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Segundo especialistas, um psicólogo afirma que a vida só melhora quando deixamos de procurar felicidade e começamos a procurar significado.

Pessoa escreve em caderno ao lado de chá, planta e livro sobre autoajuda numa mesa de madeira junto à janela.

On ne é de nós já viveu aquele momento em que o dia foi “ok”, sem ser verdadeiramente bom. Café aceitável, colegas simpáticos, nenhum drama. E, ainda assim, no caminho de volta, uma pergunta insinua-se discretamente: “É isto, então, a minha vida?”
Nos últimos anos, repetem-nos que devíamos ser felizes. O tempo todo. Como se qualquer quebra de humor fosse um bug a corrigir. As redes sociais exibem sorrisos em série, os podcasts prometem “a rotina perfeita para ser feliz”, e a publicidade vende momentos de alegria como vende sapatos.
Um psicólogo americano afirma que esta obsessão nos torna, paradoxalmente, mais infelizes. Defende que a verdadeira viragem acontece quando deixamos de correr atrás da felicidade… e começamos a procurar outra coisa.
Algo mais pesado. E mais poderoso.

Porque é que perseguir a felicidade continua a escapar-te por entre os dedos

Imagina uma mulher nos seus trinta e poucos anos, sentada num café de coworking, portátil aberto, latte art perfeitamente desenhada, playlist lo-fi a tocar em fundo. No papel, marcou tudo: trabalho remoto relativamente bem pago, escapadinhas de cidade regulares, círculo de amigos, séries da Netflix, terapia e velas perfumadas.
E, no entanto, o olhar perde-se entre duas notificações do Slack. Dá por si a pesquisar no Google “why am I not happy even if my life is good”. Fecha logo o separador, envergonhada com a própria pergunta.
Não lhe falta nada, mas falta qualquer coisa.

Os psicólogos observam este paradoxo há anos. Quanto mais se fixa a felicidade como objetivo, mais ela parece afastar-se. Um estudo publicado no Journal of Positive Psychology mostrou que as pessoas que atribuem um valor muito elevado à felicidade sentem, na realidade, mais solidão e frustração.
Quando se diz “tenho de ser feliz”, cada dia mediano parece um fracasso. Cada domingo à noite torna-se um mini-veredicto sobre a nossa existência.
A felicidade transforma-se numa espécie de KPI emocional. E começamos a autoavaliar-nos permanentemente.

Logicamente, este mecanismo cansa o cérebro. Perseguir a felicidade é como correr atrás de uma bola insuflável na água: no momento em que achamos que a temos, ela escorrega para outro lado. Os momentos agradáveis acontecem, claro, mas dissecamo-los de imediato: fui suficientemente feliz? Isto devia ser melhor? É como no Instagram?
Este olhar constante sobre o nosso próprio nível de satisfação cria um ruído de fundo ansioso.
E é aqui que vários psicólogos, incluindo Viktor Frankl antes do seu tempo, insistem: a felicidade não suporta ser perseguida. Não gosta de luz direta. Surge antes como um efeito secundário de outra coisa: o sentido.

O que muda quando começas a perseguir o sentido, em vez disso

Um psicólogo contemporâneo resume muitas vezes a ideia assim: não procures ser feliz; procura ser útil. Não útil ao mundo inteiro, nem necessariamente heroico. Útil a algo que ultrapasse o teu conforto imediato.
Meaning nem sempre é agradável, nem “instagramável”. Levantar-se às 3 da manhã por causa de um bebé doente não é “divertido”. Ajudar um pai ou uma mãe envelhecido/a, manter um projeto exigente, aprender uma competência difícil: tudo isso custa no momento.
E, no entanto, essas experiências criam um fio condutor na nossa história. Contam quem nos estamos a tornar.

Um exemplo marcante surge muitas vezes em consulta: os novos pais. Os estudos mostram que o nível de felicidade declarado baixa no primeiro ano: cansaço, tensões, frustração, falta de tempo. Na escala do prazer imediato, a nota desce.
Mas quando, alguns anos depois, lhes perguntam se se arrependem ou se sentem um sentido profundo, a resposta muda radicalmente. A “felicidade” do dia a dia nem sempre está lá, mas o significado global dispara.
Acontece o mesmo com alguém que se lança numa reconversão difícil, ou que faz voluntariado todas as semanas. No momento, muitas vezes é duro. Na história de vida, torna-se fundador.

Visto por este prisma, uma vida “cheia de sentido” não é necessariamente confortável, nem constante. É feita de escolhas que alinham o que fazes, o que acreditas e o que queres deixar para trás.
Os psicólogos falam, por vezes, de quatro fontes de sentido: pertença (estar ligado a outros), transcendência (sentir que fazemos parte de algo maior), narrativa (a história que contamos sobre a nossa vida) e mestria (progredir em algo que conta para nós).
O paradoxo é que, quando estas quatro dimensões são alimentadas, a felicidade tende a aparecer… sem ter sido convidada.
Não como fogo de artifício, mas como pequenas brasas estáveis.

Como parar de perseguir a felicidade e construir, em silêncio, uma vida com sentido

Os especialistas sugerem um gesto muito concreto para começar: mudar a pergunta que fazemos à noite. Em vez de “Fui feliz hoje?”, pergunta: “O que teve sentido hoje?”
Pode ser minúsculo: enviar uma mensagem sincera a um amigo, terminar uma tarefa que estavas a adiar, estar realmente presente à mesa sem telemóvel. A ideia não é transformar a tua vida de um dia para o outro.
É treinar o teu cérebro a detetar o sentido tanto quanto o prazer.
Ao fim de algumas semanas, esta simples mudança de pergunta altera aquilo que realmente valorizas no teu dia.

Muitas pessoas cometem o erro de acreditar que “procurar sentido” implica largar tudo, abrir uma ONG ou escrever um romance revolucionário. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias.
A procura de sentido, na vida real, parece-se mais com microajustes: dizer não a um projeto que te esvazia, aceitar um desafio que te assusta um pouco mas se parece mais contigo, tirar dez minutos para explicar pacientemente algo a alguém em vez de ires mais depressa sozinho.
Por vezes, exige largar algum conforto a curto prazo. Mas torna os teus dias menos intercambiáveis.

Um psicólogo resume muitas vezes a transição assim:

“A felicidade pergunta: como me sinto agora? O sentido pergunta: em quem me estou a tornar com aquilo que estou a fazer?”

Para ajudar a ancorar tudo isto, podes apoiar-te em três perguntas simples:

  • A quem ou a quê quero que a minha vida seja útil, para lá de mim?
  • Que atividades me cansam, mas me deixam estranhamente orgulhoso/a quando termino?
  • Em que situações penso: “Ali, eu estava mesmo a ser eu”?

Não terás todas as respostas numa semana. E não é esse o objetivo.
O objetivo é deslocar, devagar, o centro de gravidade da tua vida.

Deixar a pergunta em aberto (e aprender a viver com isso)

Parar de correr atrás da felicidade não é desistir de estar bem. É deixar de tratar a vida como um produto para otimizar. Quando te focas no sentido, aceitas que alguns dias sejam coxos, cinzentos, contraditórios, sem que isso seja um drama.
Começas a ver que os momentos difíceis não são necessariamente anomalias, mas por vezes capítulos necessários.
E devolves à alegria o seu verdadeiro papel: uma visitante, não um contrato.

Uma existência cheia de sentido não se mede apenas pela quantidade de risos ou de memórias “instagramáveis”, mas por esta frase discreta: “No fundo, eu sei porque estou a fazer isto.”
Esse “porquê” pode mudar, transformar-se, afinar-se. Pode ser múltiplo, imperfeito, nem sempre claro. O essencial é continuar a interrogá-lo, em vez de te perguntares em loop se és suficientemente feliz.
Essa pergunta, “Porque faço isto?”, pode ser leve num dia, brutal noutro. Pode abrir portas que nunca tinhas imaginado.

Podes experimentar. Repensar as tuas prioridades durante três meses e ver o que acontece. Colocar o prazer imediato ligeiramente em segundo plano, sem o eliminar. Dizer sim a algo que faz sentido mesmo que não seja “divertido” no momento. Dizer não a algo “divertido” que, no fundo, te deixa vazio/a.
Talvez descubras que a felicidade não está onde te disseram para a procurar.
E que a verdadeira pergunta não é “Sou feliz?”, mas “Estou a construir uma vida que respeito?”

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Perseguir a felicidade esgota O foco em “ser feliz” aumenta a frustração e a autoavaliação constante Perceber por que motivo a busca da felicidade pode tornar-nos mais ansiosos
O sentido muda a perspetiva Centrar-se na utilidade, na pertença e no progresso cria uma vida mais coerente Oferecer uma bússola mais estável do que o humor do momento
Pequenas ações chegam Mudar a pergunta da noite, ajustar escolhas, visar “em quem me estou a tornar” Dar gestos concretos para reorientar o quotidiano

FAQ:

  • É errado querer ser feliz?
    De todo. O problema começa quando a felicidade se torna uma obsessão ou um placar de resultados, em vez de um subproduto de uma vida com sentido.
  • Como sei se a minha vida tem “sentido”?
    Nem sempre o vais “sentir”. Alguns sinais são: apoias algo para lá de ti, aceitas algum desconforto por isso e sentes um orgulho tranquilo quando pensas no assunto.
  • A diversão e o sentido podem coexistir?
    Sim. Algumas das atividades mais significativas também podem ser alegres. A chave é não sacrificar todo o sentido por diversão de curto prazo.
  • E se eu não tiver uma grande paixão ou propósito?
    O sentido nem sempre é grandioso. Pode estar em cuidar de pessoas, fazer o teu trabalho com integridade, criar pequenas coisas que melhoram a vida dos outros.
  • Como começo, na prática, esta semana?
    Todas as noites, aponta uma coisa que tenha tido sentido, mesmo muito simples. Depois, pouco a pouco, dá mais espaço a essas coisas na tua agenda.

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