Saltar para o conteúdo

Usar afirmações baseadas em conquistas passadas reforça a confiança para enfrentar novos desafios.

Jovem a sorrir, escreve num caderno ao lado de um troféu e um portátil com uma medalha. Fundo: mochila e calendário.

Você volta a estar diante de algo novo. Um primeiro workshop, uma entrevista de emprego num edifício de vidro que cheira a café e a suor nervoso, um conjunto de slides em branco que o teu chefe quer até sexta-feira. O teu coração faz aquele estranho solo de bateria no peito. O teu cérebro começa a listar todas as formas possíveis de isto correr mal, incluindo algumas que desafiam a física.

Depois, quase por acaso, lembras-te daquela outra vez. O exame que tinhas a certeza que ias chumbar. A mudança para uma cidade nova. A conversa que temias e que, ainda assim, enfrentaste e sobreviveste. Ouves a tua própria voz, baixinho: “Já fiz coisas difíceis antes. Também consigo fazer isto.”

O ar não se enche de brilhantes de repente. Mas os teus ombros descem um pouco. A tua respiração abranda. O desafio continua ali, grande e real.

Só que tu já não pareces assim tão pequeno.

Porque é que as afirmações funcionam melhor quando vêm da tua história real

Percorres as redes sociais e vês afirmações por todo o lado, a flutuar sobre fundos em tons pastel: “Sou imparável.” “Atraio sucesso.” “Sou ilimitado.” Ficam bem. Raramente sobrevivem ao contacto direto com uma segunda-feira de manhã. O problema não é que as afirmações sejam tontas. É que a maioria soa ao guião de outra pessoa, não ao teu.

O teu cérebro é um verificador de factos bastante apurado. Quando sussurras “Sou um líder nato” enquanto te lembras da vez em que te esqueceste dos nomes da tua equipa numa reunião, o revirar de olhos mental é quase automático. Esse ceticismo interno mata o efeito antes de começar.

Afirmações enraizadas nas tuas vitórias passadas atravessam essa resistência. Não são fantasia. São provas.

Pensa na Sara, uma gestora de projetos de 32 anos que entra em pânico sempre que tem de apresentar a liderança sénior. Um coach disse-lhe uma vez para repetir: “Sou uma oradora confiante e inspiradora.” Ela tentou. As palavras pareciam disfarce. Continuava a tremer tanto que o ponteiro laser saltava pelo slide como uma mosca.

Um dia, lembrou-se de algo mais pequeno. Anos antes, tinha ajudado o primo mais novo, que estava a afogar-se nos estudos, a preparar-se para exames. Fez mapas mentais, transformou capítulos em histórias. O primo passou com notas excelentes.

Então reescreveu a frase na cabeça: “Já ajudei alguém a compreender coisas complexas. Também consigo guiar esta sala pelas minhas ideias.” De repente, a frase não era um desejo. Era uma ponte do “antes” para o “agora”.

Os psicólogos chamam a isto “autoeficácia” - a tua crença de que consegues agir e influenciar resultados. Não cresce com slogans. Cresce com evidência. Cada vez que recordas uma vitória concreta e a transformas em palavras, estás essencialmente a entregar ao teu sistema nervoso um dossier: “Prova A: terminei aquele curso enquanto trabalhava à noite. Prova B: mudei de país e construí uma nova rede. Prova C: aprendi um software inteiro do zero.”

O teu cérebro adora padrões. Quando vê um padrão de “coisa difícil → esforço → sucesso”, ajusta a previsão sobre a próxima coisa difícil. Essa mudança altera a tua postura, o teu tom de voz, a tua disposição para sequer começar.

A afirmação não é magia - está apenas a dirigir a tua atenção para dados que te tinhas esquecido de que já tinhas.

Como construir afirmações a partir das tuas próprias conquistas (sem vergonha alheia)

Começa com um passo simples, quase aborrecido: faz uma “lista de provas”. Pega na app de notas ou num pedaço de papel e escreve dez momentos em que fizeste algo que, na altura, te parecia assustador. Não precisam de ser glamorosos. Sair de dívidas conta. Sair de um trabalho tóxico conta. Falar uma vez numa sala cheia conta.

Para cada um, escreve uma frase que comece por “Consegui…” ou “Aprendi a…”. Depois liga isso a um desafio atual. “Consegui mudar-me para uma cidade nova sem conhecer ninguém - consigo lidar com a entrada nesta nova equipa.”

A partir daí, transforma essa ligação numa afirmação no presente: “Lido com ambientes novos melhor do que espero ao início.” É isto. Curto. Assente na realidade. Honesto. É a tua vida, traduzida numa frase que podes levar no bolso.

Há aqui uma armadilha em que muita gente inteligente cai: desvalorizar as próprias vitórias como “não sendo nada de especial”. Se tens funcionado em alto desempenho durante anos, as tuas conquistas começam a parecer as definições de fábrica. Aquela promoção? “Toda a gente acaba por ser promovida.” Aquele desgosto amoroso que ultrapassaste? “Tive de ser.”

Esta autoanulação silenciosa faz as afirmações parecerem falsas porque estás a tentar construí-las sobre conquistas que, secretamente, não respeitas. Começa a praticar o oposto. Quando o teu cérebro disser “Sim, mas qualquer pessoa podia ter feito isso”, responde: “Talvez. Mas fui eu que fiz.”

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. A vida faz barulho. Ainda assim, mesmo parar uma vez por semana para nomear uma vitória real e dar-lhe uma frase de respeito começa a reprogramar a forma como falas contigo quando aparece um desafio novo.

“Eu costumava dizer a mim própria: ‘Vais arrasar nesta apresentação’, e o meu corpo basicamente respondia: ‘Não, não vamos.’ Quando passei para ‘Já estiveste em salas muito mais assustadoras do que esta’, algo amoleceu. Não era sobre ser incrível. Era sobre ser coerente com a minha própria história.”

  • Começa pelos factos
    Escreve afirmações que referenciem eventos específicos de que te lembras com clareza.
  • Usa linguagem simples
    Se não o dirias em voz alta a um amigo, provavelmente está demasiado polido para soar real.
  • Liga o passado ao presente
    Menciona o que fizeste e depois o que estás a fazer agora: “Aprendi isto antes, por isso também consigo aprender isto.”
  • Mantém-nas curtas
    Uma linha em que acreditas vale mais do que um parágrafo inteiro em que não acreditas.
  • Repete em momentos-chave
    Antes de uma chamada, no elevador, ao abrir o portátil. O timing importa tanto como as palavras.

Viver com confiança baseada em evidências quando chega a próxima grande coisa

Há uma mudança silenciosa quando as tuas afirmações nascem do teu próprio passado, em vez de um poster motivacional. Os novos desafios não se tornam subitamente fáceis. Só deixam de parecer um veredicto sobre o teu valor. Começam a parecer mais o próximo capítulo de uma história que já reconheces.

Continuas a sentir o pulso acelerar antes de falares, enviares, candidatares-te, entrares. Só que também ouves uma segunda faixa a tocar por baixo: “Já fiz coisas difíceis, estranhas, desconfortáveis antes. Fiquei. Aprendi. Melhorei.”

Essa segunda faixa não apaga o medo. Só impede que o medo fale como a única autoridade na sala.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Usa conquistas reais como matéria-prima Transforma vitórias específicas do passado em frases no presente, ligadas a objetivos atuais Torna as afirmações credíveis e reduz a resistência interna
Combate o reflexo do “não é nada de especial” Honra conscientemente sucessos pequenos e médios que costumas desvalorizar Cria um arquivo interno mais rico para ires buscar confiança em momentos difíceis
Repete as afirmações nos pontos de pressão Usa-as mesmo antes de ações que disparam a dúvida - chamadas, reuniões, primeiros passos Ajuda a regular os nervos e a mudar o foco do medo para a capacidade

FAQ:

  • As afirmações resultam mesmo, ou isto é só pensamento desejoso?
    As afirmações, por si só, não mudam a tua vida. O que ajuda é usá-las para direcionar a tua atenção para experiências reais que provam que consegues agir sob pressão. Essa mudança de foco pode alterar a forma como apareces e o que estás disposto a tentar.
  • E se eu sentir que não tenho conquistas “grandes”?
    Olha mais pequeno e mais perto. Atravessar uma fase difícil, pedir ajuda, aprender uma nova app no trabalho, estabelecer um limite com a família - tudo isto são conquistas válidas. O teu sistema nervoso não quer saber se foi glamoroso; só quer saber que lidaste com a situação e aprendeste.
  • Com que frequência devo repetir as minhas afirmações?
    Usa-as nos momentos em que a tua dúvida é mais alta: antes de enviares um e-mail que te assusta, ao entrares numa sala, ou ao abrir o portátil de manhã. A qualidade da atenção vence a repetição pura e simples.
  • Ainda posso usar afirmações genéricas de livros ou apps?
    Podes, mas vão “assentar” melhor se as “traduzires” para a tua vida. Se gostas de “Sou resiliente”, reescreve como: “Recuperei de X, Y e Z. Sou resiliente o suficiente para isto também.”
  • E se o meu crítico interno discutir com todas as afirmações?
    Não lutes com afirmações maiores e mais altas. Vai para algo mais específico e modesto: “Não sei como isto vai correr, mas sei que já descobri coisas novas antes.” Começar num lugar que o teu crítico não consegue negar facilmente torna a prática sustentável.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário