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Porque muitos reformados sentem-se mais ocupados do que quando trabalhavam a tempo inteiro.

Casal sénior sorridente sentado à mesa da cozinha, a usar telemóvel e a ler um livro, com laranjas e café ao lado.

15 numa terça‑feira qualquer, o café ao lado do parque está à pinha. Não com pessoas ao portátil ou mães com carrinhos de bebé, mas com cabelos brancos, bengalas encostadas às cadeiras, bonés de golfe presos nos encostos. Pratos com torradas, smartphones em cima da mesa, agendas abertas. Apostava‑se que era uma reunião de equipa.

Margaret pede desculpa porque tem de sair a correr. Pilates às 10h30, ir buscar o neto às 12, uma comissão de uma instituição de solidariedade às 15, jantar com amigos às 19. O marido, Tom, reformado do ensino há dois anos, desliza o dedo no telemóvel, suspira e diz: “Precisamos mesmo de uma semana sossegada.” Depois olha para o calendário e ri. Não há nenhuma.

Este é o estranho segredo da reforma moderna: muita gente sente‑se mais apressada agora do que quando trabalhava das nove às cinco.

“Como é que eu alguma vez encontrava tempo para trabalhar?”

Pergunte a qualquer grupo de recém‑reformados como vai a vida e há uma frase que volta vezes sem conta: “Não sei como é que eu alguma vez encontrava tempo para trabalhar.” Dizem‑no com um meio sorriso e uma meia careta. Parece uma piada, mas não é bem.

O ritmo do trabalho pago desapareceu, mas o ritmo da vida acelerou. Há consultas no hospital, emergências familiares, projetos de bricolage à espera há 20 anos, viagens que “temos de fazer enquanto ainda podemos”. Muitos descobrem que, assim que o escritório desaparece, toda a gente assume que estão livres. E a agenda vai‑se enchendo, discretamente, sozinha.

Debaixo da superfície, há algo mais emocional. Perder o título no cartão de visita traz uma pressão subtil para provar que os seus dias continuam “úteis”. Andar ocupado torna‑se uma espécie de distintivo. O tempo livre passa a ser tratado como um problema que tem de ser resolvido.

Veja‑se o caso do Brian e da Lynda, ambos com 67 anos, de Kent. Ele saiu de um emprego na logística; ela afastou‑se da enfermagem. No primeiro mês, flutuaram. Caminhadas longas, pequenos‑almoços preguiçosos, a arrumação prometida há anos na cozinha. Ao terceiro mês, o calendário parecia um horário ferroviário.

Ele juntou‑se a um grupo de caminhadas, a um clube de comboios em miniatura e aceitou ajudar um vizinho com as contas. Ela assumiu mais cuidados com os netos, disse que sim a uma escala na igreja, entrou num coro e num clube de leitura que, bem… espera mesmo que se leia o livro. Os filhos começaram cada frase com: “Mãe, pai, vocês estão reformados, podiam só…?”

Numa sexta‑feira à noite, exaustos, aperceberam‑se de que tinham tido apenas uma tarde completamente livre em duas semanas. Olharam um para o outro e fizeram a pergunta perigosa: “Era isto mesmo que queríamos?” A resposta não era simples, nem confortável.

O que se passa aqui não é apenas má gestão da agenda. Quando o trabalho desaparece, a estrutura que ele lhe dava também vai. Durante décadas, sabia onde tinha de estar, mais ou menos quando comia, o que contava como um “bom” dia. Tire‑se essa armação e os dias podem parecer amorfos, até assustadores.

Por isso, tanta gente se apressa a reconstruir estrutura dizendo sim a tudo: clubes, voluntariado, trabalhos paralelos, favores para a família. A ocupação preenche o silêncio desconfortável. E também ajuda a evitar uma pergunta mais difícil: quem sou eu quando já não sou “o gestor”, “a enfermeira”, “o engenheiro”?

Curiosamente, ter a agenda a rebentar pode parecer mais seguro do que ficar com essa pergunta. E, quando se começa a responder depressa a cada pedido, as pessoas continuam a pedir. Em pouco tempo, o ritmo dos seus anos “descansados” começa a parecer suspeitamente parecido com a correria de que sonhava fugir.

Reajustar o ritmo da vida na reforma

Um pequeno hábito muda tudo: comece a tratar o seu tempo como valioso outra vez. Não no sentido de guru da produtividade, apenas com um pouco de respeito silencioso. Um gesto simples é bloquear “espaço em branco” no calendário - blocos realmente vazios, sem rótulo a não ser “livre”.

Esse espaço não é tempo de preguiça. É onde vivem o descanso verdadeiro, o pensamento e a alegria espontânea. Proteja‑o como antes protegia uma reunião com um cliente importante. Quando alguém pede um favor, não precisa de uma desculpa complicada. “Nesse dia não estou disponível” chega. Sem notas de rodapé. Sem pedido de desculpa.

Ao início parece estranho, até egoísta. Especialmente se passou anos a ser a pessoa fiável, a que resolve, o avô ou a avó que diz sempre que sim. Mas proteger discretamente duas ou três meias‑jornadas vazias por semana pode ser a diferença entre uma reforma que sabe a riqueza e uma que sabe a horas extra não pagas.

Há também a armadilha social: a reforma transforma‑o na pessoa “disponível” da família. Mora mais perto, já não tem chefe, por isso ir buscar crianças, dar boleias, ficar à espera de encomendas e tratar do cão em cima da hora acabam por cair no seu colo. Gosta de fazer falta. E, às vezes, também se sente usado.

É aqui que limites gentis fazem diferença. Nada de discursos dramáticos, apenas pequenas frases: “Às terças é o nosso dia” ou “Consigo de manhã, à tarde não.” Não está a rejeitar as pessoas; está a ensinar‑lhes como tratar o seu tempo. É um tipo silencioso de autorrespeito.

E sim, algumas semanas essas linhas vão esbater‑se. Um neto doente, um amigo em crise. A vida acontece. Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias. O objetivo não é gerir a reforma como uma operação militar. É deixar de derivar para uma agenda que nunca quis criar.

Um médico de família reformado descreveu‑o assim, num café perto do passeio marítimo de Brighton:

“No trabalho, outras pessoas eram donas do meu tempo. Quando me reformei, percebi de repente que o estava a oferecer de graça. O dia em que comecei a dizer ‘Deixe‑me pensar nisso’ em vez de ‘Sim, claro’ foi o dia em que me reformei de facto.”

Há uma forma simples de testar se a sua ocupação é escolhida ou apenas herdada das expectativas:

  • Olhe para os compromissos da próxima semana e circule os que sente genuinamente que são a sua cara.
  • Ponha um ponto de interrogação ao lado de tudo o que veio da culpa, do hábito ou do medo de ficar de fora.
  • Mantenha três itens com “ponto de interrogação” e comece a recusar, com calma, o resto durante um mês.
  • Observe como isso muda a sua energia, o sono e o humor.

Isto não é sobre cortar relações. É sobre garantir que as atividades que ficam na sua vida assentam realmente na pessoa que é agora, e não no papel que costumava desempenhar.

Um tipo diferente de vida cheia

Por baixo da sensação de “estar ocupado demais” há muitas vezes algo delicado: o medo de que, se abrandar, se torne invisível. O trabalho dava‑lhe retorno, colegas, rotina, elogios - ou pelo menos queixas que provavam que fazia falta. A vida de reformado pode parecer estranhamente silenciosa ao lado disso.

Por isso empilhamos atividade como sacos de areia contra o silêncio. Três clubes em vez de um. Duas férias quando uma teria chegado. Voluntariado em todas as escalas. Mas a sensação de “ainda estou aqui, ainda conto” não vem de quão densa a agenda parece. Vem de saber se o que faz está alinhado com o que valoriza.

Todos já tivemos aquele momento em que se senta no sofá depois de um dia frenético e pensa: “O que é que eu fiz, afinal, que tenha significado?” A reforma não apaga magicamente essa pergunta. Só lhe tira a desculpa de “o trabalho obrigou‑me”. Agora, se os dias parecem apinhados e ocos, isso é feedback. Não é uma acusação - é um empurrão na direção de algo mais alinhado.

Algumas pessoas encontram esse “algo” através de um compromisso profundo em vez de dez pequenos: orientar aprendizes na antiga área, gerir um banco alimentar local, treinar uma equipa desportiva juvenil. Outras descobrem identidades totalmente novas - artista, ativista, cuidador, estudante aos 72. A agenda pode continuar cheia, mas a textura dos dias muda.

Não há equilíbrio perfeito, nem fórmula arrumadinha. Apenas uma conversa contínua consigo próprio: este modo de estar ocupado parece‑me, agora?

Ponto‑chave Detalhe Interesse para o leitor
Perda de estrutura após o trabalho O enquadramento das 9‑às‑5 desaparece, deixando um vazio que muitas vezes se preenche depressa demais Compreender por que razão os dias parecem subitamente sobrecarregados
Pressão para “continuar a ser útil” Diz‑se sim a tudo para manter um sentido de utilidade e identidade Dar nome a um mal‑estar difuso e normalizar esse sentimento
Retomar o controlo do próprio tempo Blocos de tempo em branco, limites suaves, escolhas conscientes dos compromissos Ter alavancas concretas para abrandar sem se cortar dos outros

FAQ:

  • Porque me sinto mais exausto agora do que quando tinha trabalho? Porque o trabalho costumava dar aos seus dias uma moldura clara. Sem isso, pode estar a acumular compromissos sem se aperceber, a passar constantemente entre papéis - avô/avó, cuidador, voluntário, parceiro - sem pausas reais.
  • É normal sentir culpa por dizer não depois de me reformar? Sim. A culpa costuma aparecer quando a sua identidade foi construída em torno de ser fiável ou de se sacrificar pelos outros. Normalmente significa que está a aprender novos limites, não que esteja a fazer algo errado.
  • Como posso abrandar sem desiludir a minha família? Comece pequeno e claro: escolha “dias de família” fixos e “dias seus”. Explique que quer estar presente e com energia para eles, o que implica não estar de prevenção o tempo todo.
  • E se eu, na verdade, sentir falta da pressão do trabalho? Então pode dar‑se bem com um projeto estruturado: consultoria em part‑time, um papel de voluntariado mais exigente ou estudar. A chave é que a pressão seja escolhida, não imposta.
  • Como sei se a minha reforma está “ocupada demais”? Se vai para a cama com frequência a pensar “corri o dia todo mas não me sinto realizado”, ou se começa a temer compromissos supostamente divertidos, esse é o sinal para parar, rever o calendário e começar a editar.

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