbais que estás a aprender a desembrulhar. Começa com um ritual simples. Quando alguém te elogiar, faz três passos: pausa, respira uma vez, faz contacto visual se possível. Depois responde com uma linha que reconheça tanto o elogio como o teu esforço: “Obrigado(a), ainda bem que se notou”, ou “Obrigado(a), trabalhei nisso.”
Elogios escritos também contam. Quando receberes uma mensagem simpática, resiste ao impulso de ler por alto e fechar. Lê duas vezes. Deixa as palavras ficar um pouco mais do que é confortável. Isto não é sobre alimentar o ego. É treino. Estás a esticar, com cuidado, um músculo que esteve subutilizado durante anos. Com repetição, o desconforto pode passar de agudo a suave, de ameaça a ligeiro incómodo e, um dia, a uma tranquilidade discreta.
Receber começa a parecer menos como “roubar atenção” e mais como partilhar um momento humano.
Um erro frequente é tentar “consertar” o teu merecimento em isolamento, como se pudesses reescrever décadas de crenças internas apenas com afirmações ao espelho. Isso pode ajudar, mas os elogios existem na relação. Vivem no espaço entre ti e outra pessoa. Quando os afastas sempre, não estás só a proteger-te. Estás também a rejeitar a experiência de quem dá.
Pensa na última vez que disseste a um(a) amigo(a): “Estás linda(o)”, e ele(a) respondeu de imediato: “Não, estou horrível hoje.” Abriu-se uma pequena desconexão entre a tua realidade e a dele(a). Essa mesma desconexão acontece quando não consegues receber reconhecimento. Com o tempo, pode tornar a proximidade mais difícil.
Por isso, em vez de te obsesses com a forma como pareces, podes deslocar ligeiramente o foco: como queres que a outra pessoa se sinta quando partilha contigo algo bondoso. Muitas vezes, um simples e centrado “Obrigado(a), agradeço por dizeres isso”, respeita tanto o teu desconforto como a generosidade dela.
Às vezes, a coisa mais corajosa que podes fazer não é brilhar mais, mas parar de apagar a luz que outra pessoa te está a tentar entregar.
Reconhecimento gentil
Mantém uma pequena nota no telemóvel onde apuntas, palavra por palavra, os elogios que recebes - sem comentários. Não é gabarolice, é informação.Respostas específicas
Treina duas ou três frases “de recurso” como “Obrigado(a), isso dá-me ânimo” ou “Fico contente por ter ressoado contigo.” Frases ensaiadas ajudam em momentos de ansiedade.Verificação corporal
Depois de um elogio, repara numa sensação física: peito apertado, bochechas quentes, maxilar tenso. A curiosidade quebra o ciclo automático de vergonha.Partilha o mérito sem te apagares
“Se gostaste desse projeto, a equipa foi incrível também. E eu estou orgulhoso(a) da minha parte nele.” Isto equilibra humildade e autorrespeito.Prática com uma pessoa segura
Pede a um(a) amigo(a) de confiança que te faça um elogio real uma vez por semana. O teu único trabalho: respirar, ouvir e dizer “Obrigado(a)” sem pedir desculpa nem explicar.
Deixar o elogio entrar sem te perderes
Por baixo de tudo isto há uma pergunta silenciosa e desconcertante: quem és tu quando já não és definido(a) pela tua autocrítica. Se deixares de rejeitar elogios, se te permitires ser visto(a) como capaz, atraente, gentil - então o quê. Às vezes, o medo não é da arrogância, mas do território desconhecido. Vestiste o disfarce do “não chega” durante tanto tempo que andar sem ele parece quase como estar nu(a).
Não tens de saltar de “Sou péssimo(a) a receber” para “Sou infinitamente merecedor(a)” de um dia para o outro. Podes viver durante algum tempo na zona intermédia: “Ainda duvido de mim, e estou disposto(a) a considerar que estas pessoas possam estar a ver algo real em mim.” Essa pequena fissura na certeza é por onde a mudança se infiltra.
Da próxima vez que alguém te elogiar, repara na narrativa que surge: “Se eles soubessem mesmo como eu sou…” ou “Estão a exagerar…” Depois, por um segundo, imagina o contrário: e se não estiverem errados. E se o verdadeiro alongamento não for tornar-te alguém novo, mas finalmente permitir-te notar quem tens sido, em silêncio, desde sempre.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O desconforto com elogios tem raízes | O embaraço muitas vezes vem de crenças antigas de merecimento e de mensagens familiares ou culturais sobre modéstia | Reduz a auto-culpabilização e enquadra a reação como aprendida, não como defeito pessoal |
| Micro-pausas mudam o guião | Usar uma respiração e frases simples como “Obrigado(a), isso significa muito” cria um novo ciclo de hábito | Dá uma ferramenta imediatamente utilizável para responder de forma diferente em conversas reais |
| Receber é relacional | Aceitar elogios honra tanto o teu esforço como a experiência de quem dá | Ajuda a aprofundar ligações e reduz a culpa por “ocupar espaço” |
FAQ:
Porque é que fico quase ansioso(a) quando alguém me elogia?
Essa onda de ansiedade muitas vezes vem do teu sistema nervoso tratar os elogios como um holofote e uma ameaça potencial. Ativam-se crenças antigas de não ser “suficiente” ou o medo de seres julgado(a) como arrogante, e o corpo reage como se precisasse de se defender ou fugir.Desviar elogios é sinal de baixa autoestima?
Nem sempre, mas pode indicar autoestima frágil ou regras rígidas sobre modéstia. Algumas pessoas muito competentes continuam a ter dificuldade em lidar com elogios porque os seus padrões internos são impossivelmente elevados - não porque estejam realmente a falhar.Como posso responder se genuinamente não concordo com um elogio?
Podes honrar a perspetiva da outra pessoa sem concordares totalmente. Experimenta: “Obrigado(a), eu nem sempre me vejo assim, mas agradeço por dizeres isso.” Mantém a ligação e continua honesto(a).Aceitar elogios não me fará parecer arrogante?
A arrogância costuma vir de te engrandeceres à custa dos outros, não de reconheceres calmamente o teu esforço. Um simples “Obrigado(a), trabalhei muito nisso” soa, para a maioria das pessoas, centrado e não vaidoso.Consigo mesmo mudar a minha reação automática a elogios?
Sim, com repetição e pequenas experiências. Treinar respostas curtas e preparadas, reparar nos sinais do corpo e refletir sobre as tuas crenças de merecimento vai, gradualmente, reprogramando o teu padrão ao longo de semanas e meses.
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