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Robôs já conseguem construir uma casa em tamanho real em 24 horas, e especialistas dizem que isto pode ajudar a resolver a falta de habitação.

Robô a construir uma parede de cimento enquanto um engenheiro observa e segura um tablet num estaleiro de obras.

Às 6h43, nos limites de Austin, Texas, um estaleiro de construção acorda com um tipo estranho de silêncio. Não há encarregado a gritar, nem motores a gasóleo a tossir, nem uma equipa reunida à volta de uma garrafa térmica. Apenas uma máquina metálica atarracada sobre lagartas, a zumbir baixinho, enquanto o seu bico traça o contorno de uma futura sala de estar em arcos lentos e constantes de betão. Alguns vizinhos ficam no passeio, a segurar copos de café e telemóveis, a observar paredes a erguerem-se onde na noite anterior havia apenas uma laje. Uma criança murmura: “Parece um robô gigante a decorar bolos.” Os adultos não discordam. Há uma sensação ténue de que algo grande está a acontecer e, ao mesmo tempo, um pensamento muito comum: será que isto vai finalmente tornar uma casa acessível outra vez?
Ninguém o diz em voz alta, mas todos conhecem a pergunta que paira no ar.

Quando uma casa se ergue mais depressa do que os teus planos de fim de semana

A primeira coisa que as pessoas reparam nas casas construídas por robôs não é a tecnologia. É a velocidade. Um camião chega, o robô é colocado no terreno, alguns cabos encaixam no sítio e, antes da hora de almoço, o contorno de uma casa de tamanho normal já está a ganhar forma. Sem equipa de carpintaria, sem paletes de madeira empilhadas até ao céu. Apenas camadas de betão, como uma impressora 3D em esteróides, a desenhar em silêncio o futuro abrigo de uma família diretamente a partir de um plano digital. Pestanejas, olhas para o relógio e percebes que esta estrutura estará pronta para receber o telhado muito antes de a tua máquina de lavar terminar a centrifugação. De repente, todo o ritmo da construção parece desalinhado com aquilo que pensávamos que um “construir” tinha de ser.

Em Georgetown, a norte de Austin, uma startup imprimiu recentemente as paredes de uma moradia T3 em menos de 24 horas de tempo efetivo de máquina. Não é magia - é um braço robótico bem afinado a extrudir uma mistura tipo cimento em cordões regulares, guiado por software que não se cansa nem se distrai. No primeiro dia: um lote nu e plano. Na manhã seguinte: paredes curvas, vãos de portas, caixilhos de janelas - tudo ali, como um modelo em tamanho real largado no sítio. Os vizinhos comentaram que já demoraram mais tempo a montar um guarda-roupa do IKEA. Uma futura compradora disse-me que lhe parecia irreal caminhar por uma casa que não existia ao pequeno-almoço e que, no entanto, já devolvia um ligeiro eco quando os seus passos tocavam no chão. Passou a mão pela parede estriada e disse baixinho: “Isto pode mesmo ser nosso.”

Por detrás desta velocidade está uma lógica simples. A falta de habitação não é só uma questão de terrenos e dinheiro; é uma questão de tempo e mão de obra. A construção tradicional é lenta, fragmentada e vulnerável a qualquer atraso: chuva, trabalhadores doentes, materiais em falta, trânsito, uma medição errada. Um robô que pode trabalhar quase 24 horas por dia, seguir um plano ao milímetro e nunca discutir horas extra muda as contas. Não substitui tudo; eletricistas, canalizadores e equipas de telhados continuam a ser necessários. Mas, se as paredes puderem ficar prontas num dia em vez de semanas, toda a linha temporal do projeto encolhe. É aí que os especialistas veem potencial: não apenas numa casa vistosa, mas em centenas de casas construídas com uma consistência que equipas humanas dificilmente sustentam durante meses seguidos.

Como é que estes robôs de construção conseguem, na prática, fazê-lo

O processo começa muito antes de se deitar qualquer betão. Arquitetos e engenheiros alimentam um modelo 3D da casa em software especializado, que traduz paredes e curvas num percurso “amigo do robô”. É como uma rota de GPS, mas para um bico de extrusão em vez de um carro. No terreno, uma pequena equipa prepara a fundação, verifica a mistura e calibra a máquina. Depois carregam em “iniciar”. O robô começa pelas extremidades, depositando a primeira camada fina como um pasteleiro cuidadoso a cobrir um bolo. Camada após camada, as paredes crescem, parando apenas para que sensores e pessoas verifiquem espessura, temperatura e alinhamento. Tudo isto tem uma calma surpreendente, como ver uma plotter a desenhar uma planta em câmara lenta - exceto que esta planta suporta cargas e dá para viver lá dentro.

É aqui que algumas pessoas ficam nervosas ou céticas - e é compreensível. Todos já vimos esse momento em que uma “nova solução” é anunciada e, discretamente, acaba por ser só publicidade. Com casas construídas por robôs, os receios são específicos: as paredes vão rachar? Quem resolve uma falha às 3 da manhã? Isto significa menos trabalho para os profissionais locais? Os especialistas com quem falei dizem que o maior erro é encarar estas máquinas como varinhas mágicas ou ladrões de empregos. A realidade é mais aborrecida e mais útil: são ferramentas altamente especializadas que continuam a depender de equipas humanas que sabem o que estão a fazer. Sejamos honestos: ninguém lê todas as linhas de um regulamento de construção todos os dias. Os robôs não substituem essa competência - apoiam-se nela.

Um economista da habitação na Califórnia resumiu assim: “Nós não temos um problema de robôs; temos um problema de oferta. Se uma máquina nos puder ajudar a construir mais casas seguras, mais depressa e mais barato, e pessoas reais continuarem a fazer a eletricidade, a canalização e as inspeções, isso não é o fim dos empregos na construção. É o fim de famílias à espera cinco anos por algo que possam pagar.”

  • Velocidade sem caos: os robôs não “aceleram”; repetem. Depois de afinados, depositam material a um ritmo constante, muitas vezes cortando semanas ao calendário sem sacrificar consistência.
  • Menor pressão sobre a mão de obra: em regiões onde os ofícios especializados estão a envelhecer ou simplesmente não existem em número suficiente, estes sistemas podem assumir o trabalho pesado e repetitivo das paredes para que as equipas se foquem no acabamento e nos detalhes.
  • Novas liberdades de design: paredes curvas, plantas invulgares e formas energeticamente eficientes passam a custar menos para experimentar, porque o robô não se importa se a linha é reta ou sinuosa.
  • Visibilidade de custos: quando grande parte da “casca” estrutural é impressa a partir de um plano digital, derrapagens e surpresas tendem a diminuir, tornando os orçamentos menos assustadores tanto para compradores como para construtores.

Isto vai mesmo tornar as casas mais baratas - e para quem?

Pergunta a qualquer urbanista ou jovem inquilino a lidar com uma renda brutal: a velocidade é agradável, mas o preço é a verdadeira ferida. Será que um robô que imprime uma casa de tamanho normal em 24 horas consegue mesmo alterar a curva de custos? Os primeiros projetos sugerem que a “casca” estrutural de uma casa pode baixar 20–30% face à construção tradicional, sobretudo porque há menos trabalho manual nas partes mais pesadas e lentas do processo. Isso não significa que o preço final de venda caia imediatamente um terço. Terreno, licenças, acabamentos, taxas de juro e a simples ganância do mercado continuam lá, à espera. Ainda assim, se conseguires cortar semanas de trabalho e algum desperdício de material em cada unidade de um empreendimento com 100 casas, essas poupanças deixam de ser teóricas. Ficam incorporadas no bairro.

Os especialistas alertam para uma armadilha conhecida: assumir que a tecnologia nova chega automaticamente a quem mais precisa. Alguns dos primeiros projetos com robôs são “montras” reluzentes de inovação, com cozinhas de designer e marketing polido. Ficam bem nas fotografias, mas não parecem propriamente uma resposta à escassez de habitação em localidades em dificuldades ou em cidades sobrelotadas. As experiências mais interessantes são menores e um pouco mais “cruas”. Uma organização sem fins lucrativos no México usou impressoras 3D de grande escala para criar casas compactas para famílias de baixos rendimentos, com foco na durabilidade e na segurança, e não em acabamentos luxuosos. Nos EUA, alguns governos municipais estão discretamente a falar com startups sobre projetos-piloto para anexos no quintal e abrigos de emergência. O tom é cauteloso, quase privado, como se ninguém quisesse dar azar à possibilidade de algo que possa mesmo escalar.

A verdade simples é que os robôs, por si só, não vão resolver uma crise habitacional construída ao longo de décadas de subprodução, batalhas de ordenamento do território e especulação financeira. Uma construção em 24 horas não apaga anos de deriva política. Mas remove uma desculpa: a de que as casas “demoram demasiado” a construir no volume de que as pessoas precisam. Quando uma máquina consegue imprimir paredes robustas durante a noite, a conversa muda. De repente, os debates passam de “Isto é sequer possível?” para “Quem tem acesso a isto?” e “Quem controla as poupanças?”. É aí que o tema se torna político - e também onde os leitores comuns têm mais poder do que pensam. Assembleias municipais, associações de bairro, até vizinhos céticos no passeio podem empurrar estes robôs para resolverem a escassez em vez de apenas decorarem o topo do mercado.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Construções em 24 horas são reais Os robôs conseguem agora imprimir as paredes estruturais de uma casa de tamanho normal em cerca de um dia de trabalho ativo Dá uma noção concreta de quão rapidamente nova habitação poderia surgir na tua cidade
Os humanos continuam centrais Eletricistas, canalizadores, inspetores e equipas de acabamentos continuam essenciais em qualquer casa construída por robô Tranquiliza trabalhadores e compradores: a qualidade e o emprego não desaparecem com a automação
Os custos podem baixar, mas a política decide quem beneficia Custos estruturais mais baixos não garantem preços mais baixos sem regulação inteligente e pressão pública Ajuda-te a perceber onde pressionar localmente para que estes ganhos cheguem às famílias comuns

FAQ:

  • Pergunta 1: Estas casas construídas por robôs são realmente seguras e cumprem as normas?
  • Resposta 1: Sim, quando são bem executadas. As paredes são projetadas para cumprir os regulamentos de construção locais, muitas vezes com misturas de betão armado testadas em laboratório. Os inspetores continuam a validar a estrutura, tal como fariam numa construção tradicional.
  • Pergunta 2: Uma casa pode mesmo ficar “terminada” em 24 horas?
  • Resposta 2: Não. Esse valor de 24 horas refere-se, normalmente, ao tempo necessário para imprimir as paredes. Cobertura/telhado, janelas, portas, instalação elétrica, canalização e acabamentos continuam a demorar dias ou semanas, embora o tempo total de obra seja claramente mais curto.
  • Pergunta 3: Esta tecnologia vai destruir empregos na construção?
  • Resposta 3: A maioria dos especialistas diz que vai deslocar empregos, não eliminá-los. O trabalho pesado e repetitivo das paredes é automatizado, enquanto cresce a procura por operadores, técnicos, ofícios de acabamento e inspetores. Em locais com falta de mão de obra, isto pode até manter os projetos em andamento.
  • Pergunta 4: As casas construídas por robôs são mais baratas para comprar neste momento?
  • Resposta 4: Às vezes, mas nem sempre. Os custos estruturais podem ser mais baixos, mas o preço final depende do terreno, da procura e das escolhas do promotor. À medida que mais projetos ganharem escala, a concorrência pode pressionar os preços em baixa, especialmente em empreendimentos orientados para compradores de rendimento médio ou baixo.
  • Pergunta 5: E quanto ao design - estas casas não acabam todas por parecer iguais?
  • Resposta 5: Não necessariamente. Os robôs imprimem curvas e formas invulgares com facilidade, pelo que os designers podem experimentar plantas que seriam caras em madeira. Ainda verás alguns “modelos base”, mas a variedade é possível e já está a surgir em projetos-piloto.

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