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Segundo especialistas, "Dão-me um mês para sair": aos 87 anos, Maria pode ficar sem casa após 57 anos no mesmo lar.

Idosa segura papéis numa sala iluminada, com caixa de fotografias e calendário na parede.

A mesma cama que partilhou com o falecido marido. O mesmo quarto onde os filhos aprenderam a andar e onde o papel de parede desbotou exatamente no contorno das antigas molduras de família. Na mesa de cabeceira, uma chávena de chá meio bebida arrefeceu. Ao lado, está uma carta com um carimbo vermelho.

“Dão-me um mês para sair”, lê-se na caligrafia cuidada do aviso de despejo. Maria, 87 anos, vive neste pequeno apartamento T2 há 57 anos. O nome do senhorio mudou três vezes. A renda duplicou. A sua pensão, não. Lá fora, o trânsito zune. Cá dentro, o seu mundo está a desmoronar-se em silêncio.

Olha em redor para a sala como se a visse pela primeira vez. A planta junto à janela. O tapete torto. O cadeirão com a marca onde se senta sempre. De repente, tudo parece provisório. Como um quarto de hotel com memórias pregadas à parede.

Há algo na sua voz que sugere que isto é mais do que apenas uma morada.

O dia em que uma casa deixa de ser uma casa

Para Maria, o choque não aconteceu quando viu a carta. Veio quando tentou imaginar onde iria pôr a chaleira. A sua cabeça não pensou em “opções de habitação” ou “percursos de apoio”. Foi diretamente para a mesa da cozinha onde joga às cartas com a vizinha, para o corredor estreito onde esconde as prendas de Natal, para a porta que confirma duas vezes todas as noites antes de se deitar.

Uma casa, depois de lá viver a maior parte da vida, deixa de ser quatro paredes e um contrato. Torna-se um mapa de pequenos rituais. Sabe exatamente qual é a tábua do chão que range. Encontra os interruptores às escuras. Por isso, quando alguém lhe diz que tem 30 dias para sair, não está apenas a mudar-lhe os móveis. Está a rasgar o mapa que usa para se sentir segura no mundo.

Maria não usa palavras grandes como “deslocação” ou “crise da habitação”. Limita-se a olhar para a carta e dizer, baixinho: “Para onde é que eu hei de ir?”

Por toda a Europa e América do Norte, milhares de inquilinos idosos fazem a mesma pergunta. Em Espanha, um relatório de 2023 da Plataforma de Afectados por la Hipoteca registou um aumento dos despejos entre pensionistas à medida que as rendas subiam em bairros em gentrificação. No Reino Unido, instituições como a Shelter avisam que os arrendatários mais velhos enfrentam um “precipício” quando os senhorios vendem, morrem, ou aumentam as rendas para além do que uma pensão permite. Nos EUA, a National Low Income Housing Coalition fala há anos do crescimento da população sénior sem-abrigo a um ritmo mais rápido do que os serviços conseguem acompanhar.

Estes são números grandes no papel. Mas caem em cozinhas reais, em mesas de centro reais, onde avisos como o da Maria ficam entre contas por pagar e postais antigos. Muitas vezes, a história por trás parece assustadoramente semelhante. Um apartamento modesto, antes acessível com o salário de um operário fabril ou de um empregado de loja. Os filhos do proprietário decidem vender. Uma “renovação” duplica a renda. Uma nova lei torna os arrendamentos de curta duração mais rentáveis do que inquilinos de longa duração. De repente, a pessoa que vive ali há mais tempo torna-se a mais fácil de empurrar para fora.

Uma técnica de habitação em Lisboa descreveu o que vê todas as semanas: “Pessoas que sobreviveram aos senhorios, aos patrões, por vezes até aos filhos - e depois são tratadas como se se tivessem mudado no ano passado.” A história de Maria pode parecer dramática, mas não é rara. É apenas raramente contada ao pormenor.

Ao nível das políticas, os especialistas falam de demografia, de populações a envelhecer, de sistemas de pensões que já não acompanham os mercados habitacionais. Apontam para a matemática: quando a renda consome 60% ou 70% de uma pensão fixa, basta uma surpresa - um funeral, uma despesa médica, um aumento da renda - para empurrar alguém da precariedade para a situação de sem-abrigo numa única estação.

Mas há algo mais profundo a acontecer. Construímos cidades onde ficar 50 ou 60 anos na mesma casa não pesa nada em termos legais. A longevidade não dá segurança. A lealdade não baixa a renda. E o “valor de mercado” do prédio fala mais alto do que uma vida inteira de memórias lá dentro.

O resultado é uma forma silenciosa de violência que raramente faz manchetes: pessoas idosas que planearam morrer na sua própria cama e que de repente estão em filas nos serviços sociais, a telefonar a familiares distantes, ou a olhar para bancos de jardim com um tipo de medo que nunca imaginaram para si. Para os especialistas, isto é um “problema sistémico”. Para Maria, parece uma espécie de apagamento suave.

O que os especialistas dizem que uma pessoa de 87 anos ainda pode fazer

Quando Maria levou a carta a uma clínica jurídica local, a voluntária de serviço não falou apenas de direitos. Começou pelo tempo. “Cada dia conta”, disse-lhe, circulando a data do despejo com uma caneta azul. O primeiro passo prático que os especialistas recomendam é simples e brutal: não esperar uma semana, não ter esperança de que se resolva por magia. Telefonar, aparecer, falar com alguém que lida diariamente com problemas de habitação.

Em muitas cidades, isso significa sindicatos de inquilinos, associações de idosos, instituições de caridade ligadas a igrejas, ou balcões municipais de habitação. O jargão pode intimidar, sobretudo quando a vista começa a falhar e a linha de apoio põe cinco minutos de música de espera. Ainda assim, essa primeira conversa importa. Pode revelar coisas que Maria não sabia que tinha: o direito de contestar o prazo, apoio financeiro para rendas em atraso, acesso prioritário a habitação social por causa da idade e da saúde.

Alguns advogados especializados em direitos dos idosos vão mais longe: pedem às famílias, vizinhos, até comerciantes, que reajam depressa quando ouvem uma história como a de Maria. Um telefonema de alguém mais novo pode abrir portas que parecem demasiado pesadas para uma pessoa de 87 anos a viver sozinha.

No papel, a lista de páginas de aconselhamento é interminável. Sites do Estado, folhetos de ONG, blogs meio desatualizados. A realidade é mais confusa. Muitas pessoas idosas têm dificuldade com formulários online, redefinições de palavra-passe, ou viagens de autocarro pela cidade para um gabinete jurídico que só abre entre as 10 e as 12. É assim que as pessoas caem entre as malhas - não por falta de leis, mas por falta de mãos no ombro quando a carta chega.

Sejamos honestos: ninguém lê realmente as letras pequenas do contrato de arrendamento aos 30, 40, 50 anos a pensar no que acontecerá aos 87. Por isso, quando os especialistas falam em “planear com antecedência”, isso pode soar quase cruel para alguém como Maria, que já fez a parte difícil da vida - criar filhos, trabalhar longas horas, sobreviver a recessões - e agora ouve que devia ter contratado um advogado de habitação há dez anos.

É por isso que cada vez mais profissionais no terreno se concentram em ações pequenas, exequíveis. Fazer uma lista de familiares ou amigos a quem ligar. Pedir ao assistente social que escreva as coisas por si. Guardar todas as cartas no mesmo envelope. Levar um vizinho a reuniões. Estes gestos não consertam o sistema, mas ajudam uma pessoa a atravessá-lo sem se perder.

“Dizemos aos inquilinos mais velhos: vocês não são um problema para resolver, são uma pessoa com uma história”, diz Ana, assistente social que passou 12 anos a defender arrendatários idosos. “O sistema fala consigo como se fosse um número de processo. O nosso trabalho é traduzir isso para linguagem humana e comprar-lhe tempo, dignidade e opções.”

Os especialistas que trabalham com idosos em risco de despejo repetem muitas vezes as mesmas verdades discretas. Dizem que a vergonha é um dos maiores inimigos: pessoas idosas a esconderem a carta, a encolherem a vida para os filhos não “se preocuparem”, a fingirem que foi um mal-entendido. Dizem que muitos despejos podiam ser adiados, atenuados ou evitados se alguém por perto percebesse os sinais cedo - a venda súbita de um prédio, a desculpa da “renovação”, o comentário casual sobre transformar apartamentos em alojamento de férias.

Algumas das dicas mais concretas soam quase como conselhos para um simulacro de desastre:

  • Fale com alguém no próprio dia em que recebe o aviso, mesmo que não o compreenda totalmente.
  • Reúna todos os recibos de renda, extratos bancários e contratos antigos numa só pasta.
  • Registe todas as conversas com senhorios, agências ou agentes de execução - datas, nomes, o que foi dito.
  • Peça a um amigo ou familiar mais novo para ajudar a procurar apoios locais à habitação e depois liguem em conjunto.
  • Nunca assine nada no momento se se sentir pressionado/a ou confuso/a.

A pergunta maior que a história de Maria nos coloca

O caso de Maria ainda está “em análise”. É assim que a carta do gabinete de habitação o descreve. Enquanto os processos passam de secretária em secretária, ela dobra mais vestidos, embrulha molduras em toalhas velhas e acorda às 3 da manhã a ouvir, à espera, a pancada na porta que pode ou não acontecer.

Os vizinhos começaram a levar-lhe sopa e papelada. A mulher mais nova do outro lado do corredor ajuda-a a marcar números no telemóvel. Um professor reformado do terceiro andar foi com ela à clínica jurídica. A partir deste pânico silencioso, uma pequena rede de segurança começa a tecer-se na escada de um prédio que em breve pode tornar-se uma série de apartamentos de luxo.

Todos já tivemos aquele momento em que um lugar familiar de repente pareceu frágil - uma casa de infância vendida, um café preferido a fechar, uma mercearia de bairro substituída por algo brilhante e caro. Agora amplie esse sentimento à escala de uma vida de 87 anos. Esse é o peso emocional por trás dos números em relatórios e debates políticos sobre habitação.

Os especialistas continuam a dizer que o que acontece hoje a Maria pode acontecer amanhã a muitos de nós. O arrendamento de longa duração está a aumentar. A propriedade de casa está cada vez mais fora do alcance das gerações mais novas. As pensões ficam para trás face ao custo de vida. O “novo normal” parece mais precário a cada década.

Por isso, quando uma mulher idosa diz “Dão-me um mês para sair”, a questão não é apenas onde vai dormir no próximo mês. É que tipo de cidades estamos a construir e se a lealdade a um lugar ainda conta para alguma coisa. Algures entre os prazos legais e a lógica do mercado, há espaço para outra coisa: vizinhos atentos, autarquias que tratem o despejo como último recurso, e famílias que falem cedo sobre o que pode acontecer se um senhorio decidir capitalizar.

Maria não fala nesses termos. Diz apenas que quer manter a vista da janela da cozinha - a árvore que perde as folhas todos os outonos, o letreiro da padaria que consegue ler sem óculos, o banco da paragem de autocarro onde às vezes se senta ao sol. A sua história fica no ar como uma pergunta em aberto, à espera de uma resposta que não cabe num formulário legal.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Os despejos entre inquilinos idosos estão a aumentar Especialistas em vários países relatam mais pensionistas a enfrentar aumentos de renda, vendas de prédios e “despejos por renovação” após décadas na mesma casa. Ajuda os leitores a ver a história de Maria como parte de uma tendência mais ampla que pode atingir a sua própria família.
A ação precoce pode alterar os resultados Contactar sindicatos de inquilinos, clínicas jurídicas ou assistentes sociais assim que o aviso chega pode adiar ou, por vezes, evitar o despejo. Oferece ideias práticas sobre o que fazer de imediato se um familiar idoso ou vizinho receber uma carta semelhante.
A resposta da comunidade continua a ser importante Vizinhos, familiares e redes locais muitas vezes fornecem o apoio em falta que as leis e os sistemas não conseguem garantir. Incentiva os leitores a pensar no seu papel na proteção de pessoas idosas vulneráveis à sua volta.

FAQ:

  • Porque é que tantas pessoas idosas estão agora em risco de despejo? As rendas subiram mais depressa do que as pensões e, à medida que os prédios são vendidos ou convertidos, inquilinos de longa duração como Maria tornam-se alvos fáceis para substituições por pessoas com maior capacidade de pagamento.
  • Alguém na casa dos 80 anos tem mesmo direitos legais enquanto inquilino? Sim. Em muitos locais, a idade, a saúde e o tempo de residência podem influenciar como e quando um despejo é executado, podendo abrir a porta a proteções adicionais ou adiamentos.
  • Qual é a primeira coisa a fazer se um familiar idoso receber um aviso de despejo? Verifique o prazo e, no mesmo dia, contacte um serviço local de apoio ao inquilino ou uma clínica de apoio jurídico, levando a carta e qualquer documento de arrendamento que conseguir encontrar.
  • É realista esperar que uma pessoa de 87 anos trate disto tudo sozinha? Não muito. A maioria dos especialistas diz que o apoio de família, vizinhos ou voluntários é crucial, sobretudo para navegar telefonemas automatizados, formulários online e marcações oficiais.
  • Como posso ajudar se for apenas um/a vizinho/a? Ofereça-se para ler a carta com a pessoa, acompanhá-la a um balcão de habitação, ajudar a fazer telefonemas e partilhar contactos de grupos locais de apoio ou instituições que trabalhem com pessoas idosas.

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