O café estava quase vazio quando tudo começou.
Uma mulher com um casaco cinzento, as mãos à volta de um latte morno, a olhar fixamente para o telemóvel. À sua frente, um homem repetia sempre a mesma frase: “Está tudo bem. A sério. Deixa de te preocupar.”
Ela acenou com a cabeça e depois perguntou: “Mas e se o teste estiver errado?”
Ele suspirou, recostou-se e voltou a dar a mesma resposta, só que mais alto. As suas garantias saíam como uma lista de verificação. As perguntas dela voltavam mais cortantes, mais rápidas, mais pesadas.
Na mesa ao lado, um adolescente sussurrava para o telemóvel: “Mãe, tens a certeza de que não é cancro? Diz outra vez.”
Sentia-se a tensão no ar: quanto mais eram tranquilizados, mais nervosos pareciam. Como deitar água num fogo que, de algum modo, acaba por arder ainda mais alto.
Estava a acontecer algo muito humano naquela sala.
E está a acontecer em milhares de salas, todos os dias.
O efeito bumerangue escondido da tranquilização
Há um momento estranho que acontece muitas vezes em conversas sobre preocupação. Uma pessoa está a tentar acalmar, a outra está a entrar em espiral. A pessoa que “resolve” entra em modo de tranquilização, repetindo frases reconfortantes em loop. A pessoa preocupada, em vez de relaxar, começa a procurar novos ângulos, novos perigos, novas perguntas do tipo “sim, mas…”.
Parece injusto para ambos os lados. Quem tranquiliza termina a conversa exausto, um pouco irritado, a pensar em segredo: “Porque é que isto não está a resultar?”
Quem se preocupa sente-se culpado por precisar de tanto conforto e depois fica ainda mais ansioso porque esse conforto nunca cola verdadeiramente. A tranquilização, que era suposto ser um cobertor quente, transforma-se numa ligadura fina que está sempre a descolar.
Os psicólogos chamam, por vezes, a isto a “armadilha da tranquilização”. Cada frase calma parece ajudar no momento, como coçar uma comichão. Mas quanto mais se coça, mais a pele “aprende” que tem comichão. A tranquilização pode, sem querer, treinar o cérebro a pensar: “Eu não consigo lidar com esta sensação sozinho. Preciso de confirmação para me sentir seguro.” O que começou como bondade transforma-se numa dependência silenciosa.
Pense na ansiedade com a saúde. Inquéritos sugerem que, em muitos países, milhões de pessoas pesquisam sintomas no Google a altas horas da noite e depois recorrem a alguém - um parceiro, um amigo, um pai ou uma mãe - para dizer: “Diz-me que estou bem.” Podem perguntar cinco vezes sobre a mesma pinta ou a mesma dor no peito. A primeira tranquilização alivia. A segunda parece necessária. À décima, o cérebro criou uma nova regra: segurança = outra pessoa dizer-me que não há nada de errado.
Ou pense nas relações. Um parceiro pergunta: “Ainda gostas de mim?” É querido à primeira vez. É comovente à segunda. À décima quinta vez numa semana, algo mudou. Quanto mais a pergunta aparece, mais o cérebro ansioso suspeita que deve haver algum problema - caso contrário, porque é que estamos a falar disto tantas vezes?
Há também um pormenor cognitivo. Quando procuras tranquilização, o teu cérebro está, em silêncio, a confirmar que pode haver uma ameaça. Cada verificação, cada “tens a certeza?”, é como dizer ao teu sistema nervoso: “Isto pode ser perigoso, melhor confirmar outra vez.” Com o tempo, o medo deixa de viver na preocupação original. Passa a viver na ideia de que não podes confiar no teu próprio julgamento. É aí que a tranquilização deixa de ser conforto e começa a ser combustível para o fogo.
O que dizer quando “Está tudo bem” não ajuda
Há outra forma de responder que não alimenta o ciclo. Parece menos “consertar” e mais caminhar ao lado. Em vez de dizer: “Está tudo bem, não te preocupes”, podes tentar: “Consigo perceber o quão assustador isto é. Vamos ficar com isto um minuto.” Frases curtas, assentes no chão. Sem grandes promessas. Só presença.
Para alguém preso à procura de tranquilização, limites gentis podem ser surpreendentemente curativos. Podes dizer: “Eu já respondi a isso e a minha resposta não mudou. Que tal falarmos sobre como te estás a sentir, em vez do que pode acontecer?” Isto empurra a conversa para longe de prever desastres e na direção de nomear emoções. Parece uma mudança pequena. Não é. É assim que as pessoas, devagar, se lembram de que os sentimentos não as vão matar.
Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. Quando alguém de quem gostamos entra em pânico, a maioria de nós também entra um pouco em pânico. Queremos encontrar a frase mágica que faz o medo desaparecer. Mas linguagem como “Vamos respirar juntos” ou “Qual é o pior cenário que a tua cabeça te está a atirar agora?” convida à honestidade em vez da discussão. Já não estás a competir com a ansiedade da outra pessoa. Estão a observá-la juntos - como ver uma tempestade pela janela, em vez de estar de pé à chuva.
Pensa num amigo que manda mensagens constantemente: “Estás zangado comigo?” Podes responder sempre: “Não, claro que não”, e ver a pergunta voltar na semana seguinte. Ou podes responder: “Não estou zangado, e reparei que te preocupas muito com isto. Que história é que o teu cérebro te está a contar sobre mim agora?” Mesmo tema, porta completamente diferente.
Os terapeutas usam muitas vezes este tom curioso, sem entrar em debate, com pessoas que vivem com preocupação crónica. Não se trata de provar que está tudo seguro. Trata-se de ajudar a outra pessoa a ver o padrão: “Eu preocupo-me, pergunto, sinto-me melhor, volto a preocupar-me.” Quando o padrão fica visível, perde parte do seu poder. Em vez de alimentar a urgência de perguntar, alimentas a capacidade de tolerar o não saber.
Isto não significa recusar conforto. Significa mudar-lhe a forma. Dizer: “Eu importo-me contigo, mesmo quando estás ansioso” soa diferente de “Não há nada com que te preocupar.” A primeira frase aceita a realidade e oferece ligação. A segunda discute, em silêncio, com o medo. E o medo raramente perde debates.
“A tranquilização é como açúcar para a ansiedade”, disse-me uma vez um psicólogo. “Doce no momento. Uma quebra depois.”
Algumas frases simples podem funcionar como âncoras em conversas tensas. Não precisas de um guião, só de algumas linhas em que acredites de verdade:
- “Já te ouvi este medo antes. A minha resposta continua a ser a mesma, e estou aqui contigo.”
- “O teu cérebro está a fazer outra vez aquela coisa do ‘pior cenário’. Vamos reparar nisso juntos.”
- “Não posso prometer o que vai acontecer, mas não vou desaparecer só porque estás com medo.”
Essas frases transportam três mensagens ao mesmo tempo: eu vejo-te; não te vou abandonar; não vou alimentar o ciclo. Pode parecer desajeitado ao início, sobretudo se estás habituado a soluções rápidas ou discursos motivacionais. Mas, com o tempo, este estilo de resposta ajuda a pessoa ansiosa a construir um músculo silencioso: a capacidade de sentir medo e não procurar imediatamente um veredicto externo sobre a realidade.
Deixar algumas perguntas em aberto
Há algo quase rebelde em dizer: “Eu não sei, e consigo viver com isso.” Passamos grande parte da vida a tentar fechar todos os ciclos: o teste está normal, o avião é seguro, o meu parceiro está feliz, o meu emprego é estável. A tranquilização promete bater essas portas com força. A vida real continua a abri-las.
Quando sais do ciclo da tranquilização, não estás a escolher frieza. Estás a escolher um tipo diferente de segurança. Uma segurança enraizada em “Seja o que isto for, vamos enfrentá-lo”, em vez de “Nada de mau vai acontecer, juro.” Esse segundo tipo de segurança é frágil. O primeiro dobra sem partir.
Na prática, esta mudança parece muito banal. É um parceiro a dizer: “Eu amo-te, e hoje à noite não vou responder ao mesmo medo vezes sem conta. Vamos ver qualquer coisa, ou vamos ficar em silêncio, ou vamos dar um passeio.” É um pai ou uma mãe a dizer a uma criança: “Estás a fazer a mesma pergunta. A minha resposta não mudou. Vamos ver o que o teu corpo sente quando estás preocupado”, e depois nomearem juntos o aperto no peito e as mãos a tremer.
Num nível mais profundo, é um convite: pára de negociar com cada pensamento ansioso como se fosse um contrato sério. Alguns pensamentos são só ruído. Algumas perguntas nunca têm respostas finais. E, curiosamente, quando deixas de exigir certeza absoluta, o teu sistema nervoso começa a acalmar por si.
Todos já passámos por aquele momento em que relemos um e-mail assustador três vezes, o enviamos a um amigo para “uma revisão rápida” e, mesmo assim, continuamos inquietos. O alívio nunca dura porque estamos a pedir à tranquilização que faça um trabalho que ela não consegue fazer: apagar a incerteza do facto de sermos humanos.
Tu não consegues. Eu não consigo. Nenhum especialista consegue. O que podemos fazer é tornar-nos mais fluentes a estar nesse lugar intermédio, juntos. Podemos trocar “Está tudo bem, deixa de te preocupar” por “Não estás sozinho neste estranho, confuso não-saber.” E essa frase, silenciosamente, muda a sala.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| A tranquilização pode sair pela culatra | Respostas repetidas e apaziguadoras ensinam o cérebro a depender de confirmação externa | Ajuda a perceber porque “Está tudo bem” muitas vezes não acalma ninguém por muito tempo |
| Passar de corrigir para testemunhar | Usar linguagem que valida sentimentos e identifica padrões, em vez de discutir com medos | Dá-te frases concretas para experimentares com pessoas ansiosas (ou contigo) |
| Abraçar a incerteza em conjunto | Afastar-se de “nada de mau vai acontecer” para “vamos enfrentar o que vier” | Constrói um sentido de segurança mais estável e realista no dia a dia |
FAQ
- Porque é que a tranquilização sabe tão bem no momento? Porque baixa, por instantes, o alarme do teu sistema nervoso. Alguém em quem confias está a dizer: “Estás em segurança”, e o teu corpo acredita - durante algum tempo.
- É errado pedir tranquilização? Não. Pedir conforto é humano. O problema começa quando precisas disso vezes sem conta para funcionar, ou quando nunca chega a assentar o medo.
- Como é que deixo de tranquilizar constantemente alguém que amo? Começa pequeno. Aponta o padrão com gentileza, mantém um tom caloroso e muda de responder ao conteúdo do medo para explorar o sentimento por baixo dele.
- O que posso dizer a mim mesmo em vez de “Tenho de saber com certeza”? Experimenta frases como: “Não tenho certeza, mas consigo aguentar esta sensação” ou “O meu cérebro ansioso está a contar uma história; não tenho de a tratar como facto.”
- Quando é que a tranquilização é realmente útil? Quando é ocasional, honesta e acompanhada do desenvolvimento de ferramentas próprias de regulação, em vez de se tornar na única forma de acalmar.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário