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Psicólogos explicam porque algumas pessoas recuperam energias estando sozinhas sem se sentirem sós.

Pessoa sentada escrevendo num caderno, com auriculares e chá na mesa, junto a uma janela e planta.

On a todos já vivemos aquele momento em que a noite está no auge, as gargalhadas rebentam, a música é boa… e, mesmo assim, uma vozinha sussurra: “Só me apetece ir para casa”.

Para algumas pessoas, isto não é sinal de desconforto social, mas uma forma muito saudável de recarregar energias. Fecham a porta, fazem um chá, vestem umas calças de fato de treino velhas e, de repente, todo o sistema nervoso relaxa. Sem sensação de isolamento, sem nó no estômago. Apenas uma calma densa, quase deliciosa. Estas pessoas não “sofrem” a solidão - escolhem-na. E, para os psicólogos, essa diferença muda tudo. Fica uma pergunta que incomoda: porque é que algumas pessoas recuperam estando sozinhas sem nunca se sentirem sós?

Porque estar sozinho nem sempre significa sentir-se só

Imagine um sábado à tarde num café movimentado de uma cidade. Casais a cruzarem-se com carrinhos de bebé, telemóveis a vibrar, cappuccinos a alinhar-se. Ao fundo da sala, uma mulher lê um livro, com auscultadores, a chávena quase fria. Não olha para o telemóvel, não procura o olhar dos outros. Parece estranhamente… bem. Respira devagar, vira as páginas sem pressa, como se o resto do mundo estivesse atrás de um vidro. Para muitos, esta cena parece solidão. Para ela, é um luxo discreto.

Os psicólogos falam muitas vezes desta nuance com uma expressão-chave: “solidão escolhida”. Um estudo publicado pela American Psychological Association mostrou que pessoas que passam regularmente tempo sozinhas por opção relatam mais bem-estar emocional do que aquelas que se sentem isoladas apesar de terem gente por perto. Estão lá os introvertidos, claro - mas não só. Pais de crianças pequenas que saboreiam 20 minutos de silêncio no carro. Gestores que desligam tudo depois de um dia de reuniões. Estudantes que se oferecem um almoço a solo entre aulas no anfiteatro. Sem drama, sem pose. Apenas uma necessidade do sistema nervoso de pousar o cérebro.

O que acontece aqui é muito concreto. O cérebro humano é bombardeado por estímulos sociais: expressões faciais, subentendidos, notificações, ruído de fundo. Para alguns perfis, o sistema nervoso é mais sensível a este fluxo. As interações, mesmo felizes, tornam-se consumidoras de energia. Estar sozinho reduz de forma brusca o nível de estimulação. O corpo pode então passar de um modo de “vigilância social” para um modo de “reparação”. E é aí que a solidão deixa de ser um vazio para se tornar um espaço. A ausência de pessoas já não é falta, mas margem para respirar.

A psicologia por detrás de se sentir cheio, e não vazio, quando está sozinho

Um pormenor aparece muitas vezes nas consultas: as pessoas que recarregam sozinhas não encaram o tempo a sós como um afastamento, mas como um regresso. Não pensam “estou a afastar-me dos outros”; pensam “estou a voltar a mim”. Não é apenas uma nuance de linguagem - é outro mapa mental. O apartamento, o quarto, até um banco de jardim tornam-se bases de carregamento, não refúgios de pânico. Aí abrandam, falam mais baixo por dentro. A sua solidão é habitada, preenchida por pequenas rotinas tranquilizadoras.

Um psicólogo britânico conta frequentemente a história de um paciente seu, pai de família de 38 anos, muito sociável à primeira vista. Adorava aniversários, churrascos, o pós-jogo com os vizinhos. Depois chegava a casa, fechava a porta da casa de banho e ficava sentado no chão, durante meia hora, com as luzes apagadas. Não em crise, não deprimido. Apenas em modo “mais ninguém”. Durante muito tempo teve vergonha deste ritual secreto. Até que um dia percebeu, em terapia, que aquele momento de silêncio não era sinal de fraqueza, mas um mecanismo muito saudável para regular o excesso sensorial. Aí, a solidão deixava de ser um sintoma para se tornar uma ferramenta.

Os investigadores distinguem três ingredientes em quem gosta de estar sozinho sem sofrer de solidão:

  1. Boa “segurança interior”: não se definem apenas pelo olhar dos outros; mantêm a sensação de existir mesmo fora da rede.
  2. Capacidade de alimentar a vida interior: imaginar, sonhar, refletir, “trabalhar” mentalmente, sem precisar de validação instantânea.
  3. Perceção diferente do silêncio: onde alguns ouvem um veredito (“ninguém me liga”), estes veem um espaço disponível (“o que é que me apetece fazer com este tempo?”).

Esta releitura muda por completo a sensação de vazio.

Como recarregar sozinho… sem cair na solidão

Os psicólogos aconselham muitas vezes algo muito concreto: planear tempo a sós como se planearia um compromisso. Não em modo “se tiver tempo”, mas como um bloco específico na semana. Trinta minutos de caminhada sem podcast. Um café bebido devagar, com o telemóvel em modo avião. Um banho a olhar para o teto, deixando as ideias passar. O truque é dar a esse momento uma intenção clara: recarregar, não fugir. Pode até anotá-lo na agenda com um código discreto, para que o cérebro o leve a sério.

Há armadilhas frequentes. Cortar com o mundo depois de uma desilusão, dizendo “sozinha fico melhor, de qualquer forma”, quando no fundo há medo. Confundir descanso com ruminação, deixando os mesmos cenários ansiosos a repetirem-se. Preencher cada minuto “a sós” com ecrãs, sem nunca encontrar de verdade o que se passa cá dentro. Sejamos honestos: ninguém faz isto impecavelmente todos os dias. Vamos navegando como conseguimos entre cansaço, obrigações, notificações. O objetivo não é tornar-se um monge zen, mas reconhecer aqueles instantes em que podemos simplesmente pôr o mundo em pausa, sem culpa.

Os terapeutas insistem também numa nuance tranquilizadora: gostar de estar sozinho não é uma confissão de fracasso social. Pelo contrário, muitas pessoas socialmente à vontade precisam de solidão para se manterem disponíveis para os outros. Como resume uma psicóloga clínica:

“Estar bem consigo mesmo é como recarregar a bateria que alimenta todas as suas relações. Sem esse regresso à base, até os melhores laços acabam por chiar.”

Para clarificar, algumas pessoas gostam de fazer uma pequena checklist pessoal:

  • Este momento a sós faz-me sentir mais leve ou mais pesado?
  • Eu escolho-o ou estou a ser empurrado para ele?
  • Consigo sair dele facilmente se alguém me ligar?
  • Saio com um pouco mais de energia, mesmo que mental?
  • Estou a esconder-me ou estou a reencontrar-me?

Repensar a solidão num mundo que nunca se cala

Vivemos num mundo que glorifica agendas cheias, grupos de chat a ferver, stories em fluxo contínuo. Admitir que passou um domingo inteiro sozinho, em casa, sem nada de espetacular para mostrar, às vezes soa a falhanço social. No entanto, os psicólogos observam uma outra tendência a crescer: pessoas que reivindicam calmamente a necessidade de se afastarem um pouco do ruído, sem dramatizar. Não eremitas, não misantropos. Apenas humanos que perceberam que a energia da atenção é limitada - e que se protege.

A grande confusão é associar automaticamente solidão a sofrimento. Existe uma solidão que magoa, bem real, feita de ausência de laços, desinteresse, silêncios pesados. Mas existe também uma solidão escolhida que se parece mais com “um quarto só seu”, no sentido de Virginia Woolf: um lugar mental onde juntamos os pedaços do dia, onde reajustamos o que faz sentido. Quem se sente bem aí não foge do mundo; cria distância suficiente para poder voltar, um pouco mais inteiro. Às vezes são cinco minutos numa casa de banho cheia. Às vezes é uma noite inteira sem responder a ninguém.

Esta forma de se retirar mantendo-se ligado à vida é, talvez, uma competência discreta da nossa época saturada. Uma arte de dizer “não” à overdose social sem dizer “não” à humanidade. Podemos aprendê-la devagar: observando o que sentimos quando a casa fica silenciosa, quando o telemóvel não vibra, quando a noite é cancelada à última hora. Muitas vezes, por baixo da primeira camada de culpa ou medo do olhar dos outros, há um alívio que não nos atrevíamos a nomear. E se essa sensação - longe de ser suspeita - fosse simplesmente o sinal de que o nosso sistema nervoso nos está, finalmente, a indicar a tomada certa para recarregar?

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Solidão escolhida vs. solidão imposta Diferença entre um momento a sós desejado e um isolamento sofrido Compreender melhor as próprias necessidades sociais
Ritmo do sistema nervoso Algumas pessoas cansam-se mais depressa socialmente Deixar de se julgar “anormal” ou “antissocial”
Rituais de recarga Pequenos momentos a sós planeados, simples e regulares Encontrar ferramentas concretas para recuperar sem culpa

FAQ

  • É normal preferir estar sozinho depois de eventos sociais? Sim. Muitas pessoas, incluindo as mais sociáveis, precisam de silêncio após interações intensas para deixar o sistema nervoso descer de intensidade.
  • Como sei se o meu tempo a sós é saudável ou um sinal de depressão? Repare em como se sente depois: se sai mais calmo e capaz de se voltar a ligar aos outros, é mais provável que seja saudável; se se sente ainda mais vazio e desligado, fale com um profissional.
  • Os extrovertidos também podem recarregar estando sozinhos? Sim. Mesmo os extrovertidos podem precisar de momentos a solo para processar emoções e pensamentos, sobretudo se têm uma vida muito exposta.
  • Quanto tempo a sós é “demais”? Quando começa a prejudicar relações, trabalho ou vontade de fazer coisas, ou quando evita sistematicamente os outros por medo, talvez seja altura de ajustar o equilíbrio.
  • Querer viver sozinho é um sinal de alerta para solidão? Não necessariamente: muitas pessoas vivem sozinhas e têm uma vida social rica; o sinal de alerta seria mais um sentimento crónico de vazio, mesmo estando acompanhado.

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