Ela está na casa dos quarenta, bem-sucedida, engraçada quando se permite ser, mas, sempre que tenta dizer «amo-te» em voz alta, as palavras parecem engasgá-la. Em vez disso, ri. Muda de assunto. Envia um meme mais tarde.
Cresceu numa casa onde ninguém dizia «tenho orgulho em ti», onde os aniversários eram práticos e os abraços funcionais, como casacos no inverno. Não aconteceu nada obviamente «mau». Não houve gritos, nem drama. Apenas um silêncio profundo e constante à volta dos sentimentos.
Hoje, faz scroll no Instagram, vê pais a escreverem legendas longas e emocionais sobre os filhos e sente um peso no peito. Pensa que simplesmente «não é do tipo emocional». A terapeuta acha o contrário.
Uma frase da infância continua a ecoar: «Aqui não se fala disso».
Quando o «amo-te» nunca chegou: os padrões silenciosos que te seguem
Pergunta a psicólogos sobre adultos criados sem afecto verbal e ouvirás a mesma descrição, vezes sem conta: altamente funcionais por fora, um pouco perdidos por dentro. São pessoas que chegam a horas, pagam as contas, cumprem prazos, mas bloqueiam quando as relações se tornam emocionalmente explícitas.
Desvalorizam elogios. Fazem piadas quando alguém fica demasiado sincero. Conseguem passar anos numa relação sem nunca dizerem «amo-te» primeiro. Não porque não o sintam, mas porque o caminho entre sentir e dizer nunca foi construído.
As suas casas de infância pareciam muitas vezes «normais». Sem abuso evidente. Apenas pais que acreditavam que o amor se mostrava com comida, roupa lavada e boas notas, não com palavras.
Uma terapeuta em Londres contou-me sobre uma cliente, 35 anos, que rebentou em lágrimas na primeira vez que o parceiro lhe disse: «tenho orgulho em ti». Ela não chorou de alegria. Chorou de pânico. Ninguém alguma vez lhe tinha dito aquilo antes, nem uma única vez. O corpo reagiu como se algo perigoso tivesse entrado na sala.
Cresceu com pais que trabalhavam muito, pagavam tudo e esperavam excelência. Quando levava para casa uma boa nota, diziam: «é isso que esperamos», e voltavam-se para a televisão. Quando tentava partilhar algo que a assustava, respondiam: «vais ficar bem». A mensagem era clara: os sentimentos eram privados, o afecto era assumido, as palavras eram desnecessárias.
No papel, a infância dela parecia «de sorte». Mas, em adulta, continuava a escolher parceiros frios, meio convencida de que a ternura era falsa. Descrevia-se como «pouco exigente», enquanto, em silêncio, morria de fome por uma frase tão simples como: «tu importas para mim».
Os psicólogos falam muitas vezes de «guiões de vinculação» - as regras invisíveis que absorvemos sobre como o amor é expresso. Em famílias onde o afecto verbal é raro, as crianças aprendem que precisar de reafirmação é fraqueza, que as palavras são arriscadas, que o silêncio é mais seguro. E crescem a dominar o auto-controlo emocional.
Aprendem a ler o ambiente em vez da linguagem. Um aceno substitui «tenho orgulho em ti». Uma boleia para a escola faz as vezes de «importo-me contigo». Com o tempo, podem até julgar pessoas que falam dos seus sentimentos como infantis ou «demais». Mas, por dentro, falta alguma coisa.
Essa lacuna não aparece em radiografias. Aparece na forma como discutem, seduzem, pedem desculpa - ou não.
Comportamentos recorrentes que os psicólogos voltam a ver, vezes sem conta
Um dos padrões mais comuns descritos por terapeutas é a minimização emocional. Adultos criados sem afecto verbal dizem coisas como «não é nada de especial» sobre momentos que, na verdade, doeram muito. Muitas vezes sentem culpa por quererem reafirmação, por isso engolem a necessidade e fingem que está tudo bem.
Têm dificuldade com frases directas: «tenho saudades tuas», «estou magoada», «preciso que o digas em voz alta». Em vez disso, podem lavar a loiça, enviar uma mensagem prática ou oferecer ajuda num projecto. A sua linguagem de amor inclina-se fortemente para fazer, não para dizer.
Quando o parceiro pede mais palavras, podem sentir-se criticados, como se a forma inteira de amar estivesse a ser julgada como «insuficiente». Então fecham-se ainda mais, sem saberem bem porquê.
Num primeiro encontro, parecem compostos, espirituosos, no controlo. Seis meses depois, surge um padrão familiar. O parceiro diz: «eu não sei o que sentes por mim. Tu nunca o dizes». Sentem-se atacados injustamente. «Mas eu estou aqui, não estou?» respondem.
Um homem disse ao terapeuta: «eu arranjo as coisas em casa, planeio as férias, nunca me esqueço do aniversário dela. Isso não é amor?» Para ele, as acções falavam tão alto que as palavras pareciam redundantes, quase suspeitas. A ideia de dizer «amo-te» com regularidade soava a representar um papel de filme, não a vida real.
Outro comportamento recorrente é a sobre-independência. Muitos adultos de casas com pouco afecto decidiram cedo que precisar dos outros não era seguro. Tornaram-se «os fortes», o amigo fiável, o colega que nunca pede ajuda. À superfície, parece admirável. Por dentro, pode ser solitário.
Os psicólogos vêem um tipo de músculo emocional sobre-desenvolvido - a auto-suficiência - e outro pouco usado: pedir abertamente conforto. Estes adultos podem desejar secretamente que o parceiro simplesmente «saiba» do que precisam, sem que tenham de o dizer. Esse desejo silencioso muitas vezes transforma-se em ressentimento.
Há também uma desconfiança silenciosa de palavras grandes. Declarações grandiosas despertam suspeita em vez de segurança. Criados num mundo onde o afecto era implícito, falar de amor de forma explícita pode soar a discurso de vendas. Por isso, recuam precisamente quando a intimidade os convida a aproximar-se.
Aprender a falar uma língua que nunca ouviste em casa
Os psicólogos insistem neste ponto: o afecto verbal é uma competência, não um traço de personalidade. Adultos que nunca o ouviram enquanto cresciam podem, ainda assim, aprender a dizê-lo. Um método concreto usado em terapia parece quase infantil no papel: escrever três frases afectuosas que estás disposto(a) a experimentar e praticá-las em voz alta quando estás sozinho(a).
Pode ser tão simples como: «ainda bem que estás aqui», ou «aprecio mesmo muito-te», ou «adoro estar contigo». Nada poético. Apenas claro. Depois, escolhe um momento seguro por semana para usar uma dessas frases com alguém em quem confies. Um parceiro, um(a) amigo(a) próximo(a), até um(a) irmão/irmã.
Essa experiência pequena e desconfortável começa a “reprogramar” o cérebro. Em vez de associar afecto verbal a perigo ou vergonha, o teu sistema nervoso aprende lentamente: «eu consigo aguentar isto. Ninguém se está a rir. O mundo não acabou».
A maior armadilha em que muitas pessoas caem é esperar “sentirem-se prontas” antes de começarem a falar com mais calor. A prontidão raramente chega. As palavras são, por definição, pouco familiares. Não soam como os teus pais. Não soam como tu - ainda.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. As práticas falham. Os velhos hábitos ganham. Uma reacção má de alguém e podes querer recuar para o silêncio para sempre. É por isso que os terapeutas sugerem muitas vezes dizer ao parceiro o que estás a tentar fazer.
Algo tão honesto como: «eu não cresci a ouvir muitos “amo-te”, por isso estou a tentar usar mais palavras. Pode soar estranho ao início» pode suavizar todo o processo. Transforma uma vergonha privada numa experiência partilhada. E baixa a pressão de soar perfeito.
Como me disse uma psicóloga clínica numa entrevista:
«O afecto verbal é como um músculo que nunca foi treinado. Não estás “estragado(a)”; estás apenas sem prática. O facto de parecer estranho é prova de que estás a entrar em terreno novo, não prova de que és incapaz.»
Para alguns, ajuda criar um pequeno kit pessoal, quase como um andaime emocional em que se podem apoiar quando as palavras ficam presas:
- Mantém uma nota no telemóvel com 5 frases simples que estás disposto(a) a dizer.
- Junta palavras a acções: diz «importo-me contigo» enquanto fazes algo amável.
- Usa mensagens de texto ou notas de voz se cara a cara for demasiado intenso no início.
- Repara num momento por dia em que sintas calor e nomeia-o em silêncio: isto é afecto.
- Se és pai/mãe, pratica uma frase clara de elogio por dia, mesmo que pareça «demais».
Isto não são truques mágicos. São pequenos passos, imperfeitos, que lentamente transformam um silêncio herdado numa história diferente.
A revolução silenciosa de dar nome ao que sentes
Há um momento - muitas vezes tarde da noite - em que adultos criados sem afecto verbal percebem algo essencial: o silêncio em que cresceram não é destino. É um estilo, um padrão, um hábito familiar. E hábitos, por definição, podem ser mudados, mesmo quando são teimosos.
Muitas pessoas começam por reparar na forma como falam consigo próprias. Se a tua voz interior soa como a tua casa de infância - prática, exigente, com pouca ternura - não estás sozinho(a). «Devias ter feito melhor.» «Pára de dramatizar.» «Ninguém quer ouvir falar disso.» Estas são frases invisíveis que moldam o quanto achas que mereces afecto.
Mudar essa banda sonora é um trabalho lento. Pode começar com algo quase embaraçosamente suave, como dizeres a ti próprio(a), fizeste o teu melhor hoje, enquanto lavas os dentes. Ou sussurrar: «isto foi difícil», depois de uma reunião complicada. No início, pode parecer falso. Mas também parecia andar de bicicleta.
Quando adultos que nunca ouviram «amo-te» começam a dizê-lo - de forma desajeitada, raramente, e depois mais vezes - muda também outra coisa. As relações passam a ser menos sobre adivinhar e mais sobre nomear. Menos sobre lealdade silenciosa, mais sobre linguagem partilhada.
Alguns vão sempre preferir acções a palavras, e isso está bem. Ninguém precisa de se tornar um cartão de felicitações ambulante. A revolução silenciosa não é transformar toda a gente em poeta. É ter acesso a algumas frases simples que correspondem ao que realmente sentes, em vez de deixares quem amas a decifrar as tuas intenções a partir da tua agenda ou da tua lista de tarefas.
Numa manhã de terça-feira, um pai envia uma mensagem à filha adolescente: «Olá, tenho orgulho em ti. Só queria dizer.» Fica a olhar para o ecrã, coração aos pulos, meio à espera de uma resposta sarcástica. Ela responde: «Obrigada, pai, isso significa muito.» O céu não se abre. Nenhuma orquestra toca. Mesmo assim, algo antigo finalmente se mexe.
Talvez te reconheças nestas linhas. Talvez sejas o(a) parceiro(a) à espera de palavras que nunca parecem chegar. Ou o(a) adulto(a) que construiu uma vida inteira com base na competência e na independência, esperando em segredo que alguém diga um dia a frase que nunca ouviste em criança. A verdade é que podes ser tu a acabar por dizê-la primeiro - aos outros, e a ti próprio(a).
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Silêncio aprendido | Crescer sem «amo-te» cria guiões emocionais baseados no implícito e no auto-controlo. | Dá palavras a um mal-estar difuso e valida uma experiência muitas vezes minimizada. |
| Comportamentos recorrentes | Minimização, sobre-independência, desconfiança de grandes declarações, amor expresso sobretudo por actos. | Ajuda a reconhecer padrões próprios e de pessoas próximas para os levar menos para o lado pessoal. |
| Mudança possível | Verbalizar o afecto trabalha-se com pequenos exercícios concretos e frases simples. | Oferece pistas práticas para transformar relações sem se trair. |
FAQ
- Como sei se fui criado(a) sem afecto verbal? Podes notar que «amo-te», «tenho orgulho em ti» ou «ainda bem que estás aqui» quase nunca eram ditos em casa, mesmo nos bons momentos. Em adulto(a), elogios parecem desconfortáveis e tens tendência para mostrar amor através de acções em vez de palavras.
- Isto pode mesmo afectar as minhas relações décadas mais tarde? Sim. Padrões emocionais precoces moldam o quão seguro(a) te sentes a expressar necessidades, a receber reafirmação e a confiar em declarações verbais. Muitos adultos só percebem o impacto quando um(a) parceiro(a) diz: «eu não sei o que sentes por mim».
- E se eu simplesmente não gostar de dizer «amo-te»? A preferência conta, mas às vezes o «eu não sou desse tipo» esconde medo ou desconforto aprendidos na infância. Não tens de te tornar altamente expressivo(a), mas experimentar frases simples pode ampliar o que é possível para ti.
- É tarde demais para mudar a forma como expresso afecto? Não. O cérebro mantém plasticidade. Através de pequenos actos repetidos - nomear apreciação, praticar frases, procurar terapia se for preciso - muitos adultos desenvolvem um novo vocabulário emocional, mesmo depois dos 40 ou 50.
- Como posso apoiar um(a) parceiro(a) que cresceu com pouco afecto verbal? Diz com clareza o que precisas, em vez de dares indirectas. Reconhece os actos de cuidado como amor, enquanto convidas com gentileza a mais palavras. Celebra pequenos passos verbais em vez de criticar o que falta.
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