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Porque muitos adultos que nunca ouviram “amo-te” em crianças partilham traços emocionais semelhantes.

Pai e filho desenham num álbum numa cozinha bem iluminada. Há uma caneca e um frasco em cima da mesa.

No meio do ruído, uma mulher na casa dos trinta vê a irmã dizer ao filho pequeno: “Gosto de ti, campeão. Muito.” As palavras caem-lhe de forma estranha no peito, quase como se fossem de outra pessoa. Ela nunca ouviu essa frase enquanto crescia - nem uma única vez. Os pais cuidavam à maneira deles - pagavam as contas, cozinhavam, apareciam - mas aquelas três palavras eram como uma língua que ninguém falava em casa.

Ela ri, ajuda a cortar o bolo, publica uma fotografia sorridente no Instagram. Por dentro, porém, há uma pergunta silenciosa que carrega para todo o lado: “Se ninguém alguma vez disse que gostava de mim, será que gostavam mesmo de mim?”
Essa pergunta muda tudo, sem fazer barulho.

Quando o “gosto de ti” falta, outra coisa ocupa o lugar

Muitos adultos que nunca ouviram “gosto de ti” em crianças entram em todas as salas com a mesma mochila invisível. Por fora, parecem funcionais, por vezes até muito competentes. Por dentro, existe uma mistura estranha de fome emocional e dormência. Muitas vezes estão hiper-atentos aos outros, a ler rostos, tons e pausas, a tentar decifrar o que as pessoas sentem mas não dizem.

Acabam por ler nas entrelinhas porque ninguém lhes leu as linhas. O afecto parece inseguro, os elogios parecem suspeitos. Podem brincar com o facto de serem “maus com sentimentos”, enquanto, em silêncio, desejam exactamente a ternura que lhes custa receber.

Veja-se o Mark, 42, que cresceu numa casa onde o amor significava trabalhar em dois empregos e nunca falar disso. O pai acreditava que pôr comida na mesa era prova suficiente. Sem abraços, sem “estou orgulhoso de ti”, sem “gosto de ti”. Apenas um aceno para o boletim, um grunhido à mesa, a televisão aos berros.

Hoje, o Mark é o colega que fica até tarde, resolve os problemas de toda a gente e nunca pede ajuda. As relações dele tendem a acabar com a mesma queixa: “Nunca soube o que estavas a sentir.” Ele não é frio; é fluente em fazer, não em dizer. Algures pelo caminho, aprendeu que as necessidades incomodam e que as palavras são opcionais.

Quando o amor nunca é nomeado, o cérebro constrói, em silêncio, um livro de regras. Amor é comida na mesa, boleias para os treinos, ninguém ir embora. Não são palavras. Não é suavidade. Expressar ternura pode parecer infantil ou arriscado, quase como mostrar uma ferida. Por isso, adultos criados assim partilham frequentemente alguns traços: grande desconforto com conversas emocionais, medo constante de serem “demasiado”, hábito de dar em excesso para merecer migalhas de tranquilização.

Podem ter dificuldade em acreditar em elogios, desvalorizar a própria dor, ou recorrer ao sarcasmo quando a intimidade se aproxima. A falta do “gosto de ti” não apaga o amor - distorce a forma como ele é entendido, dado e recebido.

Como reescrever lentamente esse velho guião emocional

Há uma forma prática de começar a sarar esta lacuna: criar um pequeno ritual diário à volta da linguagem emocional. Nada dramático. Um breve “check-in” consigo todos os dias, como quem vê a meteorologia. Pergunte: “O que é que estou a sentir agora?” Depois dê um nome e uma frase, mesmo que soe estranho: “Sinto-me tenso e um pouco sozinho.”

Escreva nas notas do telemóvel, murmure no duche, diga no carro. O objectivo é voltar a habituar o seu sistema nervoso à ideia de que os sentimentos podem ser ditos. A partir daí, pode experimentar uma frase mais segura, como “aprecio-te” ou “ainda bem que estás aqui”, antes de saltar directamente para “gosto de ti”. Pequenos passos contam.

Uma armadilha em que muita gente cai é tentar passar de silêncio emocional para hiper-vulnerabilidade de um dia para o outro. Vêem vídeos de terapia no TikTok e, de repente, querem ter uma conversa profunda de três horas com os pais ou com o/a parceiro/a. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Os “músculos” emocionais estão fracos; se os sobrecarregar depressa demais, ficam doridos.

Outro erro comum é envergonhar-se da forma como foi criado. Não estava “estragado” por não ouvir “gosto de ti”. Adaptou-se. Um caminho mais compassivo é ver os seus padrões antigos como estratégias de sobrevivência, não como defeitos de carácter. Essa perspectiva abranda o crítico interior o suficiente para tentar algo diferente - como ficar mais um pouco num momento vulnerável em vez de fazer uma piada.

Por vezes, o que desbloqueia a mudança é ouvir outra pessoa dar palavras a esta dor silenciosa.

“Eu sabia que os meus pais gostavam de mim”, disse-me um leitor, “mas sem as palavras, nunca aprendi a acreditar nisso no meu corpo.”

Essa frase acerta em cheio em muitos adultos que cresceram com cuidadores práticos, eficientes e emocionalmente distantes.

  • Frequentemente analisam em excesso mensagens e depois minimizam as próprias necessidades.
  • Podem parecer independentes, mas sentir-se secretamente substituíveis.
  • Confundem calma emocional com ausência emocional.
  • Pedem desculpa por chorar, mesmo quando ninguém se queixou.
  • Desejam tranquilização, mas sentem-se desconfortáveis a pedi-la.

Reconhecer-se nesta lista não é um diagnóstico; é um mapa. Uma forma de dizer “ah, é por isso que reajo assim”, em vez de “o que é que se passa comigo?”

Escolher palavras diferentes, para que a próxima geração ouça o que você não ouviu

Uma revolução silenciosa acontece quando adultos que nunca ouviram “gosto de ti” decidem que a corrente termina neles. Começam a experimentar uma linguagem que nunca receberam. A primeira vez que dizem ao filho, ao/à parceiro/a ou a um amigo “gosto de ti”, a garganta aperta. As palavras parecem emprestadas, como um casaco de outra pessoa. Ainda assim, tentam de novo no dia seguinte.

Curiosamente, a mudança começa muitas vezes não com grandes declarações, mas com micro-momentos: parar para dizer “estou orgulhoso/a de ti”, enviar uma mensagem “estou a pensar em ti”, ficar num abraço mais um segundo. Esses segundos acumulam-se. Com o tempo, a vida começa a soar de maneira diferente da casa onde cresceram.

Esta mudança não é sobre culpar os pais ou reescrever o passado. Muitos cuidadores de gerações anteriores acreditavam, com sinceridade, que estar presente e sacrificar-se era a prova de amor suficiente. Foram moldados por guerras, migrações, medo económico, e pelas suas próprias infâncias silenciosas. As palavras não eram as ferramentas deles. Deram o que sabiam.

A verdadeira questão é: como quer que o amor soe agora? Não a versão polida dos filmes, mas a banda sonora comum do seu dia-a-dia - em casa, nas amizades, nas chamadas nocturnas. Quer que as pessoas de quem gosta adivinhem, ou que saibam? Essa escolha empurra-o/a, com suavidade, para outros gestos, outras conversas, outro tipo de coragem.

Na prática, quebrar este padrão pode parecer três pequenos movimentos por semana: dizer “importas mesmo para mim” a um amigo, partilhar uma frase honesta sobre como está, e receber um elogio sem o desviar. O objectivo não é tornar-se um ser humano eternamente aberto e emocionalmente perfeito. Ninguém vive assim.

O objectivo é sentir-se menos como se estivesse a viver no modo silencioso. Um pouco mais capaz de acreditar que o amor pode ser visível e também dito. Os adultos que nunca ouviram “gosto de ti” partilham muitos traços emocionais - mas também são aqueles que conseguem ver com mais clareza o que faltou, e decidir construí-lo agora.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Silêncio emocional partilhado Muitos adultos criados sem ouvir “gosto de ti” desenvolvem reflexos semelhantes: hiper-independência, dúvida crónica, dificuldade em receber afecto. Dá palavras a um sentimento difuso e normaliza a experiência.
Pequenos rituais de linguagem Nomear uma emoção por dia, testar frases como “importas para mim” ou “ainda bem que estás aqui”. Fornece acções concretas, acessíveis mesmo aos mais reservados.
Transmissão diferente Escolher deliberadamente expressar amor com palavras e gestos visíveis para os mais próximos. Mostra como transformar a própria história num recurso para a geração seguinte.

FAQ:

  • Como sei se a falta de “gosto de ti” na infância ainda me afecta? Pode notar que desvaloriza as suas necessidades, sente-se desconfortável com elogios, ou tem dificuldade em acreditar que as pessoas não vão embora quando as coisas ficam difíceis. Se a intimidade emocional for ao mesmo tempo atractiva e assustadora, isso costuma ser um sinal.
  • Os pais podem amar profundamente os filhos sem nunca o dizer? Sim. Muitos amaram e continuam a amar. O amor pode ser real apenas nas acções, mas as crianças também aprendem através das palavras. Quando o amor não é nomeado nem explicado, muitas vezes as crianças tornam-se adultos que duvidam se aquilo que sentiram foi “suficiente”.
  • É tarde demais para mudar os meus padrões emocionais em adulto/a? Não. O cérebro mantém plasticidade. Com passos pequenos e repetidos - como nomear sentimentos, experimentar frases novas, ou trabalhar com um terapeuta - esses reflexos antigos podem suavizar e evoluir.
  • E se dizer “gosto de ti” me parecer falso quando tento? É comum. O seu corpo está a reagir a algo pouco familiar, não a algo errado. Comece com frases que se sintam um pouco mais confortáveis e vá construindo gradualmente até as palavras começarem a assentar em si.
  • Devo confrontar os meus pais por nunca terem dito “gosto de ti”? Só se isso o/a servir de facto, e não por obrigação. Algumas pessoas encontram cura nessa conversa; outras preferem focar-se nas relações presentes. O seu crescimento não tem de depender da reacção deles.

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