Você acena com a cabeça, sorri, finge que está a acompanhar, mas a sua mente está a repetir uma mensagem que recebeu há uma hora. Os lábios dela continuam a mexer-se, o seu cérebro continua a comentar, e a conversa real escorrega silenciosamente para longe. Quando ela termina, responde com algo vago e seguro. Ela sorri por educação. Ambos sabem que mal a ouviu.
Mais tarde, no metro ou no sofá, a cena volta como um vídeo mal editado. Lembra-se da expressão nos olhos dela. A ligeira quebra de energia. O momento em que ela percebeu que você não estava realmente ali com ela.
Falamos de “estar presente” como se fosse um superpoder espiritual. Na maioria dos dias, é apenas uma luta real com o ruído dentro da nossa própria cabeça.
Porque é que o seu cérebro fala por cima das pessoas
Em qualquer conversa, há na verdade dois diálogos a acontecer. Aquele que se ouve, em voz alta, e aquele que corre silenciosamente na sua cabeça. Esse fluxo interno de comentários, julgamentos, planos sobre o que vai dizer a seguir. Aparece depressa, quase automático.
O seu colega começa a descrever um problema, e o seu cérebro apressa-se com “já sei onde isto vai dar” ou “isto está a fazer-me perder tempo”. Tecnicamente, sim, está a ouvir. Mas a sua atenção fica dividida ao meio, como duas estações de rádio a tocar ao mesmo tempo. Uma delas é sempre a sua própria voz.
O estranho é que este comentador interno não é mau. Está a tentar ajudar. Quer protegê-lo do tédio, do conflito, do silêncio embaraçoso. Só não sabe quando é que deve calar-se.
Um inquérito recente no local de trabalho no Reino Unido perguntou aos colaboradores com que frequência sentiam que eram “realmente ouvidos” pelos seus gestores. Apenas 29% responderam “regularmente”. Os restantes ficaram entre “raramente” e “quase nunca”. Não estavam a acusar os chefes de serem cruéis. Apenas… de estarem noutro sítio.
Numa videochamada, quase dá para ver isso a acontecer. Alguém começa a abrir-se sobre um projeto que está a correr mal. As caras no ecrã ficam imóveis, os olhos desviam-se, os dedos vão para o teclado. As pessoas não ficam subitamente mal-educadas; estão a ser puxadas de volta para o seu próprio mundo mental.
Um gestor contou-me que, nessa noite, repetiu na cabeça uma reunião individual. “Percebi que passei o tempo todo a preparar a minha resposta”, disse. “Não ouvi, de facto, a parte em que ela disse que estava perto do burnout.” O monólogo interno dele falou mais alto do que a voz real dela.
Os nossos cérebros gostam de velocidade. Correm à frente da conversa, preenchem lacunas, prevêem finais, preparam respostas rápidas. Ouvir - ouvir a sério - é mais lento e mais silencioso. Essa lentidão é desconfortável, quase como não fazer nada. Então, a mente tenta preencher o espaço com ruído interno.
O que atrapalha a escuta não é falta de cuidado. É o hábito de reagir por dentro antes de a outra pessoa sequer terminar um pensamento. Cada reação é como uma pequena janela pop-up no ecrã de um computador portátil. Uma é suportável. Dez, e já não consegue ver o documento.
Quando repara nisto, deixa de perguntar “Como posso ouvir melhor?” e começa a perguntar “O que é que a minha mente está a fazer enquanto a outra pessoa fala?” É aí que tudo muda.
O interruptor interno simples: rotular, depois aliviar
Há uma pequena técnica que soa quase simples demais: quando reparar que a sua voz interna está a entrar em cena, dê-lhe mentalmente um rótulo de uma só palavra. “A julgar.” “A defender.” “A consertar.” Depois, alivie gentilmente o seu aperto sobre isso e volte a atenção para quem está a falar.
O seu colega diz: “Acho que precisamos de mudar o plano.” Por dentro, salta uma voz: “Outra vez isto. Ele não percebe.” Você apanha essa voz e dá-lhe um nome em silêncio: “A julgar.” Só isso. Sem auto-crítica, sem drama. Apenas uma etiqueta leve.
Esse instante de rotulagem cria um pequeno espaço. Nesse espaço, já não está fundido com o pensamento. É você quem o vê, não você quem é conduzido por ele. Nesse espaço, pode escolher voltar a ouvir.
Num nível muito prático, isto parece confuso. Vai esquecer-se. Vai lembrar-se a meio de uma conversa. Tudo bem. Repara, rotula, volta. Numa discussão difícil, pode fazê-lo vinte vezes em dez minutos. “A defender.” “A planear a resposta.” “A culpar.”
Sejamos honestos: ninguém faz isto realmente todos os dias, de manhã à noite. Mas fazê-lo mesmo que apenas em algumas conversas-chave por semana muda a dinâmica de forma dramática. Passa de resistência automática para uma presença curiosa.
Eis uma armadilha comum: as pessoas tentam “afastar” os pensamentos. Isso raramente funciona. Quanto mais luta contra eles, mais alto gritam. Rotular é diferente. Não está a discutir com o pensamento; está apenas a colocar-lhe um pequeno autocolante.
Com o tempo, começa a ver padrões. Talvez repare que com uma pessoa específica, “A defender” aparece nos primeiros 30 segundos. Ou que em reuniões de equipa, a sua mente vive sobretudo em “A impressionar” e “A atuar”. Ver o padrão é onde o crescimento começa, discretamente.
“O maior problema de comunicação é que não ouvimos para compreender. Ouvimos para responder.”
Para esta técnica não parecer abstrata, ajuda ter uma pequena cábula na cabeça. Um menu mental de rótulos que pode usar quando a rádio interna começa a tocar no volume máximo.
- A julgar – “Isto é estúpido”, “Ele está a exagerar”, “Ela está a reagir demais”
- A consertar – Correr para conselhos, soluções, listas de verificação
- A defender – Preparar-se para justificar ou explicar-se
- A atuar – Tentar parecer inteligente, engraçado, impressionante
- A escapar – Ir para o telemóvel, e-mails, outra tarefa na sua cabeça
Transformar uma melhor escuta num hábito diário e discreto
Há uma forma suave de praticar isto sem transformar a sua vida num campo de treino de autoaperfeiçoamento. Escolha apenas uma conversa por dia e declare-a a sua “sessão de ginásio da escuta”. Pode ser uma chamada com o seu chefe, uma conversa rápida com o seu parceiro, ou uma nota de voz de um amigo à qual você se dedica mesmo a ouvir.
Nessa conversa, a sua única missão secreta é: reparar nas suas reações internas. Quando apanhar uma, rotule-a e depois deixe-a ficar em segundo plano, como uma televisão a dar noutra divisão. Não precisa de a desligar. Apenas volta para a divisão onde a outra pessoa está.
Algumas pessoas acham útil ancorar isto com um pequeno sinal físico. Dois dedos a tocarem-se levemente, os pés a sentir o chão, uma inspiração lenta. É como carregar num botão de “modo de escuta” por alguns segundos. Um pequeno ritual, uma grande mudança.
Esta forma de ouvir não é sobre ser santo ou perfeitamente calmo. É sobre estar um pouco mais disponível no exato momento em que alguém precisa de si. Por vezes é uma conversa enorme sobre carreira ou relação. Por vezes é um colega a dizer: “Tens um minuto?” quando o que ele realmente quer dizer é “Estou com dificuldades.”
Num dia mau, a sua rádio interna vai estar alta. Vai rotular “A julgar” e ainda assim vai parecer pegajoso. Vai notar “A defender” e ainda assim vai saltar para se justificar depressa demais. Está tudo bem. Está a construir um músculo, não a fazer um exame.
A magia silenciosa é que muitos conflitos se desfazem antes de endurecerem quando uma pessoa simplesmente ouve um pouco mais do que o habitual. Mais uma respiração antes de responder. Mais uma frase ouvida antes de interromper. Esse micro-intervalo pode transformar uma discussão numa clarificação, ou uma queixa em feedback útil.
Num nível mais profundo, esta técnica muda a forma como as pessoas se sentem à sua volta. Talvez não consigam dar nome a isso, mas sentem que a conversa tem espaço. Espaço para as pausas delas, as confusões, as ideias meio acabadas. Você torna-se alguém com quem elas conseguem pensar em voz alta, não alguém a quem têm de apresentar uma versão polida.
Também começa a descobrir camadas inesperadas nas conversas do dia a dia. O colega que parece “negativo” pode estar, na verdade, com medo. O amigo que está sempre a brincar pode estar a esconder uma pergunta real. O adolescente que encolhe os ombros e diz “está tudo bem” pode, com três segundos extra de silêncio, acrescentar de repente: “Na verdade, aconteceu uma coisa na escola.” Pequenos ajustes nas suas respostas internas abrem grandes portas.
A maioria de nós não precisa de uma nova teoria de comunicação. Precisamos de uma forma de hackear discretamente a nossa própria mente, em tempo real, enquanto alguém fala. Rotular e aliviar não é brilhante. Não impressiona num CV. Ainda assim, pode mudar a temperatura de uma sala mais depressa do que qualquer workshop de liderança.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Nomear as reações internas | Usar uma palavra simples como “A julgar” ou “A consertar” quando aparece um comentário mental | Ajuda a ganhar distância dos pensamentos em vez de ser conduzido por eles |
| Criar um mini “espaço” | Depois do rótulo, voltar deliberadamente à voz da outra pessoa e às suas palavras | Permite ouvir de verdade antes de responder, reduz mal-entendidos |
| Prática diária direcionada | Escolher uma conversa por dia como “sessão de treino” de escuta | Transforma o gesto num hábito realista, sem pressão nem perfeccionismo |
FAQ:
- Quanto tempo demora até notar uma diferença? Muitas pessoas sentem uma mudança após apenas algumas conversas intencionais, especialmente em momentos tensos ou emocionais. O hábito mais profundo costuma construir-se ao longo de algumas semanas de prática leve e regular.
- Não vou perder a minha oportunidade de responder se abrandar assim? Ironicamente, tende a responder com mais clareza. Ao ouvir primeiro a mensagem completa, a sua resposta fica mais curta, mais precisa e mais relevante, mesmo que chegue um segundo mais tarde.
- E se os meus pensamentos forem muito altos ou críticos? Não precisa de os silenciar. Comece por rotulá-los com gentileza e muitas vezes. O objetivo não é “nenhum pensamento”, é “menos fusão com eles” enquanto se mantém com a outra pessoa.
- Isto ajuda em conflitos ou só em conversas calmas? É especialmente poderoso em conflito. Rotular “A defender” ou “A atacar” por dentro pode impedir que a discussão escale e abrir uma janela para compreensão genuína.
- Isto é o mesmo que mindfulness ou meditação? É um “primo” dessas práticas, mas usado no momento, em conversas reais. Não está sentado numa almofada; está a treinar a atenção no meio da conversa do dia a dia.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário