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"Senti-me como num filme”: aprendizagem imersiva está a revolucionar uma escola em Lyon.

Estudantes numa sala de aula usam óculos de realidade virtual. Um aluno levanta a mão; professora observa com tablet.

No colégio Victor-Hugo, num bairro residencial de Lyon, esta cena já pertence ao passado. Numa manhã de terça-feira, as persianas estão entreabertas, a luz é suave, mas ninguém olha para fora. Vinte e cinco alunos do 8.º ano viram a cabeça ao mesmo ritmo, com um headset diante dos olhos, a respiração ligeiramente ofegante. Ouvem-se sussurros, risos contidos, um «uau» que escapa.

A professora de História não segura nenhum manual. Circula entre as mesas, tablet na mão, pronta para «teletransportar» os alunos para outra época. Uma aluna levanta a mão, com o headset levantado: «Professora, agora sinto mesmo que estou a sentir o fogo…». No ecrã, o Coliseu de Roma arde, as bancadas tremem. A rapariga sorri, um pouco perturbada. E solta, num sopro: «I felt like I was in a movie.»

E se a escola, de repente, se parecesse menos com uma sala de aula e mais com um set de filmagens?

«I felt like I was in a movie»: quando uma sala de aula em Lyon deixa de parecer escola

A primeira vez que se entra nesta sala do colégio Victor-Hugo, em Lyon, quase se procura o quadro negro por reflexo. Em vez disso, há uma parede interativa, um carrinho cheio de headsets de realidade virtual, tablets a piscar, cabos arrumados ao milímetro. Parece um pouco um mini estúdio de produção, um pouco um laboratório, e não exatamente uma sala de aulas clássica.

Os alunos, esses, adaptaram-se muito mais depressa do que os adultos. Distribuem os headsets, ajustam as correias, trocam olhares divertidos. Quando a simulação começa, a conversa cai a pique em poucos segundos. Ouvimos um «tenho vertigens» ao fundo e depois um «isto é mesmo fixe» que irrompe. O silêncio que se segue não é o do tédio. É o silêncio concentrado de quem se esquece de que está na escola.

De quinze em quinze dias, a aula de História e Geografia da professora Lenoir transforma-se numa cápsula imersiva. Na semana passada, os alunos atravessaram uma fábrica têxtil do século XIX. Antes disso, sobrevoaram o vale do Ródano para estudar as alterações climáticas. O colégio começou com 15 headsets de realidade virtual, uma parceria local e um orçamento apertado. Ao fim de um ano, o diretor apresenta uma primeira estatística na sala de professores: +23% de participação oral na aula imersiva, face às horas «clássicas».

Os professores registam-no nos seus cadernos. O aluno que quase nunca falava agora conta o que «sentiu» no bairro de lata virtual que visitou em Geografia. Outra, com dificuldades a Português, lembra-se de repente de um detalhe arquitetónico visto numa reconstituição de uma catedral medieval. A memória parece fixar-se de outra forma quando o corpo tem a sensação de «estar lá». Alguns miúdos tiram o headset com as faces vermelhas, ainda um pouco abalados pela intensidade das imagens.

Para os adultos que observam, isto pode desconcertar. Pergunta-se se não será apenas um «gadget». Mas o fio condutor assenta numa ideia simples: quando o aluno se torna ator da cena, deixa de ser apenas espectador da aula. A imersão não substitui o trabalho de fundo - ancora-o. O cérebro já não recebe apenas informações abstratas: vive-as num cenário, com som, com ambiente. É menos uma lição e mais uma experiência. E uma experiência deixa marcas mais duradouras.

Por detrás dos headsets: como os professores em Lyon fazem a imersão resultar, de facto

No Victor-Hugo, a equipa não começou por comprar equipamento topo de gama. O primeiro gesto foi muito mais banal: juntar cinco professores numa sala, um quadro branco e uma pergunta direta. «Em que capítulo é que os nossos alunos perdem mais o fio?» Foi nessas zonas de quebra de atenção que a escola decidiu concentrar a imersão. Não para fazer «uau» em todo o lado, mas para desbloquear os pontos difíceis.

Uma sessão típica raramente começa com os headsets. Durante dez minutos, os alunos anotam duas ou três perguntas simples sobre o tema do dia. O que é que eu quero compreender ao viver esta cena? Só depois colocam o equipamento e entram no universo virtual. À saída, impõe-se um tempo calmo. Nada de debate imediato: apenas duas frases escritas - o que vi, o que senti. É esta passagem entre emoção e distanciamento que torna a imersão realmente pedagógica, e não apenas espetacular.

A armadilha mais comum, contam os professores de Lyon, é querer «virtualizar» tudo. Nas primeiras semanas, alguns sonham com uma saída VR a cada capítulo. Depois chega o cansaço, a logística pesada, a tecnologia a falhar no pior momento. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. No Victor-Hugo, aprenderam a travar. Uma a duas sessões imersivas por mês, não mais - mas preparadas como eventos.

Os erros repetem-se: sessões demasiado longas, alunos entregues a si próprios, ausência de tempo de balanço. Ou ainda a tentação de acreditar que a tecnologia vai motivar, mesmo que o conteúdo continue vago. Os professores que se safam melhor desenvolveram um reflexo: começar pelo sentido e só depois escolher a ferramenta. «Que lembrança concreta quero deixar aos meus alunos?» vem antes de «que headset vou usar?». Parece óbvio no papel. Na prática, exige abrandar numa profissão que já anda a alta velocidade.

Ao longo dos meses, alguns alunos puseram em palavras muito simples aquilo que isto significava para eles.

«Quando ponho o headset, esqueço-me um bocado de que tenho más notas. Viro a personagem da história, não aquele que se engana o tempo todo. Depois, tenho mais vontade de perceber a aula, porque sinto que ela fala de mim.» - Yassine, 14 anos

Para a equipa pedagógica, estes feedbacks contam tanto quanto as estatísticas. Num papel afixado na sala de professores, listaram os pontos inegociáveis de uma sessão imersiva bem-sucedida:

  • Um objetivo claro formulado numa frase simples.
  • Um tempo de preparação sem ecrã, apenas com perguntas.
  • Uma imersão curta, entre 8 e 15 minutos no máximo.
  • Um balanço coletivo em que a palavra circula, sem julgamento.
  • Um registo escrito, mesmo leve, para fixar a experiência.

São pequenas balizas, quase modestas. Mas, ao ouvir os alunos falar das suas «viagens», percebe-se que são elas que transformam uma sessão impressionante num momento que muda a forma como aprendem.

Quando a escola se parece com uma história que estás a viver, e não com uma lição que estás a recitar

No recreio, entre duas campainhas, os alunos falam das suas sessões imersivas com as mesmas palavras que usam para uma série ou um videojogo. Comparam o «episódio» sobre a Revolução Francesa e o das megacidades. Recordam o ruído da multidão, a chuva virtual nos ombros, os detalhes das fachadas. A escola entra nos seus códigos, em vez de lhes pedir constantemente que saiam do seu universo.

Os professores observam um fenómeno discreto, mas profundo. O aluno que, normalmente, se desliga ao fim de cinco minutos mantém o headset até ao fim - por vezes demasiado preso ao mundo virtual. Instala-se um acompanhamento em torno destas emoções. O que fazer quando uma simulação de guerra é intensa demais? Como respeitar sensibilidades, vivências? A imersão traz a vida real para a sala de aula, com as suas forças e fragilidades.

Alguns pais mantêm-se cautelosos. Receiam o «tudo ecrã», a dependência de ferramentas, o desaparecimento da leitura silenciosa. Na reunião de início do ano, um pai comenta, um pouco cético: «Não vamos transformar a escola num parque de diversões, pois não?». A diretora responde calmamente que o livro continua no centro, que o caderno não saiu das mochilas. Em Lyon, a imersão é pensada como uma porta de entrada, não como um fim em si. Uma forma de voltar a ligar os alunos a conteúdos que, sem isso, ficariam distantes.

O que aqui se joga ultrapassa largamente as paredes de um colégio de bairro. Através destes headsets, coloca-se uma questão mais ampla: o que é que faz com que aprendamos realmente alguma coisa? Será a repetição, a nota no teste, ou aquele momento preciso em que sentimos fisicamente que algo nos marcou? As cenas vividas em imersão tornam-se âncoras: o cheiro imaginário de um porto mercantil do século XVIII, a sensação de aperto num apartamento sobrelotado na cidade, a vista vertiginosa sobre um glaciar em recuo.

Estas imagens ficam no corpo e na cabeça. Dão carne a palavras como «transição climática», «revolução industrial» ou «segregação urbana». Em vez de decorarem definições, os alunos contam o que «viram», «ouviram», quase «tocaram». Daí nascem conversas mais concretas, menos teóricas. O debate sobre a cidade sustentável já não parte de um esquema impresso, mas de uma paisagem de betão por onde passaram - mesmo que virtualmente.

No Victor-Hugo, ninguém finge ter encontrado a fórmula mágica. Os professores ainda improvisam, ajustam, por vezes enganam-se. Uma sessão termina depressa porque um servidor falha; outra deixa parte da turma de fora. Mas algo se deslocou no olhar dos alunos sobre a escola. Para alguns, a frase «não gosto das aulas» transforma-se em «não gosto de todas as aulas, mas estas ainda vá». No papel, parece pouco; é enorme quando se olham trajetórias de alunos que, há um ano, quase já não abriam o caderno.

A imersão não vai resolver desigualdades, não vai substituir professores cansados, não vai fazer desaparecer os trabalhos de casa. Apenas lembra uma evidência que talvez tivéssemos esquecido: aprendemos melhor quando temos o direito de ser tocados. Por uma imagem, por um som, por uma frase que fica. E quando, ao sair da sala, um aluno diz «I felt like I was in a movie», não é apenas a tecnologia que está a elogiar. É a ideia de que a sua própria história também tem direito a um guião diferente.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Imersão direcionada Sessões de VR reservadas aos capítulos em que os alunos mais desligam Perceber como priorizar usos em vez de multiplicar ecrãs
Ritual em três tempos Antes (perguntas), durante (imersão curta), depois (balanço e registo escrito) Dispor de um modelo simples para adaptar na sua turma ou escola
Impacto emocional Os alunos falam de emoções, de cenas «vividas», não apenas de noções Medir o papel do sentir na memorização e no envolvimento escolar

FAQ:

  • A aprendizagem imersiva é só sobre headsets de realidade virtual?
    De todo. No Victor-Hugo, a VR é apenas uma ferramenta entre outras: paisagens sonoras, dramatizações e simples mudanças de iluminação também ajudam a criar imersão sem equipamento high-tech.
  • Este tipo de projeto exige um grande orçamento?
    A escola começou pequeno, com um número limitado de headsets partilhados e parcerias locais. O verdadeiro investimento é tempo para formação de professores e desenho das sessões, não apenas o hardware.
  • Há riscos de enjoos ou desconforto para os alunos?
    Sim, alguns alunos podem sentir tonturas ou ficar sobrecarregados. As sessões são curtas, há alternativas, e ninguém é obrigado a usar headset se se sentir mal.
  • As ferramentas imersivas vão substituir os manuais e cadernos tradicionais?
    Não. Em Lyon, livros e cadernos continuam centrais. As sessões imersivas funcionam como âncoras ou gatilhos que tornam a leitura e a escrita posteriores mais significativas.
  • Esta abordagem pode funcionar fora de grandes cidades como Lyon?
    Sim, desde que seja adaptada aos recursos locais. Mesmo um smartphone com um visor de cartão, ou simulações de baixa tecnologia, pode trazer a sensação de «estar lá» a escolas pequenas ou rurais.

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