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Um estudante lança um movimento nacional pela saúde mental nas universidades.

Jovem fala ao microfone ao ar livre diante de colegas sentados, com papéis e fichas numa mesa ao ar livre.

Ce martes, num anfiteatro com ar condicionado em excesso, um estudante decidiu que já chegava. Perante cerca de uma centena de jovens exaustos, telemóvel na mão, olheiras marcadas, pegou no microfone para falar sobre aquilo que toda a gente sentia, mas que quase ninguém se atrevia a nomear: a angústia, a pressão, o medo de não aguentar.

Chama-se Maya Thompson, tem 21 anos e está no segundo ano de Biologia. Não é presidente de associação de estudantes, não é estrela do TikTok, não é um “líder natural” como se lê nos folhetos. É só alguém que conhece noites em branco, pensamentos escuros, consultas desmarcadas por falta de coragem.

Nessa noite, não fez um discurso perfeito. A voz tremia-lhe, as mãos também. Ainda assim, em dez minutos, desencadeou aquilo a que os jornalistas chamariam, alguns meses depois, “a primeira vaga estudantil de um movimento nacional pela saúde mental nos campus”. Ninguém no anfiteatro o viu chegar.

De um discurso trémulo a um movimento nacional de estudantes

No início, o “movimento” cabe num simples Google Form. Uma ideia rabiscada à pressa: perguntar aos estudantes se aceitariam partilhar, anonimamente, a sua experiência com ansiedade, depressão, solidão. A Maya envia-o a três amigos, que o enviam a outros três, e depois a um professor. Em 48 horas, acorda com mais de 600 respostas, vindas de faculdades de que nunca sequer tinha ouvido falar.

As histórias são cruas, por vezes desajeitadas, muitas vezes comoventes. Um estudante conta as suas crises de pânico antes dos exames. Outra explica como sorri nas festas enquanto pensou em desistir três vezes neste semestre. A Maya lê tudo. Chora muitas vezes. Mas acontece alguma coisa: pela primeira vez, aquilo que parecia isolado, pessoal, quase vergonhoso, toma a forma de um fenómeno colectivo.

Um professor de Sociologia dá com o questionário, fala dele num colóquio e depois no LinkedIn. Um jornalista local interessa-se. À noite, a Maya chega a casa e descobre que o seu pequeno formulário de estudantes é citado num artigo com o título: “Mental health: students speak out”. Ela não pediu nada. Já quase não controla coisa nenhuma. E, no entanto, sente confusamente que talvez seja isto - o começo.

Os números confirmam essa impressão. Nas semanas seguintes, outros cinco campus pegam no questionário, adaptam-no, alargam-no. Em vez de um simples inquérito, os estudantes organizam noites de leitura (anonimizada) de testemunhos, círculos de partilha, paredes de recados onde cada um pode pendurar uma palavra, uma frase, um desenho. Em menos de três meses, 17 universidades participam. As associações começam a falar do “The Open Door Project”, nome improvisado pela Maya num e-mail escrito um pouco depressa. A expressão fica. Circula. Começa a unir.

Em paralelo, as estatísticas oficiais sobre saúde mental estudantil disparam nos relatórios públicos. As universidades, muitas vezes lentas a mexer-se, vêem-se perante uma realidade difícil de ignorar: as filas à porta dos serviços de psicologia internos aumentam, os burnouts precoces disparam, os pedidos de ajuda sobem. Só que, desta vez, a conversa não vem de cima. Vem de estudantes que recusam que o tema seja tratado uma vez por ano, numa “semana de sensibilização” bem enquadrada.

Nas redes, a hashtag #OpenDoorCampus começa a aparecer sob vídeos gravados em bibliotecas silenciosas, quartos de residência desarrumados, cafetarias cheias. Os jovens contam o momento exacto em que quase desistiram. Estes fragmentos do quotidiano criam uma paisagem emocional comum, a anos-luz das campanhas polidas com fotografias de banco de imagens. Um sociólogo chamaria a isto “tornar visíveis vulnerabilidades ordinárias”. A Maya chama-lhe apenas “repor a verdade sobre o que vivemos mesmo na faculdade”.

Como o movimento funciona, na prática, no terreno

Muito depressa, o movimento tem de sair dos ecrãs para existir de verdade. A primeira decisão concreta da Maya é quase banal: reservar uma pequena sala ao fim da tarde, todas as semanas, à mesma hora. Não é um grupo terapêutico, nem um “workshop” oficial. É só uma hora em que qualquer pessoa pode entrar, sentar-se, ouvir ou falar. Uma porta aberta, literalmente.

A regra é simples: nada é obrigatório, ninguém se apresenta se não quiser, não se escreve qualquer acta. Na primeira vez, aparecem três pessoas. Na segunda, doze. Na terceira, a sala enche e alguns ficam de pé no corredor. Este formato sem formalidades tranquiliza quem não se revê nas estruturas clássicas de apoio psicológico. Longe de ser uma solução milagrosa, este espaço torna-se uma antecâmara - um lugar onde se pode dizer “não estou bem” sem que tudo pare à volta.

Ao longo das semanas, instalam-se práticas, muitas vezes improvisadas. Uma estudante imprime cartões com frases-recurso que se podem tirar ao sair. Um doutorando em Psicologia aparece por vezes para explicar, sem jargão, como funciona uma crise de ansiedade. Uma enfermeira do campus passa discretamente para deixar folhetos dos serviços de saúde, sem recolher nomes. Nada é perfeito, tudo é um pouco artesanal, mas o ambiente muda.

Noutros campus, o movimento toma formas diferentes. Em Chicago, estudantes organizam “mental health walks”: caminhadas lentas, em pequenos grupos, à volta do lago, sem telemóvel, só para conversar enquanto andam. Em Austin, o grupo local do Open Door monta uma “listening booth”, uma espécie de pequena cabine onde se pode deixar uma mensagem áudio anónima que depois é transcrita e afixada numa parede. Os formatos variam; a intenção mantém-se: tornar a conversa sobre saúde mental tão banal como uma conversa sobre exames.

Claro que nem tudo é simples. Alguns administradores preocupam-se com os “riscos jurídicos”. Associações já existentes sentem-se, por vezes, concorridas. E, sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem cansaço, sem dúvidas. A própria Maya passa por fases de saturação. Aprende a dizer não a alguns pedidos, a delegar, a lembrar que o movimento não é um serviço de urgência nem um substituto de acompanhamento médico. É um espaço, não uma cura absoluta.

O que qualquer campus (ou estudante) pode copiar daqui

O primeiro método que a Maya partilha quando lhe perguntam “como começar” resume-se a três palavras: start very small. Aconselha juntar duas ou três pessoas de confiança e colocar uma única pergunta clara: “O que é que aqui tornaria a nossa vida mental um pouco menos difícil, agora?” Não para todos os estudantes do país. Só para este pequeno grupo, neste contexto específico.

A partir daí, sugere escolher uma acção minúscula, realizável numa semana. Um formulário anónimo distribuído numa única turma. Uma mesa com chá gratuito e um cartaz “You’re not alone” à saída da biblioteca. Um e-mail colectivo a um director para pedir horários alargados do centro de saúde mental. O truque, diz ela, é aceitar que o primeiro passo pode parecer ridículo no papel. Não faz mal se, no início, não parecer um “movimento”.

Insiste também num ponto: não se forçar a formalizar tudo depressa demais. Muitos grupos activistas esgotam-se a escrever cartas de princípios, manifestos, actas, quando ainda há muito poucas pessoas envolvidas. Aqui, no começo, basta um documento partilhado com algumas frases-chave: confidencialidade, benevolência, ausência de julgamento, sem pressão para se expor. O importante é que cada um saiba ao que vai ao atravessar a porta - virtual ou real.

O que aparece muitas vezes nos testemunhos dos estudantes envolvidos no Open Door é o medo de “fazer mal”. Medo de dizer a coisa errada a alguém em sofrimento. Medo de ficar sem capacidade. Medo também de ser visto como “aquele/aquela que tem problemas” só por se atrever a abrir a conversa. É aqui que o movimento assenta muito na empatia entre pares.

Os grupos locais repetem uma ideia simples: tu não és terapeuta, és testemunha. Não estás ali para salvar ninguém, estás ali para não o deixar sozinho. Esta nuance alivia muito a pressão. Em vez de prometer soluções, os estudantes permitem-se oferecer presenças: um lugar à mesa, uma mensagem depois de um exame difícil, um “queres dar uma volta?” dito a alguém que parece apagado.

Os erros frequentes? Querer carregar tudo às costas, confundir compromisso com disponibilidade 24/7, sentir culpa assim que se dá um passo atrás. A Maya conta sem filtros os momentos em que quis parar tudo. E aí aparece um enquadramento emocional implícito: perceber que cuidar dos outros sem se perder a si próprio é uma aprendizagem permanente, não um instinto inato.

“Percebi que a verdadeira coragem não era ser forte para toda a gente, o tempo todo”, explica a Maya num encontro inter-campus. “Era admitir quando eu também não estava bem e deixar o grupo carregar-me um pouco. Foi aí que percebi que não era ‘o meu’ movimento. Era o nosso.”

Para quem quer inspirar-se concretamente no modelo Open Door, há vários princípios que se repetem nos campus que melhor resultam:

  • Começar localmente, numa única turma ou residência, antes de alargar
  • Criar pelo menos um espaço regular, a hora fixa, onde os estudantes saibam que podem aparecer
  • Clarificar a diferença entre apoio entre pares e acompanhamento profissional
  • Formar um pequeno núcleo de pessoas de referência, com um ponto focal de “bem-estar” por grupo ou associação
  • Registar as necessidades identificadas para dialogar com a administração com base em dados concretos

Não são receitas mágicas. São, antes, uma espécie de caixa de ferramentas mínima, para adaptar a cada campus, a cada cultura, a cada geração.

Um movimento que continua a reescrever a sua própria história

O que impressiona, quando se acompanha esta história ao longo de vários meses, é a forma como o movimento escapa à narrativa heróica clássica. Não há uma grande figura carismática que salva toda a gente. Não há um momento único em que tudo muda. Há, antes, uma multiplicidade de pequenas cenas, gestos discretos, experiências falhadas e retomadas. Uma espécie de ecossistema frágil, alimentado por centenas de micro-iniciativas.

Quando a imprensa nacional começa a pegar no tema, a Maya recusa várias vezes ser apresentada como “a fundadora de um movimento revolucionário”. Sabe demasiado bem que, sem os núcleos locais, sem os coordenadores noutras cidades, sem os estudantes que simplesmente se sentam uma hora numa sala e dizem “estou exausto”, nada existiria realmente. Repete que a verdadeira história não é a de um sucesso pessoal, mas a de uma mudança de clima emocional.

Nalguns campus, essa mudança vê-se em sinais minúsculos: professores que finalmente passam a incluir, de forma clara, referências a recursos de saúde mental nos seus programas; associações que integram um momento de partilha no fim das reuniões para falar de cansaço, sobrecarga, ansiedade; grupos de WhatsApp que não servem apenas para trocar apontamentos, mas também “estás bem hoje?” espontâneos.

Nada disto se mede facilmente nos gráficos de fim de ano. E, no entanto, muitos estudantes descrevem o mesmo sentimento: o de deixarem de ser obrigados a representar permanentemente um papel de “performance mental”. Alguns contam que, pela primeira vez, se atrevem a enviar um e-mail a um professor a dizer: “estou a atravessar um período psicologicamente complicado, vou precisar de mais tempo”. E, por vezes, a resposta é humana. Nem sempre, mas vezes suficientes para mudar qualquer coisa.

O futuro do movimento permanece vago. Talvez se transforme numa rede estruturada, com financiamento, cartas de princípios, formações oficiais. Talvez permaneça deliberadamente flexível, quase inaprensível. Talvez inspire versões diferentes no ensino secundário, em escolas profissionais, em empresas que recebem estagiários esgotados antes mesmo do primeiro contrato sem termo.

O que fica é esta pergunta, um pouco crua, que muitos jovens fazem em silêncio: como é uma universidade que leva verdadeiramente a sério aquilo que os seus estudantes vivem por dentro, e não apenas o que produzem por fora? O Open Door não dá uma resposta definitiva. Propõe um terreno de ensaio - imperfeito, em movimento, muito humano.

E talvez seja isso, no fim, que dá vontade de partilhar esta história: a ideia de que um movimento nacional pode nascer de uma voz a tremer num anfiteatro, de um questionário improvisado numa noite de cansaço, de um punhado de pessoas que se recusam a deixar a solidão ganhar por defeito. E também a convicção de que, em qualquer campus, alguém lê estas linhas e pensa: “Nós também podíamos tentar alguma coisa.”

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Um movimento nascido de uma iniciativa comum Uma estudante, um simples questionário, e depois encontros semanais Mostrar que uma acção modesta pode desencadear uma mudança colectiva
Formatos concretos, fáceis de adaptar Salas abertas, caminhadas, cabines de escuta, círculos anónimos Dar ideias práticas para o próprio campus ou grupo
Uma cultura de apoio entre pares Presença, escuta, clarificação do papel não terapêutico Ajudar a envolver-se sem esgotar, mantendo limites saudáveis

FAQ

  • Este movimento é apenas para estudantes com um diagnóstico?
    De modo nenhum. O Open Door foi construído à volta das dificuldades do dia a dia que a maioria dos estudantes enfrenta em algum momento: stress, insónia, solidão, pressão de desempenho. Alguns membros têm diagnóstico, outros não. O ponto comum é simplesmente: “isto está a ser difícil agora”.
  • É preciso aprovação da universidade para lançar algo semelhante?
    Não. Muitos grupos começam de forma informal: um encontro semanal num café, uma caminhada depois das aulas, um documento partilhado. O apoio institucional pode ajudar mais tarde, mas raramente é o primeiro passo.
  • E se eu me sentir esmagado/a pelas histórias dos outros?
    É um risco real. Define limites desde o primeiro dia: és um par, não um terapeuta. Limita o tempo que dedicas, roda responsabilidades e mantém activo o teu próprio sistema de apoio.
  • Isto pode existir ao lado de serviços profissionais de saúde mental?
    Sim, e é assim que funciona melhor. Espaços entre pares criam ligação e reduzem a vergonha; os profissionais tratam do cuidado clínico. São complementares, não concorrentes.
  • Como evitar que isto se torne apenas mais um “clube” que perde força?
    Aceitando ciclos. Há semestres intensos e outros mais calmos. Incentiva pessoas novas a juntar-se ao núcleo, mantém os formatos simples e volta regularmente à pergunta: “Do que é que precisamos mesmo aqui, agora?”

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